A bola caída rolou pelo passeio até à mão de um pequeno sapateiro de rua, um rapaz sentado numa caixa de cartão numa rua árabe. Sem pinheiros, sem enfeites, sem presentes pegou na bola e, assim que o sol nela reluziu, percebeu ser uma bola de uma árvore de Natal. Nela entrou com a alma e recuou ao tempo em que esteve pendurada.

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Dentro dela viu crianças de gorros. Viu uma mesa cheia de comida e à volta uma família forçosamente feliz. Viu também, a um canto da sala, um menino triste. Um menino com um pião na mão, triste por só ter um pião. O rapaz árabe sentou-se ao lado dele e pediu-lhe segredo, ambos trocaram os objetos. Assim que aquele rapaz triste olhou bem dentro daquela bola, viu um menino árabe que desde criança os únicos presentes que teve foram caixas de papelão. Nele viu sorrisos espelhados em cada ano, em cada Natal.

Entretanto, o outro deu corda e fez rolar o pião.

Em doze voltas que deu, ambos, agora de vidas trocadas, viram-se em famílias diferentes. O sapateiro foi para a escola e o seu amigo foi engraxar sapatos. O que um desaprendeu naquela sala de aulas, o outro aprendeu com uma caixa de papelão.

Hoje ainda vivem em vidas trocadas. Um menino que não queria só um pião e que agora é um sapateiro feliz no meio de um povo de turbantes e chás com sabor a vida. O outro vive numa casa de família que nunca teve, rodeado de afetos e a desaprender cada vez mais sempre que vai para uma escola, onde os olhos dos seus amigos não brilham, não crescem com uma rua cheia de gente, mercados e cores. Gente de cantigas na boca e de sinceridade no coração.

De vez em quando, ainda se encontram naquela sala em vésperas de Natal. Ambos sorriem, ambos se abraçam. Um é feliz por viver numa pobreza tão rica e o outro habituado a sorrir perante as adversidades, continua a sorrir, não por viver agora a vida que gostaria, mas por fazer alguém feliz ao ter trocado uma escola de paradigmas e vícios de gente adulta por uma rua livre, graxa e histórias contadas a cada sapato engraxado…

Não deixa de ser criança o que trabalha a felicidade, mas sim o que estuda a falta de tempo para ser feliz.

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Ricardo D Marhttps://www.facebook.com/profile.php?id=100021973334702