As relações humanas exigem algum exercício de reflexão para funcionar bem. Seja no trabalho, na vida social ou na família, deveremos aprender a reflectir sobre o nosso papel interpessoal. Só desta forma poderemos estar em relação ‘com consciência e verdade’.

 

Apesar do amor e da paixão serem dois pilares importantes e fundamentais em termos relacionais, não são suficientes para uma relação duradoura e satisfatória. Muitas pessoas têm uma relação de casal muito tumultuosa. Se por um lado se sentem apaixonados, por outro, discutem com frequência. Por mais que sintam que se amam, não conseguem harmonizar a sua relação, a qual lhes provoca angústia e desespero. Muitas vezes não sabem o que fazer ou como manter o relacionamento.

 

Relação de casal e compatibilidade

‘Ser incompatível’ poderia ser definido como ‘pensar diferente’…mas, a ser assim, somos todos incompatíveis, pois há tantas formas de pensar como indivíduos há no mundo.

Podemos inclusive conjeturar que a relação de casal clássica é, por definição, uma oposição em si mesma, porque consta da união de pessoas de sexos distintos, ditos ‘opostos’. Esta condição une-os, mas também os pode separar, porque cada sexo tem as suas próprias características inatas e culturais, que podem obviar a vida em comum, principalmente se um dos membros é dependente. Por outro lado, casais do mesmo sexo, ‘debatem-se’ também com as suas próprias incompatibilidades.

Homens e mulheres diferem física, emocional e intelectualmente… as mulheres, de um modo geral, são fisicamente mais pequenas e menos robustas, eventualmente mais emocionais do que racionais, enquanto o homem é mais corpulento e pensa de uma forma mais racional. Por natureza, homem e mulher podem ter visões muito distintas sobre a vida. Diz John Gray, terapeuta familiar e autor americano, que «os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus». Acho engraçada a comparação… mas, a questão é que o encontro de ambos se dá aqui, na Terra!

Sinto que a Natureza, na sua eterna sabedoria, fez com que ambos se pudessem complementar harmoniosamente sendo diferentes… acrescentaria que isso será possível se houver maturidade e consciência q.b.

 

Atracções ‘erradas’ e o desafio de crescer em relação

Quando, reiteradamente, nos sentimos atraídos por pessoas que intuímos que nos vão tratar mal ou que vão trazer conflitos à relação, escolhendo relações cujo vínculo não dura, nem sequer é saudável ou gratificante, há algo em nós mesmos que não estamos a ver. Ou seja: temos que parar para perceber o que, inconscientemente, se está a passar dentro de nós, uma vez que estes são sinais inequívocos de que é premente que tomemos consciência de um padrão pessoal automático. Algo dentro de nós precisa ser trazido à luz da nossa consciência. E esse algo,reflecte-se no nosso exterior, fora de nós, no tipo de relações que estabelecemos.

De um modo geral, são características da nossa personalidade às quais não temos dado a devida importância, são sinónimo de áreas de poder que desprezámos e que temos que aprender a resgatar.

Esconder e negar uma parte da nossa personalidade ou quem realmente somos (de modo geral, com o objectivo de que nos aceitem, por exemplo) significa dar o nosso poder a outros e esse facto, mais cedo ou mais tarde, irá voltar-se contra nós mesmos. Por outro lado, sufocarmos partes nossas, implica uma tremenda perda de energia, provocando desequilíbrios ao nível psico-emocional e físico.

Vejamos alguns exemplos de atracções ‘erradas’:

  • Alguém que procura reiteradamente um companheiro maltratante, terá que aprender a colocar limites e a dar-se valor;
  • Alguém que se envolve com a primeira pessoa que se aproxima, não mostrando uma escolha centrada, ao contrário, deixando-se aceitar sem hesitar, apenas porque alguém a escolheu. Nestes casos, podemos estar perante o medo da solidão e a espera, pelo que a lição a reter seria aprender a estar feliz, apesar de sozinho;
  • Alguém que tenta salvar um vínculo doentio ou que naufragou em detrimento da sua integridade e saúde pessoais ou que ficou preso num relacionamento, não se sentiria melhor aceitando colocar um ponto final interiormente, soltar e abrir-se a um futuro melhor? Aceitar é o primeiro passo para a paz interior.

 

No fundo, o importante é estarmos atentos, em Atenção Plena. Se se sente atraído por alguém cujas diferenças o magoam, numa dinâmica pautada pela tristeza e o desgaste, há que parar para sentir e pensar… e para descobrir dentro de si mesmo o que é necessário mudar para encher a vida de cores vibrantes e de emoções prazenteiras. Depende de cada um esta escolha… esta libertação de padrões ‘errados’ de relação para relações de respeito e consciência, sobretudo connosco mesmos.

Todo o ser humano tem a oportunidade de se libertar dos condicionamentos do passado, atingir a independência e relacionar-se afectivamente com alguém de uma forma adulta, madura e consciente e reescrever a sua história.

 

Projecções

Então, quando há conflito, deve-se começar por nós mesmos? Claro! Os problemas da relação são, acima de tudo, problemas connosco mesmos, são problemas pessoais que vêm à luz no decorrer da relação. Há que averiguar, no conflito dual, qual é o conflito pessoal. A questão é ‘se lhe incomoda esta situação, que questão pessoal se reflecte no conflito?’.

