De acordo com a tradição budista, Sabedoria e Compaixão são como «as duas asas de um pássaro» e a Atenção Plena e a Meditação podem ajudar-nos a cultivar ambas.

Se a Sabedoria decorre da perceção precisa da vida, da visão para lá da superfície das experiências, do olhar profundo que mergulha na Natureza, da quietude presente no mar agitado da vida, a Compaixão, essa consciência suave e amável, resulta de levar essa perceção profunda à relação connosco e com os outros.

 

A prática da autocompaixão é uma forma especial para reduzir gradualmente a nossa tendência de resistirmos à dor e de nos apegarmos ao prazer, aprendendo a aceitar o que há… a experiência tal como ela se apresenta… sem crítica ou julgamento… e com uma atitude de carinho enquanto a dor perdura.

Se mindfulness diz: «Dá-te conta da dor», a autocompaixão adverte: «Abraça a dor… dá-te carinho em meio durante o sofrimento».

 

Definição de compaixão

Na sua raiz latina, etimologicamente, ‘compaixão’ significa ‘sofrer com’ (com = com; pati = sofrimento). Por outro lado, também se prende com ‘sentimento’, ou seja, refere-se ao facto de não se ser indiferente ao sofrimento de outrem e prende-se com a atitude de empatia e o desejo de ajudar.

Ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com o outro não só a sua infelicidade mas sentir também todos os seus outros sentimentos: alegria, angústia, felicidade, dor.
Ter compaixão por si mesmo não é realmente diferente de ter compaixão pelos outros. Ter compaixão significa a possibilidade de oferecer compreensão e bondade aos outros e a nós mesmos, por oposição a uma atitude de julgamento severo. Em última análise, implica darmo-nos conta de que a dor, o sentimento de fracasso e a imperfeição, fazem parte da experiência humana partilhada.

Em vez de se ignorar a dor, devemos permitir-nos dizer a nós mesmos: «Este momento é muito difícil, como posso cuidar de mim e dar-me consolo nesta fase?». Em vez de ignorar a dor e, o que é pior, de nos julgarmos ou criticarmos, a autocompaixão significa sermos amáveis e compreensivos quando enfrentamos os nossos erros pessoais: é admitirmos e aceitarmos que não temos que ser perfeitos.

Termos compaixão por nós mesmos é, acima de tudo, honrar e aceitar a nossa humanidade. Porque no caminho da vida há muitos reveses: frustrações, perdas, limitações, desidealizações… esta é a condição humana e, quanto mais se abre o coração a esta realidade, em lugar de lutar contra ela, mais facilidade teremos em sentir compaixão por nós mesmos, e por quem nos rodeia, nesta experiência que é a vida.

 

Os elementos da compaixão

  • Bondade com nós mesmos. Termos a capacidade de sermos calmos e compreensivos connosco quando sofremos, nos sentimos rejeitados ou desadequados ou cometemos eventuais erros, em lugar de nos flagelarmos com a autocrítica. Quando há autocompaixão, podemos mais facilmente reconhecer a imperfeição do ser humano e aceitar que as dificuldades na vida são inevitáveis, mas que podem ser transformadas em desafios e aprendizagens, pelo que acabam por ser úteis ao nosso desenvolvimento. Se negamos esta realidade, ou lutamos contra ela, em lugar de aceitarmos compassivamente (não passivamente!) o sofrimento, este aumenta na forma de stress através da frustração e da autocrítica. Ao contrário, quando essa realidade da vida é aceite com simpatia e amabilidade, experimenta-se uma maior equanimidade emocional.

 

  • Humanidade partilhada. A compaixão passa também por reconhecermos que a dor e o sofrimento fazem parte da Humanidade como um todo, e que não nos acontece apenas a nós, pois por vezes temos essa sensação de sermos os únicos que sofremos e a quem as coisas correm mal. Muitos aspetos de nós mesmos e das circunstâncias das nossas vidas não são escolha nossa, decorrendo de fatores genéticos e/ou do ambiente que nos rodeia e sobre os quais temos pouco ou nenhum controlo. Desta forma, ao reconhecermos a nossa interdependência essencial, os fracassos e as dificuldades deixam de ter que ser vistos como algo pessoal, podendo ser reconhecidos e aceites sem preconceitos, nem julgamentos, ou seja, com compreensão… e compaixão.

 

  • Atenção plena. A capacidade de ‘prestar atenção e de aceitar o momento presente’ constitui-se numa prática que nos pode ajudar a desenvolver a autocompaixão, a qual também requer uma abordagem equilibrada das nossas emoções ‘negativas’, de modo a que as mesmas não sejam exageradas, nem suprimidas. Esta postura equilibrada decorre do processo de relacionar experiências pessoais com as de outras pessoas que também estão a sofrer, colocando a nossa situação numa perspetiva mais ampla. Também decorre da nossa vontade de observar os nossos pensamentos e emoções com clareza, tal como surgem no momento presente, com uma atitude de não julgamento e/ou negação. Facto é que não podemos ignorar a nossa dor e sentir compaixão por esta ao mesmo tempo. O estado de atenção plena ajuda a este processo, requerendo para isso que não nos identifiquemos com os nossos pensamentos e sentimentos, correndo o risco de ficarmos literalmente prisioneiros dos mesmos e das consequentes reações negativas, pois somos muito mais do que aquilo que pensamos e sentimos!

