Leio um texto muito interessante, de Marcel Camargo (e partilhado por uma amiga minha no Facebook), no qual me inspiro, não só para escrever a crónica para este mês, mas também para lhe roubar o título. Aliás, o título foi o que mais me chamou a atenção. Aproveitando algumas ideias desse mesmo texto, que falava essencialmente do ‘cuidado redobrado’ em lidar com as nossas conquistas na vida, ou seja, de como gerir a nossa felicidade face àqueles que nos rodeiam, inimigos e amigos. Em síntese, o importante é entender que nem tudo o que nos faz felizes tem de estar nessa ‘vitrina social’ ‘só para inglês ver’.

E é por aqui que começo, pela forma como compartilhamos essas nossas vitórias, com quem e quando as partilhamos. Há um belo ensinamento que aprecio e um dos que mais entoa no meu pensamento, um verdadeiro canivete suíço, que diz: «Não partilhes a tua felicidade com alguém que não seja tão feliz como tu». Dependendo de quem me interpela, a forma como partilho algo da minha vida terá que necessariamente ‘variar’. Acresce ainda o seguinte: Só porque não partilho com fulano ou beltrano, não significa que não goste dessa pessoa. Pelo contrário, às vezes partilhar esse nosso bem-estar com alguém, que até nos quer imenso bem, pode incorrer num dos piores e mais fatais atos de egoísmo, que é infligir mal-estar em alguém que, infelizmente, ainda não teve ‘sorte’, seja lá por que motivo for. A nossa montra pode ser muito linda aos nossos olhos, mas quem nos garante que ao mostrar tais triunfos estamos a propagar alegria nos demais?
Por isso, e voltando ao título, cada vez mais refino o meu cuidado em mostrar algumas ‘glórias’, por estes e outros motivos. Confesso que há em mim (ainda) uma tentadora tendência para uma certa ironia, muitas vezes misturada com alguns pedaços de um ego malcheiroso, confesso, principalmente, quando sabemos que no nosso repertório também entram os ‘chicos espertos’ do costume, fingindo vibrar por nós nesses nossos famigerados sucessos.

Apenas lamento quando quero abrir o meu coração a certos amigos que não estão (ainda) prontos para ouvir nem para falar, não porque sejam menos felizes do que eu, mas porque ainda sofrem de doença chamada ‘medo’, medo em abrir uma montra em que corremos o risco de encontrar um artigo já muito velho e em desuso, um escaparate cheio de pó e, às vezes, até com muito mau cheiro. Apenas um parêntese: quando falo em conquistas não me refiro apenas à ‘nova coleção’, mas também a certos monos que, embora não estando ainda eliminados, estão lá para serem mais cedo ou mais tarde substituídos por algo melhor.

Confúcio lembrava que o silêncio nunca traía. Concordo apenas em parte com a ideia, principalmente quando queremos gritar alto a nossa felicidade, mas ficamos com algum receio em acordar a Dona Inveja do seu habitual sono leve.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 87 (edição de abril de 2016)