Sais de casa com o coração apertado e a pensar se será nesse dia que vais ser infetada e adoecer, principalmente se fores trabalhar num local com doentes Covid-19. Chegas ao trabalho e ficas na fila para te medirem a temperatura e darem uma máscara. Trabalhas tentando cumprir todas as normas de segurança. Ainda tens equipamento de proteção individual, mas sabes que tens de ser muito criteriosa na sua utilização para que estes não se esgotem já.

Chegas ao fim do dia de trabalho exausta, por teres de vestir batas impermeáveis que te fazem transpirar e máscaras que não te deixam respirar devidamente (há estudos que mostram que os níveis de oxigénio descem e os de CO2 sobem). Chegas ao carro, trocas os sapatos com que andaste por outros menos sujos. Passas um toalhete pelo volante e por outros sítios onde tocaste e certa de que já não sabes se tocaste ali ou não. Então, passas o toalhete pelo carro quase todo. Chegas a casa, descalças os sapatos à porta, atiras com a mala e o casaco para a caixa dos sujos. Saltas para o duche, a roupa vai para lavar.

Desinfetas as maçanetas das portas e outros locais em que tocaste. Não beijas, nem abraças os teus filhos e tentas manter-te à distância. Pensas que devias fechar-te no quarto, era mais seguro, mas tens roupa para passar, pensas na casa a precisar de ser limpa e se não fizeres o jantar só se comerá porcarias. O marido também chega a casa. Tentas que ele cumpra as regras de segurança, mas ele vem exausto e já não consegue cumprir na totalidade.

Na manhã seguinte, o despertador toca. Sais novamente de casa com o coração apertado.

Pensas como seria bom poderes ficar fechada em casa a ler livros, ver televisão e a desfrutar da companhia dos teus entes queridos.