A única relação que dura a nossa vida inteira é a relação com nós mesmos. Somos os únicos a estar na nossa vida sempre, ao longo dos altos e baixos, das alegrias e das tristezas, das conquistas e das desilusões. Já só por essa razão, a vida torna-se muito mais entusiasmante e menos espinhosa quando aprendemos a gostar de nós e a darmo-nos valor.

 

A condição fundamental para conseguirmos seguir um rumo coerente com a nossa essência e percorrer um caminho autêntico e feliz é colocarmo-nos a nós em primeiro lugar. No entanto, temos uma facilidade extraordinária em colocar os outros à nossa frente, por duas razões principais:

  • Pelo medo de sermos abandonados: fomos levados a acreditar que pensar em nós é sinónimo de ser egoísta e como nós queremos e precisamos que gostem de nós, esforçamo-nos por agradar os outros, confundindo o egoísmo (prejudicar o outro) com generosidade (tratarmo-nos bem);
  • Pela falta de hábito em identificar os nossos desejos e cuidar das nossas necessidades, pois ao ‘termos’ de satisfazer primeiro os outros, vamos ficando para trás. Acreditamos que só poderemos ser felizes quando todos à nossa volta o forem e, como isso nunca acontece, ficamos a ver a vida passar.

 

O amor, o afeto e a pertença

Se colocamos o bem-estar do outro no topo da nossa lista, quando chegará o momento de tratarmos de nós? A nossa vida é o bem mais precioso que temos, merece ser honrada e valorizada, precisa de ser validada e reconhecida e a única forma de isso ser possível é focarmo-nos em primeiro lugar em nós próprios. Nutrir a nossa vida implica olhar para nós e sentir quais são as nossas necessidades; colocar as necessidades dos outros antes das nossas traduz-se em darmos tudo o que temos, esvaziamo-nos até mais não para mergulharmos no mundo das ansiedades onde procuramos desesperadamente compensar esse vazio.

Olhar para nós em primeiro não implica virar as costas ao outro, antes pelo contrário! Não vivemos sem os outros, não esqueçamos que somos seres relacionais com a necessidade psicológica básica universal de amor, afeto e pertença. No filme Cast Away (2001), Chuck (Tom Hanks) acaba sozinho numa ilha e, devido ao insuportável sentimento de solidão, arranja um amigo imaginário (Wilson) que mais não é do que uma bola de vólei. Outro bom exemplo é o de Chris no filme Into the Wild (2007), onde o desejo de liberdade total é tão grande que o leva a abandonar tudo e fazer uma viagem sozinho para terminar isolado na natureza no Alasca e aí perceber que a felicidade, afinal, só é real quando partilhada.

Os outros são de extrema importância na nossa vida, mas anular a nossa existência em função do outro é diferente de valorizá-la e incluir o outro nela. No primeiro caso, facilmente caímos em dinâmicas relacionais tóxicas de autodestruição; no segundo caso, abrimo-nos à possibilidade de vivermos relações que nos permitem crescer, descobrir o nosso potencial interior e manifestá-lo no mundo. Para isso, precisamos de assumir a responsabilidade da nossa vida e de compreender o papel que as relações têm no nosso crescimento.

 

