M. Amos Clifford, autor de O Guia dos Banhos de Floresta

Shinrin-Yoku é uma arte japonesa que consiste, simplesmente, em relaxar na natureza e que tem ganho cada vez mais seguidores. M. Amos Clifford, fundador e presidente da Associação de Guias e Programas Terapêuticos da Natureza e Floresta, propõe, no seu livro, um reencontro com as nossas raízes e com a terra, um elo aparentemente perdido mas essencial ao equilíbrio mental, emocional e físico.

O que se entende por banhos de floresta?

Trata-se de nos movermos, lentamente, pelas florestas e outras áreas naturais, enquanto banhamos os nossos sentidos, percebemos o que nos traz prazer e relaxamos.

Caminhar é exatamente a mesma coisa que os banhos de floresta ou é completamente diferente?

É completamente diferente. Geralmente, as caminhadas têm um destino. Já os banhos de floresta são muito lentos e suaves. Numa típica caminhada guiada por terapia florestal podemos fazer 300 metros em 30 horas. Os banhos de floresta são mais sobre estar aqui e agora, do que chegar ao destino.

Imaginando que gostaria de me iniciar nos banhos de floresta, qual deverá ser
o primeiro passo?

Procure um guia de terapia florestal certificado, se existir um na sua área de residência. Caso contrário, leia o meu livro O Guia dos Banhos de Floresta. Lá dou uma explicação detalhada de como nos banharmos na floresta.

Devemos praticar regularmente?

Sim, quanto mais praticarmos estes banhos, mais benéficos serão.

É necessário ter os cinco sentidos bem despertos para que esta prática seja bem-sucedida?

Existem mais do apenas cinco sentidos. Esta prática despertará sentidos que já conhece, mas também ajudará a sentir mais profundamente, com o seu coração e intuição, por exemplo.

O que tem a floresta de especial para ter poderes curativos?

Há diversos aspectos da floresta que favorecem a nossa saúde. Por exemplo, o oxigénio fresco sob as árvores. Também os corpos
e espíritos respondem bem a sons naturais, como os que são feitos por riachos, pássaros e brisas. As árvores também emitem phytoncides, substâncias químicas que se mostraram benéficas quando as respiramos.

Todas as florestas têm estas capacidades curativas?

Depende de como passamos o tempo nas florestas. Se vamos andar de mota para a floresta, então provavelmente não estaremos a aproveitar como deveríamos. Se vamos à floresta apenas para extrair madeira, a situação é a mesma. Mas se a relação que temos com a floresta for baseada no respeito, se dedicarmos tempo a conhecer a floresta e as criaturas que vivem lá e soubermos apreciar os ciclos naturais da terra, então teremos muitos benefícios.

A floresta cura o nosso interior: dá-nos clareza mental, alivia tensões, conforta-nos. Mas será que também contribuímos para a reabilitação da própria floresta?

Sim, nos banhos de floresta praticamos o que chamamos place tending, o que significa sentir ternura pela floresta, para que se desenvolva nos nossos corações. De seguida, devemos deixar que os nossos corações repletos de ternura nos guiem, de modo a que possamos descobrir o que podemos fazer para cuidar da floresta e da terra.

Existem vários estudos que partilham informação sobre os benefícios dos banhos de floresta. Pode divulgar algumas dessas conclusões?

Reduz o stress, aumenta o prazer e o relaxamento, melhora a função do sistema imunitário, restaura a concentração e a criatividade. Não conheço nenhum estudo que demonstre isto, mas muitas pessoas afirmam que a floresta as apoia a nível espiritual e contribuem para melhores relacionamentos com elas mesmas e com outras pessoas.

Como contornar a ideia de que esta prática é uma perda de tempo?

Sugiro apenas que pare para pensar sobre a forma como tem gasto o seu tempo e questione-se se isso está realmente a funcionar para si, se está a desfrutar da vida tal como tem estado a vivê-la. Muitos adiam, perpetuamente, a realização do que consideram prazeroso, porque dizem, a eles mesmos, que estão demasiado ocupados. Mas a vida é incerta e o tempo de fazer o que é mais importante para nós e nos dá mais alegria é agora.

Por que é tão urgente recuperar a ligação entre o ser humano e a natureza?

Estamos num desastre ambiental global e multidimensional causado pelo ser humano. A minha opinião é que isto é o resultado de nos termos esquecido de como ter uma boa relação com o mundo. Precisamos de deixar de ver o mundo enquanto uma coleção de objetos que podemos explorar como recursos, e recordar como vê-lo vivo, inteligente e povoado por outras espécies, nossas parentes, membros da mesma família. Não temos muito mais tempo para nos lembrarmos disto e mudar a forma como vivemos. Foi isto que me levou a “apresentar” a terapia florestal ao mundo. Não conheço outra prática que ajude de forma tão rápida e eficaz a estabelecer o tipo de relacionamento, a lembrança
e o amor pela terra. Acredito realmente que a terapia florestal pode ajudar a salvar o mundo.

Por Catarina Cruz