 

Ciência, meditação e compaixão

Através de exames de ressonância magnética, constatou-se que durante a prática da meditação é possível atingir estados de ‘compaixão pura’ (semelhantes a uma sensação de união com o Universo), verificando-se nessa altura uma ativação da zona do lóbulo pré-frontal esquerdo do cérebro (área cerebral constituída por redes neuronais relacionadas com a empatia, o amor maternal e uma maior conexão entre pensamentos e sentimentos), ao mesmo tempo que diminuiu a atividade no lóbulo pré-frontal direito (conectado com estados de humor mais negativos).

Desta forma, a neurociência tem vindo a demonstrar que o estado de compaixão pode influenciar os sistemas neurofisiológico e autoimune.

Ao nível psicológico, e à medida que se avança num processo terapêutico de transformação psicoemocional, surge a necessidade de se abordar, entre outras coisas, a culpa e o perdão inteligente, fase do processo em que se torna essencial a procura da melhor forma de se direcionarem eventuais sentimentos de compaixão que se experimentam.

Acima de tudo, compaixão é desejar a outra pessoa que se liberte do seu sofrimento e não tem que ver com tolerar no outro comportamentos negativos em relação a nós. Neste caso, colocar um limite ao outro pode ser uma atitude de compaixão, inclusive porque corta o perpetuar de uma atitude agressiva.

De qualquer forma, a compaixão não está completa se não compreendermos que temos que a praticar também com nós mesmos, não nos maltratando, nem nos deixando maltratar. Por vezes, confunde-se autoestima com autocompaixão. Na verdade, a autoestima é uma sensação agradável de mais-valia que surge quando vivenciamos algum êxito pessoal, enquanto a compaixão consciente deverá ser sentida por nós em relação a nós, quer as coisas corram bem… ou mal. A autocompaixão acaba por ser uma forma amável de nos relacionarmos connosco e com os outros, sejam as circunstâncias de alegria e sucesso ou, pelo contrário, de fracasso ou sentimento de incapacidade/imperfeição. Curiosamente, algumas investigações apontam para o facto de a autocompaixão proporcionar uma maior resistência e uma maior estabilidade emocional do que a autoestima.

 

Terapia centrada na compaixão  

Paul Gilbert (psicoterapeuta e investigador inglês), criou a Terapia Centrada na Compaixão e dirige o Compassion Mind Foundation, no Reino Unido, com o objetivo de promover o bem-estar através da compaixão e de estudar cientificamente a mesma, desenvolvendo programas de terapia através da compaixão.

Neste sentido, a primeira tomada de consciência em terapia prende-se com o facto de os pacientes começarem por se dar conta de que não são culpados pelo seu mal-estar, nem pelos seus sintomas e que estes decorrem da própria ‘condição humana’.

Quando o paciente compreende e integra que os seus sintomas e dificuldades não são mais do que ‘estratégias de adaptação’, pode finalmente deixar de se criticar e culpabilizar pelas suas ideias e sentimentos, sentindo-se mais livre para ponderar a sua real situação e lidar com a mesma de uma forma mais adaptativa e menos automática e reativa.

Nos casos de conflitos com emoções intensas como a ansiedade, a raiva, a dor ou a vergonha, os benefícios da prática da Atenção Plena são enormes, sobretudo quando associados à autocompaixão. Deste modo, a Terapia Centrada na Compaixão implica o treino em técnicas de Atenção Plena: prestar atenção ao momento presente, espaço no qual lutamos com sentimentos e emoções difíceis que aumentam os nossos níveis de dor e sofrimento. Paralelamente, são aprendidas formas de enfrentar essas nossas dificuldades com bondade e compreensão (autocompaixão consciente), bem como maneiras de nos cuidarmos e tratarmos bem.

Acima de tudo, há que ter presente que qualquer pessoa pode adquirir consciência da autocompaixão e ser capaz de transformar de forma radical o vínculo consigo mesma.

Apesar de no Ocidente as investigações ainda estarem no início, e os dados e conclusões ainda serem limitados, a aplicação terapêutica da compaixão ao serviço do paciente está a ganhar um estatuto importante, que decorre dos resultados benéficos que se observam facilmente na prática diária.

Acima de tudo, parece ser verdade que é possível passarmos da crueldade para a compaixão e que só temos a ganhar com isso em termos de bem-estar e saúde mental.

Necessitamos tão-somente de treinar a nossa atenção, pensamentos, sentimentos e comportamentos numa perspetiva compassiva, ‘ginástica’ esta que desenvolve redes neuronais que se vão vincular com a autorregulação emocional e com a criação progressiva de estados de calma e tranquilidade, presença e foco, tão indispensáveis a uma vida de equilíbrio psicoemocional, relacional e social.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 86 (edição de março de 2016)