Na realidade, podemos afirmar que projectamos no outro, as partes de nós que mais rejeitamos. Assim, quando procuram um companheiro, as pessoas sentem-se, por vezes, atraídas por quem se parece com os seus pais, procurando alguém parecido com o pai ou a mãe com quem se identificam mais, que tiveram ou que gostariam de ter tido. Desejam secreta e inconscientemente voltar a receber o que lhes deram ou, eventualmente, que não lhes deram! Colocamos assim no outro o ónus das nossas expectativas. Só que temos que ter em conta que as expectativas são ‘coisa da nossa responsabilidade’!

Carl Jung, psicoterapeuta, dizia que temos no nosso inconsciente um determinado tipo de companheiro interior, ou seja, uma imagem oposta de nós mesmos, com qualidades e defeitos com os quais não conseguimos lidar de uma forma consciente. O que acontece é que projectamos essa imagem sobre a pessoa com quem nos relacionamos intimamente. Curiosamente, Jung dizia que «a relação com um companheiro que reflicta o nosso companheiro interior dura toda a vida…».

 

‘Nem contigo, nem sem ti’

Uma situação de amor / ódio (as duas caras da mesma moeda) provoca muita angústia e stress, sendo sinónimo de infelicidade constante. Juntos, a relação é pautada pela tensão e desgaste… separados, sentem não ser ninguém sem o outro por perto.

Muitas vezes a ausência de harmonia decorre da ausência de códigos e interesses comuns… ou da falta de diálogo… ou, o que é mais comum, da falta de consciência interpessoal.

Existem diferentes tipos de personalidade e de formas de ser e estar na vida e o senso comum pode fazer-nos pensar que pessoas ‘parecidas’ resultam melhor numa relação. Porém, personalidades idênticas podem não ser factor suficiente para o êxito relacional, uma vez que existem outros factores que concorrem para o sucesso da mesma.

Alguns traços de personalidade são opostos em termos de dinâmica: Introvertido vs Extrovertido, Solitário vs Sociável, Passivo vs Activo, Teórico vs Prático, Organizado vs Desorganizado. Será, então, que as diferenças de personalidade desagastam a relação? Curiosamente, Jorge Bucay, psicoterapeuta, refere que: «Enamorar-se é amar as coincidências. Amar é enamorar-se das diferenças».

Penso que personalidades opostas podem tornar possível uma relação estável, se esta se basear no facto de ambos, e apesar das suas diferenças, terem um objectivo e um projecto de vida comuns. Ou seja, o facto de duas pessoas diferentes poderem estar juntas deve-se ao sentido de complementaridade, gerando uma riqueza de vivências e proporcionando oportunidades importantes de encontro do equilíbrio.

 

Funcionar com a diferença

Como é que podemos aprender a funcionar melhor e a incorporar novos comportamentos que nos ajudam nos nossos relacionamentos? Como é que isso tudo pode dar certo, quando é bastante comum haver uniões de pessoas com gostos, desejos e formas de funcionar tão distintas?

Homem e mulher são diferentes na maneira como funcionam num relacionamento afectivo. As diferenças são múltiplas e dependem da sensibilidade de cada um, da história da infância, da vulnerabilidade, do tipo de vínculo que cada um faz com os outros e de eventuais traumas vividos. Ultrapassar as diferenças de personalidade requer tolerância e maturidade.

Viver uma relação com alguém diferente, mas que exerce uma forte atracção pode ser um autêntico desafio… deixo algumas ideias para abrir oportunidades de uma nova história:

 

  • As relações entre duas pessoas muitos diferentes entre si podem ser bastante enriquecedoras, sobretudo se nenhum dos membros do casal quer mudar a maneira de ser ou o comportamento do outro;
  • Com o tempo, as personalidades sofrem mudanças e vão-se moldando, mas não deve esperar que o seu companheiro se converta em alguém muito parecido a si, tal como não é justo que aquele espere isso de si;
  • Ao longo da relação podem surgir numerosos desacordos e estes não devem ser sistematicamente associados a todas as diferenças de personalidade que existem, uma vez que estas também têm lugar nos casais nas quais as diferenças não são tão evidentes. As diferenças e desacordos têm que ser interpretados como uma consequência do crescimento de cada pessoa e da evolução das suas necessidades;
  • Deverão ser encontradas formas que ajudem a dissolver as eventuais desavenças entre o casal, como por exemplo, parar uma discussão que aumenta de tom, impedindo atempadamente que a expressão de sentimentos ultrapasse o ponto de ebulição e turve a capacidade de pensar;
  • Aprender a saber escutar e a respeitar sentimentos, crenças e pontos de vista distintos, mesmo que não se entenda ou concorde com os mesmos;
  • Aprender a respeitar o processo pessoal de cada um, honrando, acima de tudo, a relação existente, ou seja, ter em conta que o casal se constitui numa equipa composta por 3 jogadores: eu, tu… e nós!
  • Finalmente, sejamos parcos nas idealizações… não se pode esperar uma vida onde não existam conflitos. O que podemos fazer é ver os mesmos como uma oportunidade de aprendizagem e de desenvolvimento pessoal.

 

Acima de tudo, deveríamos aprender a premiarmo-nos pelo que fazemos bem sem esperar a aprovação exterior, a estarmos orgulhosos de nós mesmos sem necessitar de apoio, a nos alegrarmos com a alegria do outro, apesar dos seus objectivos poderem ser distintos dos nossos e a conseguirmos ser duas pessoas que decidem partilhar um projecto de vida comum de modo a se desenvolverem como relação e crescer individualmente.

Artigo publicado na Zen Energy Nº 73 (edição de Fevereiro de 2015)