Nem sempre a chegada do bebé acontece na altura planeada. A concepção é um processo complexo que pode demorar algum tempo. Para que a gravidez suceda, uma série de acontecimentos terão que se desenrolar em cadeia: a formação e libertação de um óvulo pelos ovários; a penetração do óvulo pelo espermatozoide, a sua chegada através das trompas até ao útero, a fixação do óvulo fecundado na parede do útero. Basta que um elo desta cadeia não funcione correctamente para que o sonho de ter um filho seja adiado.

 

Muitos são os casais que enfrentam o diagnóstico da infertilidade, definida como a incapacidade de conceber ao fim de um ano de prática sexual regular sem contracepção, ou ao fim de 6 meses, nos casos em que a mulher tem mais de 35 anos. Falamos também em infertilidade no caso de mulheres que, embora consigam engravidar, não conseguem levar a gravidez até ao fim. São múltiplos ainda, os casos de infertilidade secundária, ou seja, de casais que não tiveram qualquer dificuldade na primeira gravidez e que não conseguem ter o segundo filho. Este problema pode ter inúmeras causas, como por exemplo, o aumento da idade da mulher ou a diminuição da qualidade do esperma do homem.

 

A infertilidade conjugal

Estudos indicam que a infertilidade conjugal atinge, na população mundial, cerca de 10 a 15% dos casais em idade fértil, sendo mais frequente nos que possuem idade mais elevada. Os números da Sociedade Portuguesa de Medicina de Reprodução revelam que, em Portugal, em 2013, existia mais de meio milhão de casais, para quem, o encontro entre as células reprodutoras masculinas e femininas não resulta em fecundação. Infelizmente, estes números tendem a aumentar devido à combinação do estilo de vida, com factores ambientais, tais como: consumo de álcool, drogas, alguns fármacos, cafeína em excesso, tabaco, stress, alimentação desequilibrada, ingestão deficitária de nutrientes que potenciam a fertilidade, obesidade, sedentarismo, adiamento da maternidade, poluição, exposição a xenoestrogénios (compostos produzidos pela indústria dos plásticos e pesticidas que afetam o equilíbrio hormonal de ambos os sexos)…

Acredita-se, pois, que além das anomalias relacionadas com o aparelho reprodutor, e de algumas doenças (oncológicas, auto-imunes, infecções sexualmente transmissíveis, entre outras), existem factores ambientais e comportamentais que podem interferir na concepção, pelo que os membros do casal devem procurar seguir um estilo de vida saudável.

 

É aconselhável que a mulher, em particular, não adie a gravidez, pelo menos a primeira, para além dos 35 anos, idade a partir da qual a fertilidade feminina decresce acentuadamente e que consulte regularmente o ginecologista, para detectar eventuais patologias que possam inviabilizar a gravidez. De assinalar que a fertilidade masculina também decresce com a idade.

A obesidade contribui para a diminuição da fertilidade. Sobretudo nas mulheres, esta associação está claramente demonstrada, mas também os homens devem vigiar o seu peso.

Verifica-se que as mulheres são mais férteis quando não são nem muito magras nem muito gordas.

A ansiedade que assalta os casais durante este processo é, em simultâneo, uma consequência e uma causa da dificuldade em engravidar. Os casais que tentam ter um bebé estão, de facto, expostos a elevados níveis de stresse quanto mais tempo demoram a alcançar resultados, mais ansiosos ficam, o que por si só promove o stress que inibe a fertilidade e afecta o desejo sexual. É, pois, imperativo interromper este ciclo.

O timing das relações sexuais, para quem está a tentar engravidar, é fundamental.
É muito fácil ter relações sexuais na altura errada e não tão frequentemente quanto o necessário. Na altura da ovulação, o melhor é ter relações sexuais dia sim, dia não, de forma a maximizar o volume de esperma.

Existem testes específicos para determinar se a causa da infertilidade é masculina ou feminina, contudo, muitas vezes, a dificuldade em conceber é influenciada por uma combinação de factores e não apenas por um. Estima-se que cerca de 35% das causas de infertilidade sejam masculinas, outros 35% femininos, 15% causas mistas e os restantes 15% causas inexplicáveis ou que não se identificam.

 

Eficácia da acupunctura na fertilidade

Jonhson (2006), identificou os 3 principais mecanismos que contribuem para a eficácia da acupunctura na fertilidade. Primeiro, a acupunctura a partir da estimulação de pontos específicos promove a regularização hormonal e melhora a função do útero. Segundo, a acupunctura aumenta o fluxo sanguíneo no ovário e no útero, espessando o endométrio, deixando-o mais receptivo ao embrião. Terceiro, a acupunctura promove o relaxamento e bem-estar, diminui o stress e a ansiedade, factores importantes na infertilidade.

Também a fertilidade masculina pode ser potenciada com a acupunctura. Diversos estudos confirmam a melhoria dos resultados do espermograma. A acupunctura estimula a espermatogénese, aumentando tanto a quantidade de espermatozoides produzidos como a sua qualidade (mobilidade e morfologia).

A acupunctura é uma terapia muito eficaz no tratamento da infertilidade, que pode ser realizada isoladamente ou complementarmente a outro tratamento. O importante é que as consultas de fertilidade possam terminar sempre com a boa notícia!

 

Medicina tradicional chinesa

A acupunctura é a disciplina da medicina tradicional chinesa (MTC) mais popular no ocidente. Ficou muito conhecida entre nós devido à sua eficiência no tratamento de vários tipos de dores músculo-esqueléticas. Porém, existem muitas outras condições clínicas que podem ser beneficiadas com esse tipo de tratamento (MEDEIROS, 2009).

A primeira informação sobre a técnica veio através de uma colecção de manuscritos chineses do séc. XVIII a.C. – O NeiJing (Nei Ching), conhecido como o Tratado do Imperador Amarelo que revela os dogmas da Medicina Chinesa. Segundo esta filosofia, todos os seres vivos possuem uma força vital ou energia (chi). No organismo manifestam-se duas polaridades: yin e yang, que devem estar em equilíbrio para que o chi possa fluir correctamente, mantendo saudáveis as funções vitais. A MTC encara cada pessoa como parte de um todo e para haver equilíbrio, a energia deve fluir harmoniosamente. Sempre que há um problema deve tratar-se a sua origem para que não volte a surgir.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o uso da acupunctura no tratamento de inúmeras patologias, nomeadamente na infertilidade, reconhece a sua eficácia em 75% dos casos.

Estudos recentes demonstram que a medicina tradicional chinesa pode regularizar o sistema hormonal, induzir a ovulação, melhorar o fluxo sanguíneo do útero e normalizar o ciclo menstrual, além disso, também tem impacto em pacientes com infertilidade decorrentes da síndrome do ovário policístico, ansiedade, stress e distúrbios imunológicos (Huang e Chen, 2008).

Estudos anteriores já haviam comprovado que a acupunctura aumenta a eficácia de outros tratamentos, como a fertilização in vitro. Conscientes dos benefícios obtidos com a conjugação das duas técnicas, muitas clínicas de reprodução humana recomendam a acupunctura como tratamento complementar aos ciclos de fertilização in vitro.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº71 (edição de Dezembro de 2014)