Imagine que se sente perdido, triste, já não consegue encontrar motivos positivos para encarar o dia a dia. Ou, então, imagine que não consegue andar na rua sozinho, pois tem um medo tremendo de desmaiar, ter um ataque de pânico. Que já não consegue dormir, que é atormentado por milhares de pensamentos durante o dia.

 

Poderá ainda imaginar que a sua memória já não é o que era, que não consegue estar concentrado nem prestar atenção a nada. Pois bem, se sente algum dos sintomas supracitados poderá estar a sofrer de uma patologia do foro psicológico, entre as quais se destacam a depressão clínica e a perturbação de ansiedade. Saiba ainda que um psicólogo poderá ajudar a superar estes problemas.

 

O processo terapêutico

O processo psicoterapêutico é uma viagem ao interior de nós mesmos. 
Esta viagem deve ser tão eficaz, que permite que o paciente, nunca mais passe no porto do sofrimento, da depressão e da ansiedade.
Mas… saiba que esta viagem não é fácil e como eu costumo dizer: os meus pacientes são uns heróis corajosos que decidiram dar, um dia, o nome ao que sentem e nunca mais voltaram para trás…

 

1. Conhecer-se a si próprio

Antes de qualquer motivo, este é seguramente o primeiro e mais importante no processo psicoterapêutico. O autoconhecimento é deveras importante para sabermos quem somos e não aceitarmos que nos digam que não temos valor. O paciente ao conhecer-se a si mesmo, jamais aceitará relações de poder, chantagem e mentira. À medida que chegamos a nós, ganhamos poder sobre a nossa vida e aquilo que nos fazem ou dizem, que pode destruir o que sentimos, é impossível.

 

  1. Conhecer o outro e outros

Conhecer as outras pessoas e ganhar equilíbrio quando se está a relacionar. Quantas vezes se questionou que não entendeu o que ele(a) queria dizer, não conseguiu ‘ler nas entrelinhas’. Esta dificuldade vai minando as relações e podemos perder pessoas, amigos, relacionamentos amorosos, devido à nossa incapacidade de conhecer os outros. Este conhecer melhor os outros evita ‘erros de casting’ que às vezes nos fazem perder décadas de vida, que poderia ser gasta a viver plenamente.

 

  1. Ser Empático

 

A capacidade de ser empático é das mais importantes na vida, pois permitem-nos conseguir colocar no lugar do outro sem lá estar de facto. Permite não fazer o outro sofrer, pois conseguimos sentir aquilo que ele sente. A empatia é de extrema importância no contexto terapêutico por parte do psicólogo. Sem esta, o paciente não voltará mais à consulta, pois sentir-se-á incompreendido. Apesar de ser uma ferramenta na psicologia, é também muito eficaz se conseguir senti-la diariamente na sua vida. No processo, vai ter a oportunidade de se colocar no lugar do outro, dos outros, daqueles, daquelas e de todos. Mais ainda vai poder decidir quando quer ou não ser empático… e ainda mais: quem merece a sua empatia. Pois, porque como os antigos diziam: «Não podemos dar pérolas aos porcos», eles vão comê-las como bolotas. Sim, pode, em cada momento real da sua vida, decidir se quer ou não ter empatia e escolher as pessoas que a merecem.

 

  1. Saber dizer Não

Esta capacidade é muito importante, pois abre caminho ao respeito por nós mesmos e pelo que sentimos. Saber dizer Não é essencial para nos conseguirmos sentir bem nos diversos papéis que desempenhamos na vida. Costumo dizer aos pais de pacientes menores, que o maior investimento que poderão fazer pelos seus filhos é saber dizer Não. Ouvir não dos pais permite à criança aprender a lidar com a frustração, a saber abdicar de algumas coisas, a saber tomar decisões, a respeitar os outros, saber esperar… e a lista não acaba.

 

  1. Desenvolve a inteligência emocional(QE)

Quase todos os pacientes chegam com conflitos emocionais e muitas vezes com uma total incapacidade de identificar, reconhecer e sentir emoções. Dar nome ao que sentimos é muito importante na construção da nossa identidade. A QE permite-nos ter sensibilidade perante a vida. Um humano sem este tipo de inteligência é como um quadro sem cor. Ao conseguirmos desenvolver a capacidade de reconhecer e sentir as emoções, vamos conseguir aliviar as principais causas do sofrimento humano. O cérebro do paciente ao ser ativado nas áreas cerebrais responsáveis pelas emoções vai conseguir lidar e ultrapassar os conflitos emocionais.

 

  1. Aprende a pensar

Na vida, vamos ouvindo, desde a infância, os nossos a pais a dizerem: «Não penses», «Desvaloriza», «Pensa noutra coisa», «Para quê pensar nisso», nada poderia estar mais errado do que isto. Possivelmente já ouviu a frase: «Penso, logo existo», pois bem, a capacidade de pensar é o que nos distingue dos outros seres da natureza. Pensar, mesmo que seja um pensamento negativo é essencial para que nós consigamos entender o que se está a passar dentro e fora de nós mesmos. No processo psicoterapêutico o ‘pensar’ e ‘saber pensar’ é muito desenvolvido, pois permite que o paciente entenda o mundo, se entenda a si e enfrente os medos e inseguranças internas. Evitar pensar seria o mesmo que acumular o lixo diariamente em casa, um dia, certamente nem lá conseguiria entrar. No cérebro passa-se o mesmo, quando evitamos pensar, temos a sensação que o pensamento foi embora e vimo-nos livres dele. Pois é, está redondamente enganado, todos os pensamentos que evitamos, são armazenados na parte inconsciente do cérebro. Fica lá tudo, e depois, tem reações, comportamentos, fobias, medos sem saber porquê. Costumo dizer em jeito metafórico aos meus pacientes que o cérebro é muito traiçoeiro, pois vai acumulando tudo, dando-nos a sensação que nada lá está e depois, sem sabermos porquê desenvolvemos um ataque de pânico, uma taquicardia, dores psicossomáticas, ou mesmo depressão. Por todas estas razões, saiba que um processo psicoterapêutico poderia ensiná-lo a pensar e a não fugir de si mesmo. Alguns pacientes após a consulta gostam de ficar sozinhos algum tempo para assimilar e pensar acerca do que se passou na consulta.