Assuma a responsabilidade da sua vida

Alguém que tenha a mesma atitude com pessoas diferentes suscita reações diferentes. Isto significa que a forma de reagir perante o mesmo estímulo exterior varia de pessoa para pessoa, por variadíssimas razões que têm a ver com a natureza pessoal e a história de vida. Cada um de nós é único e culpar o outro de como nos sentirmos é anular a nossa responsabilidade individual. O estímulo provém do outro, mas é dentro de nós que surge o sentimento e/ou o pensamento que nos leva a (não) agir. Assumir a responsabilidade implica desviar o cerne da questão da ação do outro para o impacto que essa ação tem em nós. Agimos na sequência do que pensamentos e sentimos, não diretamente na sequência da ação do outro, pois se assim fosse, reagiríamos todos da mesma maneira. Ninguém consegue comandar, controlar ou alterar os nossos pensamentos ou sentimentos. Pode influenciá-los se tivermos abertura para receber a sua mensagem, mas não tem a capacidade de os manipular a seu gosto. Assumir a responsabilidade da própria vida passa por dar este primeiro passo: reconhecer o que sentimos e o que pensamos num determinado contexto e dar uma resposta coerente com a nossa natureza. Respons-abilidade significa ‘habilidade a responder’, isto é, capacidade de dar uma resposta consciente a um estímulo exterior. Por exemplo, ter a consciência de que nos sentimos magoados pela atitude de outra pessoa, é diferente de acusá-la de ser a culpada pelo nosso sofrimento, pois isso seria dar-lhe um poder sobre um território que efetivamente não tem. Ter a consciência deste mecanismo permite-nos dar o passo seguinte, que é dar resposta ao nosso sofrimento, decidindo o que fazer com ele. Ter a noção de que as nossas respostas são individuais (não há certo nem errado) e que são fruto da nossa visão subjetiva do mundo ajuda-nos a compreender a dinâmica das relações e a compreender como podemos aprender e crescer com um parceiro, pois é através da interação com o outro que nos vamos apercebendo das nossas dificuldades e potencialidades. É através da relação que nos autoconhecemos e nos permitimos crescer.

 

A importância da autonomia

Além do desvio do foco da acusação para o reconhecimento do que sentimos, outro elemento importante nas relações de expansão da consciência é a autonomia. Não se trata de fazer o que se quer borrifando-se para o outro, mas sim de ter a capacidade de separação, ou seja, de manter a própria identidade na ausência do outro. Podemos adorar estar com o outro, mas devemos igualmente ser capazes de estar, de ser e de ter uma vida sem ele.

As relações são o pilar da nossa existência humana, têm a força de nos fazer sentir apaixonados, adorados, confiantes, completos, energizados, mas também podem abalar o nosso equilíbrio e o sentido de integridade do self. As chamadas relações fusionais, onde as identidades se fundem numa só na sequência ilusória de uma harmonia tão perfeita que a relação é romanticamente paradisíaca, são destinadas a falhar. Estas relações funcionam como uma droga, pois criam dependência e as crises de abstinência são insuportáveis. Nesta paixão perdemo-nos e deixamos de saber quem somos a sós, deixamos de conseguir imaginar a nossa vida sem o outro.

 

No lugar das relações simbióticas, podemos ter um encontro de duas pessoas, que mantêm a sua individualidade numa relação pautada pelo respeito e pela entreajuda num percurso onde ambos vão conseguindo desenvolver um self cada vez mais completo e autêntico. Nas paixões predomina a intensidade, no amor predomina a intimidade. A intensidade é desgastante, porque ficamos obcecados em dar o que o outro quer e precisa para sermos igualmente retribuídos; a intimidade é energizante, porque é o espaço onde cada self se partilha, se mostra, se dá a conhecer, se expõe com autenticidade, sem medo de perder o parceiro. Quando conseguimos ser nós próprios (comunicar com sinceridade e marcar limites relativamente ao que queremos e podemos aceitar) e permitirmos à outra parte fazer o mesmo (permanecer em contacto emotivo sem querer mudá-la) lançamos as sementes para um Nós mais íntimo e gratificante.

Nas relações fusionais não há intimidade, porque nenhum dos dois se mostra como é. Passamos a vida a tentar agradar para que o outro goste e precise cada vez mais de nós a ponto de não lhe ser possível viver sem nós. Nas relações maduras existe espaço para uma vida individual e em comum, onde cada um tem plena liberdade de expressão e de escolha. E é precisamente nessa liberdade que as pessoas se prendem, pois não há nada que proporcione mais aconchego do que sentir que estar com o outro é uma escolha diária, consciente e responsável, e que a sua existência enriquece e potencia a nossa.

 

Uma relação íntima é um espaço onde o individual cresce e se desenvolve; uma relação intensa é um espaço onde os dois se fundem e o individual definha. Na intensidade há dependência e autodestruição; na intimidade há autonomia, responsabilidade e liberdade.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº79 (edição de Agosto de 2015)