Cultivar a paz interior e a felicidade

Como seres humanos que somos desejamos viver felizes e livres de sofrimento. O sofrimento pode decorrer de várias origens, mas, segundo a filosofia do Yoga, decorre principalmente do facto de esquecermos a nossa origem e de não sabermos quem somos (tendemos a julgar que somos aquilo que pensamos – pensamentos –, aquilo que sentimos – emoções –, e aquilo que vivemos – circunstâncias exteriores –, aspetos estes que nos vão influenciando ao longo da vida).

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A tradição do Yoga leva-nos a reencontrar este caminho para casa, para a verdade que está escondida no fundo dos nossos corações. Esta verdade é a paz interior escondida, livre do apego aos elementos externos do nosso Eu e das forças de atração/aversão entre a mente e esses objetos materiais. Existem vários caminhos e práticas que apontam para formas de reencontrar esta verdade universal. As qualidades que aponto aqui baseiam-se em quatro passos apresentados nos Yoga Sutras de Patanjali (obra clássica de importância fulcral para o mundo ocidental):

  • Pratyara;
  • Dharana;
  • Dhyana;
  • Samadhi

Ao cultivar regularmente estas quatro qualidades com dedicação, estaremos a caminhar em direção à paz que procuramos. Mas as distrações são inumeráveis e facilmente nos deixamos desencaminhar. Para mim, Pratyara é um passo essencial que incluo sempre no final das práticas de Yoga que administro. Encaro Pratyara como o momento fundamental em que os alunos podem realmente assimilar os benefícios da prática, quando o corpo está liberto de toxinas e a mente aquietada.

Pratyara – Calma e tranquilidade

Na sociedade atual estamos constantemente sujeitos a um processo de hiperestimulação, continuamente bombardeados com informação dos mais variados géneros, que nos obriga a manter a atenção em várias coisas em simultâneo. E como se este “ruído” externo não fosse o suficiente, temos ainda o nosso próprio ruído interno, repleto de considerações e conjeturas provenientes de pensamentos excessivos. Estes pensamentos incontrolados levam a que nos desconectemos do momento presente, sendo por isso que, frequentemente, nos sentimos perdidos, descentrados e em desarmonia com o que gostaríamos de ser. Todo este ruído e o nosso envolvimento nele são as causas do caos energético e mental em que vivemos. O impacto é tão subtil que nem damos pelo quanto somos afetados. Acabamos por julgar que tudo isto é normal, uma vez que esta é a nossa forma habitual de lidar com o quotidiano. Na realidade, não conseguimos perceber que há uma parte de nós que quer que abrandemos, e que não conseguimos ouvir, pois a nossa atenção está virada para o ruído externo. Frequentemente, e infelizmente, só nos damos conta do que está a acontecer quando a doença se instala e nos obriga a parar. 

Silêncio para reencontrarmos o rumo

É importante saber tirar algum tempo da nossa grelha horária de compromissos para sairmos deste ruído e nos mantermos em silêncio. Esta prática é chamada de Mouna e significa simplesmente não falar. A um nível mais profundo significa também saber criar espaço interno e externo para conseguir a calma e o silêncio de que necessitamos para manter o equilíbrio. O nosso fluxo mental habitual – em constante movimento – não facilita a realização do objetivo a que esta prática se propõe: trata-se de uma prática cujo principal propósito é o de se manter alerta e assim viver o  momento presente. Optar por um retiro de meditação, pelo menos uma vez por ano, será a melhor estratégia para nos desapegarmos das obrigações rotineiras e nos obrigarmos a manter o rumo, contrariando as inúmeras distrações a que estamos sujeitos.

Manter esta prática diária requer muita força de vontade e persistência, e é por isso que a prática regular em aulas de grupo (de preferência com caráter semanal) poderá ser outro bom incentivo: sempre é mais fácil estar em comunidade onde cada um de nós acaba por incentivar e receber incentivo dos outros.

O silêncio deveria fazer parte do nosso dia-a-dia, mas a verdade é que é fácil acabarmos por não praticar Yoga ou Meditação: em momentos atarefados, quando as distrações são múltiplas, a nossa atenção fica à deriva e facilmente nos perdemos. Abhyasa traduz o esforço sincero e a prática essencial para mantermos o espaço interior calmo. Idealmente, quanto mais tempo nos mantivermos fora do ruído, melhor será o realinhamento energético e mental. 

Viva no agora e presencie um milagre

No que se refere a Vedanta, a aprendizagem é concluída quando permanece apenas o silêncio. Mas é quando Mouna se instala em nós que a magia realmente acontece, sendo por isso que esta prática é referida como a nossa grande mestre: quando reconhecemos o milagre de sermos humanos e experienciamos os pensamentos e as emoções no presente como sendo parte do processo de expansão individual. Quando estamos verdadeiramente presentes, em que toda a nossa atenção está no agora, é aqui que tudo é mágico, tudo se transforma em milagre.

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Jean-Pierre Oliveira

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