É curioso perceber a etimologia da palavra ‘complexo’, que vem do latim complectere, que significa ‘abraçar’ ou ‘abarcar’, como sendo uma força invisível que nos aprisiona, que filtra todo o nosso ser e nos abarca.

Um complexo é como uma constelação repleta de estrelas, ou de características específicas que formam um todo. No caso em apreço, constitui-se num conjunto organizado de representações e recordações dotadas de intenso valor afectivo, mais ou menos inconsciente, que se forma a partir das relações interpessoais decorrentes da nossa história de vida. Refiro-me a pensamentos irracionais ou ideias distorcidas que temos de nós mesmos e que, por mais erradas que estejam, nelas acreditamos piamente, agindo de acordo com as mesmas, como se fossem correctas.

 

O ‘complexo de inferioridade’

Apesar de sentir que as pessoas não devem ser colocadas em categorias, nem carimbadas à partida, não me choca fazer uso das mesmas, apenas para melhor facilitar a compreensão da imensa complexidade humana. Assim sendo, falarei hoje do chamado ‘complexo de inferioridade’ e começarei por referir que este se constitui num estado de ser composto por uma série de sentimentos negativos auto-refenciados que decorrem da forma subavaliativa como nos vemos, nos pensamos e nos sentimos.

A palavra ‘inferioridade’ implica, à partida, ‘algo abaixo da média esperada’ e, na relação com o ser humano, liga-se claramente à baixa capacidade de auto-estima. É o sentimento de ser mais pequeno… mais indefeso… mais inútil… mais miserável… menos apto… menos capaz… menos valioso…

Mas, pensaremos realmente isso de nós, ou estaremos apenas aprisionados (‘abarcados e abraçados’) no olhar do outro?

 

A génese do sentimento de inferioridade

O facto de nos podermos sentir inferiores, quando nos comparamos com alguém, não significa que tenhamos um complexo de inferioridade, dado que isso dependerá da frequência, intensidade e do modo como crenças e pensamentos afectam ou não a nossa vida. Quando se diz que alguém tem um complexo de inferioridade referimo-nos a uma pessoa que se sente inferior aos outros, de um modo mais ou menos permanente, apesar de não existir qualquer razão que justifique esse sentimento.

Em alguns casos pode acontecer que, sentindo-se profundamente inferior em relação aos outros, não é capaz de o admitir e rejeita a ideia do seu sentimento de inferioridade, relegando este da esfera do consciente para o inconsciente, onde permanece na maioria do tempo, apenas emergindo pontualmente de uma forma mais ou menos consciente. Ou seja, são pessoas em negação e, neste caso, o mecanismo de defesa que usualmente surge é o seu oposto: uma postura de superioridade, que mais não faz que esconder os sentimentos opostos.

 

Quem assim sofre sente-se constantemente inseguro, imperfeito ou limitado em muitas situações ou com determinadas pessoas, geradoras de uma grande tensão e de um enorme desejo de fuga das mesmas, em lugar de as afrentar.

Pode surgir da vivência precoce em um ambiente familiar destrutivo, no qual a rejeição dos filhos é patente, onde a punição é rainha, as repreensões são recorrentes e injustas e onde, em lugar de se valorizar, se humilha e ridiculariza. Este facto faz com que as crianças cresçam com dificuldades de aceitação de si mesmas, subvalorizando-se. Podem gerar-se sensações de menos valia, de convencimento de que não se está à altura de uma determinada situação, de que não se vai conseguir o objectivo proposto, ou que socialmente não têm qualquer atractivo, o que pode gerar um enorme sofrimento.

Por outro lado, a sensação de inferioridade pode surgir como consequência de vivências de fracasso de carácter amoroso, familiar, profissional, académico, etc. O modo como vivenciamos alguns acontecimentos de vida, cria informações erradas sobre o nosso valor como seres humanos, o que pode resultar em comportamentos introvertidos que, além de causarem sofrimento emocional, causam muita limitação na vida social, profissional e pessoal.

