Reflexões em quarentena (texto2)
CADA UM CONFINADO NA SUA COLMEIA
Estamos hoje mais conectados do que nunca e, paradoxalmente, mais isolados do que jamais estivemos. O Planeta inteiro partilha o mesmo destino trágico, as mesmas repercussões cruéis, o mesmo confinamento que deveria proteger-nos de um inimigo temível, invisível, desconhecido.
Ficámos aprisionados, angustiados por não sabermos o que o futuro nos reserva. Estamos em casas ou apartamentos pequenos ou grandes, tal como as abelhas operárias que têm de tratar de tudo no espaço limitado das suas colmeias. Cuidam da higiene da colmeia, garantem o alimento e a água, produzem cera para formar os favos, alimentam a rainha, os zangões e as larvas por nascer e cuidam da defesa da família. Ufa, quanto trabalho. Talvez seja por isso que vivem apenas 6 meses.
Por aqui, o nosso dia-a-dia mudou, e muito. Já não nos queixamos do trânsito, do trabalho, do nosso chefe, da correria diária. Já não precisamos de nos maquilharmos de manhã, de beber o café em pé e engasgarmo-nos com uma meia bolacha mal engolida. Já não nos apressamos para levar os nossos filhos à escola, de forma a não nos atrasarmos para aquela reunião importante.
As nossas atividades são algo diferentes: discutimos com o nosso parceiro porque ele toca na cara com frequência, zangamo-nos com os nossos filhos porque só querem jogar no computador e dormir até às 12h00, irritamo-nos com os vizinhos que querem sair à rua e infetar os nossos idosos queridos.
Os hábitos mudaram também. Fazemos coisas que nunca teríamos imaginado há um mês atrás, tal como deixámos de fazer outras que considerávamos vitais. Já não nos abraçamos, beijamos e damos as mãos. A febre do consumismo caiu vertiginosamente.
Aprendemos a trabalhar em casa e constatamos que não é assim tão mau – por enquanto. Todo o supérfluo nos parece fútil. A nossa vida reduziu-se drasticamente ao essencial. Estamos agora em slow motion – agradecidos por ter saúde, comida e um teto acolhedor.
O ar que respiramos parece menos poluído e o planeta inteiro respira melhor. A nossa Humanidade recebeu um golpe invisível de um bicho minúsculo com consequências inimagináveis: já não há trânsito, poluição nem correria. Há mais tempo para as nossas famílias, para namorar e, finalmente, ler aquele livro esquecido há já um ano por baixo da cama.
Mais vidas serão provavelmente salvas pela diminuição da poluição relacionada com a quarentena, do que pela própria quarentena. Enquanto os pulmões dos nossos idosos podem estar em apuros, os do nosso planeta portam-se particularmente bem.
A nossa vida nunca mais será a mesma.
Elisabeth BarnardDiretora da Zen Energy