 

  1. Aprende a sentir

Quem já fez ou faz psicoterapia comigo, sabe muito bem do que estou a falar. Depois de saber identificar as emoções (QE), e não ter medo de pensar, é importante também saber e permitir-se sentir. A frase: «Ccomo te sentiste nesse momento», ou «O que te faz sentir quando estás ali», «O que é sentires-te magoado?», etc., são frases que são repetidas por mim milhares de vezes durante o processo psicoterapêutico. Às vezes, demoramos alguns meses até que o paciente consiga identificar o que sente… mas chegamos sempre lá, mesmo nos cérebros mais racionais.

 

  1. Aprende asonhar

Já o poeta dizia que: «O Sonho comanda a vida». Muitas pessoas têm medo de sonhar, e quase sempre esta incapacidade de sonhar deriva de baixa autoestima e daquela tatuagem que os pais marcam na infância, de que a criança não pode ter expetativas altas, pois pode não conseguir chegar lá. Pois é, foram enganados! Não só podemos sonhar, como seremos com certeza capazes de lá chegar, e se não chegarmos, aprenderemos outros caminhos que mais à frente nos levarão até lá, ou até mesmo, descobrimos que afinal já não queremos aquilo. Se colocarmos logo à partida um travão, porque é difícil, porque outros não conseguiram, porque achamos que não somos capazes, certamente nunca lá chegaremos.

No processo psicoterapêutico o paciente percorre uma viagem ao interior de si mesmo e descobre, antes de mais, o que sente e que o faria feliz. Neste contexto ‘seguro’ e ‘sem julgamentos nem dogmas’, encontra espaço para sonhar livremente e, acima de tudo, coragem para iniciar cada caminho a que se propõe.

 

9. Permite-se ser feliz

A felicidade tem sido ao longo da história da Humanidade uma questão a ser estudada. Filósofos, pensadores, escritores, psicólogos, têm-se dedicado a aprofundar este assunto. Claro está, que eu não fugi à regra, fiz investigação acerca da felicidade numa vertente mais filosófica, fui em busca de algo que eu à partida já sabia a resposta, mas que, mesmo assim tinha que verificar por mim mesma e de preferência, com referências literárias e de pensamento que sustentassem o que eu pensava. Então, depois de ler algumas coisas, de escrever dois artigos acerca do assunto, de percorrer os filósofos antigos, alguns medievais e contemporâneos, cheguei à conclusão que ‘quase’ todos tocam nos mesmos pontos. A felicidade não advém de fatores exteriores ao homem, nem de bens materiais, nem da dependência de outra pessoa. A felicidade vem de dentro para fora e nunca de fora para dentro. Mesmo quando validamos essa felicidade no outro, nos outros, nas coisas, nas nossas construções, se não estivermos bem, não conseguimos sentir a felicidade. Isto explica que várias vezes encontre pessoas muito bem-sucedidas, com filhos, dinheiro, casas, companheiro(a), sucesso e se sintam extremamente infelizes.

Temos então aqui um ponto muito importante: se a felicidade tem que começar algures dentro de nós mesmos e se o processo psicoterapêutico é um caminho para dentro, então, este caminho poderá ajudar o paciente a sentir-se feliz.

 

10. Desenvolve a inteligência espiritual (QS) 

Nas últimas décadas, filósofos, psicólogos, teólogos dedicam-se ao estudo deste novo tipo de inteligência. A QS resulta da capacidade de refletir, dando sentido à própria vida e à dos outros. «Danah Zohar, filósofa e psicóloga na universidade de Harvard fez um estudo com grupos de executivos de multinacionais e chegou à conclusão, (que nós psicólogos comprovamos diariamente), que apesar destas pessoas serem bem-sucedidas no trabalho e na família, quando lhes perguntavam como se sentiam, afirmavam que apesar de todo o sucesso, sentiam um vazio nas suas vidas.» (Camões, C., 2005).

Tem sido uma das minhas preocupações ao longo dos últimos anos estudar este tipo de inteligência e ironicamente fui verificando que todos os meus pacientes a certa altura do processo psicoterapêutico passavam uma transformação muito profunda, que designo de Desenvolvimento Humano. Tenho constatado que a psicoterapia quando não inclui este crescimento pessoal profundo pode ser ineficaz a longo prazo.
Passo a explicar, quando o paciente recorre a ajuda psicológica vem com um quadro clínico de depressão, perturbação de ansiedade, fobias, etc. Ao ficar tratado dos conflitos emocionais que estão na base destas patologias, fica curado psiquicamente.

Mas, ficar curado psiquicamente não garante que passado algum tempo o paciente não venha a sentir as mesmas coisas. Por isso mesmo, é que o processo não pode terminar quando se trata a patologia, tem que ir muito além disso. Por isto também, é que não sou apologista de terapias breves que são como pensos rápidos, que podem voltar a sair e deixar a ferida a descoberto.

A psicoterapia deverá potenciar no Humano uma oportunidade de dar um sentido à sua vida, de alimentar a sua capacidade de acreditar no futuro, em si mesmo, em Deus, ou naquilo que cada um precisar para se sentir feliz!

Artigo publicado na Zen Energy Nº78 (edição de Julho de 2015)