Andrew Morton é provavelmente um dos mais aclamados biógrafos de celebridades da actual geração. Ao longo de 30 anos como profissional, escreveu mais de 20 biografias de grandes personalidades como a princesa Diana, Madonna, Monica Lewinsky, os Beckham, Tom Cruise ou Angelina Jolie e que figuram na lista dos best-sellers do New York Times. Andrew Morton esteve em Portugal e falou sobre si, sobre o seu trabalho e sobre o seu mais recente livro Ladies de Espanha: Sofia, Helena, Cristina e Letizia, entre o dever o e amor, editado pela Esfera dos Livros. Neste livro revelador, o autor, analisa a vida destas quatro mulheres marcadas por um conflito constante entre o dever e o amor, num mundo onde os antigos valores aristocráticos como a obrigação e o sacrifício são frequentemente postos em causa em benefício do amor e da felicidade pessoal.

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Andrew Morton é uma das maiores autoridades em celebridade moderna. Foi chamado de rei dos biógrafos de celebridades.

 

Na sua opinião, o que faz de si um biógrafo tão especial?

Escrevi biografias oficiais e não oficiais, como muitos escritores, contudo acho que tive muita sorte em poder escrever, na minha opinião, a maior biografia da história real Britânica, a biografia da Lady Diana. Com a sua total cooperação e empenho, juntei também o testemunho de pessoas chegadas à princesa Diana, desvendei a sua intimidade, muito diferente daquela que aparecia nos jornais e revistas. Os leitores gostam da minha escrita, pela dedicação em conseguir mostrar às pessoas o que elas são na realidade.

 

A publicação da biografia da princesa Diana…

Como conseguiu convencer algumas das figuras públicas mais interessantes do mundo a abrirem-lhe as suas vidas, os seus corações e os seus segredos mais profundos?

Algumas figuras públicas não são planeadas, como por exemplo, o Tom Cruise. Eu não queria que fosse uma biografia oficial, pois ele é um homem da cientologia. Mas, em certos casos, simplesmente acontece. Por vezes, basta um telefonema a perguntar-me se quero fazer uma entrevista e tudo se desenvolve. Posteriormente, são criados laços no processo de conhecer e entender o indivíduo. Confesso que é realmente gratificante realizar a entrevista e criar uma amizade duradoura com o entrevistado que se estende além da história que descrevi. Com o passar do tempo e com as entrevistas que vou fazendo vou ganhando confiança, amizades e um maior à-vontade que me motivam a continuar.

 

… e o seu sucesso estrondoso

A biografia da princesa Diana foi a que teve mais sucesso e o Andrew teve de conhecê-la muito bem durante as entrevistas. Quais foram as suas impressões da Princesa de Gales?

Conheci-a em 1983, na Austrália, na sua primeira visita oficial, muito nova, vermelha e com calor, sempre sorridente e cordial mas, ao contrário de muitos, eu queria ver além, perceber o que ela pensava, o que realmente acontecia no casamento real. Nesse processo, a minha ideia sobre ela alterou-se completamente, surpreendeu-me muito pela positiva, pois achei-a muito corajosa, acima de tudo, sempre achei que foi ela própria, independentemente das consequências, foi uma fonte de inspiração para muitas mulheres em todo o mundo.

 

De todos os livros que já escreveu, tem algum preferido?

O livro da princesa Diana, sem sombra de dúvida, e vai ser sempre o livro ao qual as pessoas me vão associar.

 

Por que razão este tipo de biografias tem tanto sucesso, especialmente no caso da princesa de Gales?

Talvez porque os leitores consigam ver e acompanhar o percurso da pessoa e, no caso da princesa Diana, muitas pessoas sentiram-se ligadas à situação por que esta passava, como por exemplo, o divórcio, um período muito complicado na vida de qualquer um, e que se agravou no caso da princesa Diana, pois pedir o divórcio ao futuro rei de Inglaterra trouxe-lhe, a si, aos seus filhos e família, uma enorme pressão. Apesar de saber que iria ser criticada pelo mundo inteiro, teve a coragem de seguir em frente com a sua decisão e de fazer aquilo em que acreditava, além de ter tido a coragem de expor o facto de ter tido distúrbios alimentares, das depressões pós-parto, das suas tentativas de suicídio, e não só. Tudo isto fez com que as pessoas se identificassem com as suas fragilidades.

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Artigo publicado na Zen Energy Nº 72 (edição de Janeiro de 2015)

 

As famílias reais/celebridades…

As famílias reais mudaram bastante nos dias de hoje. Actualmente, casam com pessoas‘comuns’,vão aos supermercados locais e, até, comunicam com pessoas ‘comuns’, ajudando-as a resolver alguns dos seus problemas, basicamente, tentam ter uma vida normal, como qualquer outra pessoa. Esta é uma tendência. Será que estão a tentar ser ainda mais populares ou realmente estão a esforçar-se para ter uma vida normal?

É a transformação dos últimos anos, o que tem trazido novas energias e uma nova maneira de ‘estar’ das famílias reais. Muitos alegam que também são pessoas normais, contudo são financiados com dinheiro público por serem da família real, é este o dilema que vivem hoje. Há alguns anos, 3 em cada 5 britânicos pensavam que a rainha era descendente de deuses… e, passados menos de 100 anos, ninguém pensa tal coisa. Mas, o ser humano tem necessidade de ter alguém no ‘poder’, alguém que sirva de referência aos restantes, que sirva de modelo, alguém que tenha uma ascensão quase divina.