Ao longo da vida, o sentimento de inferioridade poderá aparecer sempre que a pessoa se relacionar com outros que de alguma forma recordem alguém marcante, soltando-se o gatilho para que resurja. Em consequência, pode surgir atitudes, diante de um superior hierárquico, por exemplo, que na realidade não são mais do que respostas ao comportamento de uma antiga figura afectiva (como o pai, por exemplo), projectadas naquele.

 

Um falso sentimento de superioridade – a máscara defensiva

Os sentimentos de inferioridade podem provocar inibição e retraimento, dando lugar à constituição de uma personalidade tímida e insegura, com uma escassa actividade social. Se o sentimento de inferioridade não for demasiado intenso pode levar à necessidade de superação, estimulando o sistema de compensação psicológica. Quando o sentimento é muito forte, pode levar à ‘resignação’, o que dá lugar a uma atitude de modéstia e timidez exageradas, insegurança e inibição, pelo que esta pessoa parece agir como se se desculpasse constantemente pelo facto de existir. Se não se resignar, tentará compensar o seu defeito através de 3 formas de defesa psicológica:

– Tentar diminuir ou suprimir o defeito ou as suas consequências (alguém que se acha com excesso de peso e que inicia uma dieta de emagrecimento);

– Tentar compensar o suposto defeito, como o jovem que tem más notas na escola, mas que tenta compensar sendo um excelente desportista;

– Tentar adoptar um falso sentimento de superioridade que serve para ocultar o problema de fundo face a si mesmo e aos outros. Este tipo de defesa mostra uma máscara de arrogância, vaidade, presunção e indiferença face às atitudes e opiniões dos outros. Forja assim uma imagem idealizada de si mesmo, com a qual não pretende mais do que ocultar o desprezo profundo que sente por si. As dificuldades de adaptação ao meio e a vivência de críticas e fracassos sucessivos, originam angústia e dor profundas, as quais impossibilitam o amor e as relações interpessoais sinceras e prazerosas.

 

Características mais frequentes do complexo de inferioridade

Pessoas que se sentem insignificantes face aos demais, tímidas, indecisas, retraídas, com tendência à introversão e com escassos recursos para superar situações excessivamente complicadas;

Subvalorizam-se e acreditam não fazer nada bem, entrando num registo de funcionamento obediente e exageradamente submisso;

Acreditam possuir enormes limitações e que nunca poderão fazer nada melhor ou tão facilmente como os que as rodeiam, sentindo grande necessidade de apoio;

Sentem inveja em relação aos outros, considerando que estes são mais afortunados do que eles, possuindo qualidades excepcionais;

Tendem a afastar-se da maioria das pessoas, sentindo-se incapazes de enfrentar situações que avaliem como complicadas, pelo que não desejam estar junto de quem os fazem sentir-se inferiores;

Quando estão ‘em modo defensivo’, tendem a abusar da sua autoridade sobre aqueles que, pela sua situação laboral ou familiar se encontram numa situação indefesa ou de desvantagem;

Costumam destacar os defeitos dos outros com o fim de demonstrar que não são tão bons amigos ou profissionais como os outros acham, realçando assim a sua própria imagem.

 

Áreas de insegurança e autocrítica

Os ‘defeitos’ sentidos abarcam 3 âmbitos fundamentais: a área físico-emocional (defeito físico, peso, impotência sexual, menos-valia, insegurança, etc.), a área intelectual (nível de inteligência e grau de cultura geral) e a área social (falta de empatia, desconhecimento de normas de cortesia, nascimento ilegítimo, origens modestas, etc.).

Os sentimentos de inferioridade causam um enorme sofrimento e o que é mais grave é que actuam sub-reptícia e automaticamente, de uma forma inconsciente e desesperada, reafirmando a pobre opinião que têm de si mesmo. Neste caso, há pessoas que se expõem a situações de risco ou em projectos ambiciosos que, redundando em fracasso, reforçam a crença negativa. Por outro lado, há aqueles que nunca arriscam e que nunca se atrevem a sair da sua zona de conforto, sentindo-se derrotados de antemão.

Infelizmente, não há receitas fáceis do tipo da fast food, mas deixo algumas sugestões, em jeito de perguntas de auto-indagação, que podem ajudar a expandir a consciência e levar luz e compreensão ao sentir ‘ser pequeno ou invisível’:

– O que me impede de ser a pessoa que quero ser? São os meus supostos ‘defeitos’ ou a atitude que assumo face aos mesmos?

