Vários estudos de um ramo académico interdisciplinar que articula a psicologia com a economia têm demonstrado a consistência de um conjunto estrito de fatores sociais que determinam as circunstâncias em que cada pessoa desenvolve as condições subjetivas que lhe permitem alcançar a felicidade. Analisando dados estatísticos dos últimos 60 anos, a psicologia económica chega à conclusão que, apesar das sociedades ocidentais se terem tornado mais ricas e das condições de vida e de consumo terem melhorado substancialmente, os índices de felicidade e de satisfação das pessoas mantêm-se praticamente inalterados.
As pessoas habituam-se com facilidade a padrões de vida mais elevados. Uma vez adquiridas determinadas regalias ou rendimentos, dificilmente prescindem deles.

 

Concretizada a adaptação hedonista para um patamar individual de bem-estar superior, é provável que apareçam novos estímulos e motivações para alcançar um padrão de vida ainda mais elevado. Este esquema de mobilidade e ascensão social é uma aspiração natural do ser humano instigada por padrões culturais que valorizam o estatuto social, a competitividade, o sucesso e níveis satisfatórios de consumo, pelo que qualquer revés de fortuna pode criar frustrações que impedem o sentimento de realização pessoal e de bem-estar subjetivo.
A harmonia das relações familiares e afetivas, uma situação económica autossuficiente, um posto de trabalho seguro e com perspetivas de futuro, uma rede sólida de amigos, bem como a integração num estado democrático que protege os cidadãos e garante a liberdade e os direitos fundamentais são os principais fatores sociais sem os quais é difícil imaginar um nível de bem-estar a que possamos chamar felicidade no contexto das sociedades contemporâneas ocidentais.
Se o ser humano se habitua rapidamente a situações de bem-estar superior, o mesmo não acontece quando tem de se sujeitar a situações de desconforto, instabilidade, insegurança e dependência. A passagem para um ambiente de piores circunstâncias faz-se com sacrifício, contrariedade e amargura. As pessoas sentem-se incomodadas quando o seu nível de rendimento diminui em vez de aumentar, ou quando o seu salário ao longo do tempo decresce em vez de crescer. A hipótese de rendimento relativo – relativo em relação ao passado e em relação aos outros – é a que melhor explica, em termos de psicologia económica, as variáveis exteriores que condicionam o alcance da felicidade.
Indicadores nacionais
de felicidade
A crise económica que assola a Europa tem-se traduzido em medidas públicas restritivas que acentuam consideravelmente os riscos psicossociais no trabalho e na vida familiar. A pobreza, o desemprego, a corrupção, a falta de confiança nos representantes políticos e nas instituições do Estado afetam negativamente as condições sociais relacionadas com os indicadores nacionais de felicidade.
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho aponta as principais deficiências vulgarmente existentes na conceção, organização e gestão do trabalho que induzem os riscos psicossociais. Estas deficiências, muitas vezes associadas a um contexto socioeconómico problemático, podem ter consequências nocivas ao nível psicológico e físico dos empregados, como sejam o stress, a desmotivação, o esgotamento e a depressão. Cargas de trabalho excessivas, isolamento ou falta de comunicação nos locais de atividade, exigências contraditórias no desempenho das funções, falta de autonomia na organização e execução das tarefas mais simples, prazos impossíveis de cumprir, recompensas injustas e insegurança no emprego podem levar a um fraco desempenho do indivíduo, ao aumento do absentismo e, finalmente, ao desgaste, ao stress e à depressão.

No mundo do trabalho/família
A nível diverso, com influência repartida no mundo do trabalho e no círculo da família, o assédio moral encontra-se também na origem de muitos casos de desânimo e desamparo que podem afetar seriamente o equilíbrio emocional das pessoas. De um modo lato, considera-se assédio moral qualquer conduta hostil reiterada ao longo do tempo que vise deliberadamente diminuir e humilhar o outro sem qualquer justificação. A intimidação, a manipulação e a desvalorização sistemática do outro configuram um abuso de poder exercido com recurso a uma violência psicológica que tem por objetivo aniquilar a integridade psíquica do outro e a sua dignidade humana.
No mundo do trabalho, este tipo de violência psicológica pode ser praticada por colegas ou por superiores hierárquicos, quase sempre com características e resultados semelhantes: isolamento, degradação do ambiente de trabalho, ameaças veladas e constante agressão verbal até que o
indivíduo acabe por desistir do emprego.
No círculo da família, o assédio moral é também uma triste realidade que traduz a deterioração dos sentimentos positivos e do respeito mútuo. Entre casais o assédio moral e a violência física são frequentemente praticados como formas de domínio sobre o outro como se exprimissem um direito de propriedade, na tentativa de reduzir o outro a objeto.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 91 (edição de agosto de 2016)