– Envolvo-me em situações que estão de acordo com o que realmente estou preparado para fazer ou prefiro ir mais além?

– Como me sinto face aos conceitos de ‘humildade’ e de ‘honra’? Sou do tipo: «Eu sou melhor que os imbecis que me criticam?»… Ou do tipo: «Nasci para sofrer e não irei descansar até o conseguir?»… «Qual é o meu tipo de funcionamento?».

O ideal seria aproveitar esta oportunidade para ir vencendo o sentimento de inferioridade e superar-se a si mesmo. O caminho para vencer a inferioridade  será treinar a flexibilidade cognitiva e resignificar o passado, mesmo que doloroso, para finalmente dar à sua mente uma oportunidade de receber o apoio e reconhecimento que merece.

 

Superar o sentimento de inferioridade

É muito importante ter uma atitude activa de superação da presente realidade em favor de outra melhor, trabalhando a auto-estima e aceitando o que é. Uma atitude activa e um desejo de superação contribuem para a superação dos sentimentos de inferioridade, tudo depende da nossa atitude e reacção. No fundo, uma caminhada persistente e continuada que se faz valer de pequenas batalhas ganhas sucessivamente, passo a passo:

– Observar e aceitar

Este primeiro passo é de suma importância, pois quando colocamos a nossa observação numa questão, e a aceitamos, dado que existe, estamos a tirar-lhe poder automático e podemos então compreendê-la e transformá-la.

– Reconhecer os ‘sinais de perigo’ e respirar

A sensação de vergonha ou inferioridade é tão automática que não dá conta dela. Assim, da próxima vez que a sentir, pare e dê-se conta do modo como se manifesta: Sente um vazio no peito ou aperto no estômago? O rosto ruborizado? Sente-se nauseado? Estes podem ser alguns dos seus ‘sinais de perigo’ que avisam da existência de pensamentos negativos e crenças distorcidas. É altura de ‘parar’, respirar lenta e profundamente durante alguns minutos e centrar-se. Lembre-se que está a prestes a reagir automaticamente a um velho pensamento repetitivo, que amiúde atravessa a sua mente… observe-o como a uma nuvem branca que atravessa o céu azul, desaparecendo no horizonte… Repita esta visualização as vezes que sentir serem necessárias. Deixe que o pensamento se dissolva, em lugar de reagir face ao mesmo.

– Colocar em perspectiva

O ser humano é composto de luzes e sombras e ambas são parte da mesma unidade. Por outro lado, somos mais do que ‘a soma das nossas partes’ e há que ter atenção à hipervalorização do ‘menos bom’. Desta forma, é importante ter também em conta as ‘qualidades’ pessoais, recordando-as. Sugiro fazer uma lista dos seus ‘pontos fortes’, quer psicológicos quer físicos… a inteligência, o humor, a bondade, a imaginação… tudo aquilo que o torna um ser único e valioso, de modo a poder também nutrir e celebrar todas essas luzes!

– Procurar o melhor em tudo

Poderá ser interessante conhecer a pessoa para lá da aparência física ou da sua posição social… cabe recordar Saint Exúpery: «Apenas vemos com o coração: o essencial é invisível aos olhos».

– Focar

Desenvolva os seus interesses e capacidades, centrando-se no que gosta de fazer, vivendo e desfrutando da vida na plenitude do momento.

– Rodear-se de pessoas positivas

Cultivar amizades com pessoas que o valorizem e aceitem como é, ignorando quem o critica.

– Procurar ajuda

Os sentimentos de inferioridade podem levar à depressão e a uma dor convertida em sofrimento, impedindo as relações satisfatórias, pelo que consultar um psicólogo ou terapeuta pode ser importante, de modo a poder descobrir a origem dos mesmos, superando-os e elaborando-os, ao mesmo tempo que se desmontam os mecanismos psicológicos de defesa e se criam novas formas de auto-observação e auto-valorização.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 72 (edição de Janeiro de 2015)