 

… e os paparazzi

Muitas pessoas admiram, invejam e copiam a vida/estilo das famílias reais e das celebridades, por serem figuras públicas e por inspirarem, muitas vezes, várias gerações. Por que razão as pessoas tentam desesperadamente imitá-las e descobrir tudo sobre as suas vidas?

Todos nós temos uma certa necessidade de ter um modelo a seguir ou uma pessoa em que sintamos uma ligação. Com que nos identifiquemos ou, até mesmo, com quem simpatizemos, não quer dizer que queiramos copiá-las, simplesmente identificamo-nos com as suas atitudes, vestuário, estilo de vida, etc.

 

Os jornais e revistas pagam enormes quantias aos paparazzi para atormentar em algumas das celebridades mais conhecidas, tornando as suas vidas um pesadelo e, no caso da princesa Diana, levando-a para a sua trágica morte. Contudo, os paparazzialegam que estão apenas a fazer um serviço público. Qual é a sua opinião?

Hoje, com a tecnologia ao nosso dispor, praticamente todos podem gerar a sua própria publicidade. Por exemplo, há várias figuras públicas que ligam para os media só para lhes dizer o que vão fazer e onde vão estar. Ao fazerem isto geram publicidade ao seu nome e à sua marca, mas depois não se podem queixar por serem seguidos e, até mesmo, provocados, levando-os, muitas vezes, a reagir. Faz parte da vida de se ser figura pública, é um círculo vicioso. As pessoas querem seguir os seus ídolos e os ídolos querem pessoas a segui-los. É uma indústria que move muito dinheiro.

 

Na sua opinião, após a morte da princesa Diana, os media e os paparazzi aprenderam alguma coisa ou floresceram mais do que nunca?

Os filhos da princesa Diana foram muito respeitados por toda a comunidade de paparazzi, devido ao incidente com a mãe. Todos os problemas que foram surgindo com eles foram sempre devido a amigos e companhias que venderam as histórias aos jornais e não por serem provocados pelos jornalistas. Já com kate Middleton, nada foi feito para a proteger.

 

Ladies de Espanha

Falando, agora, nas Ladies de Espanha. Ultimamente, a monarquia tem tido grandes problemas com os enormes escândalos de corrupção, como divórcio da Infanta Helena, com os rumores sobre as dificuldades conjugais entre o príncipe Felipe e a sua esposa, Letizia, e indiscrições do rei. Existe alguma saída para a monarquia?

Sim, tempo… Como tudo na vida, existe um tempo em que as pessoas são aclamadas e outro em que são quase odiadas. É um evento cíclico, de fracassos e de sucessos. Por exemplo, um ponto baixo foi o divórcio de Diana, um ponto alto foi o casamento do seu filho, o príncipe William com kateMiddleton.

 

Como descreve Letizia… Uma mulher comum que, ironicamente, é vista por muitos como a última esperança da monarquia de Espanha?

Sim, ela é muito perfeccionista, ambiciosa, inteligente, com muita vontade própria, mas, ao mesmo tempo, tem uma faceta de vulnerabilidade que a torna humana, o que faz com que as pessoas sintam uma ligação com ela. Teve sempre uma vida muito activa e tudo o que fez foi sempre levado ao limite. Podemos confirmar através das suas vivências, do seu namoro com cantores de rock, até com professores da sua escola, que, em alguns países, poderia levar à prisão. Mas, no final, decidiu casar-se com o futuro rei de Espanha, que é praticamente o oposto dos cantores de rock. No fundo, o príncipe de Espanha sempre procurou o ‘normal’ e acho que a Letizia veio trazer-lhe esse equilíbrio que faltava.

 

Acha que ela é feliz?

Ela teve de se adaptar ao novo meio onde está, pois estava habituada a dominar a conversa e, neste momento, tem de ter um papel mais secundário. A família de Letizia é que foi mais afectada, devido ao mediatismo que ela alcançou.

 

Outros dos seus sucessos: a biografia de Angelina Jolie

Um dos seus outros grandes sucessos foi a biografia de Angelina Jolie. Para a maioria das pessoas, ela representa o símbolo de sucesso, felicidade, possuindo tudo o que se pode sonhar com fama, beleza, um marido bonito e dedicado e 6 lindos filhos. De repente, ela vê-se transformada numa das figuras mais visíveis e amadas do mundo. Não será tudo perfeito demais para ser verdade?

A Angelina Jolie sofreu uma transformação espantosa. Inicialmente, a beleza e o charme fizeram dela um sexsymbol, alguém intocável, quase uma rainha do gelo, praticamente ao nível dos deuses. Contudo, com o passar do tempo, a opinião pública foi-se modificando, devido à sua personalidade, por ter adoptado várias crianças em risco, por ter um marido devoto, por apoiar causas em países subdesenvolvidos e, mais recentemente, pela coragem que demonstrou ao fazer uma dupla vasectomia. Estas vulnerabilidades fizeram dela uma pessoa querida por todos, pois demonstrou que é humana, tal como todos nós, vulnerável e igual a todos.

 

Histórias surpreendentes

Já entrevistou inúmeras celebridades. Que história o surpreendeu mais?

A história de Letizia surpreendeu-me bastante, devido ao facto de ela viver com estes extremos.

 

Já pensou em escrever sobre uma pessoa anónima que pode, no entanto, ter uma história inspiradora?

Sim. Já escrevi um livro sobre 9 mineiros na Pensilvânia que foram salvos de uma mina que abateu. Graças à dedicação, empenho e fé de pessoas comuns, os mineiros sobreviveram.

 

Qual foi o livro mais difícil de escrever?

Foi um pouco difícil escrever o livro das Ladies de Espanha, devido à dificuldade da língua, porque eu falo inglês e elas falam espanhol, mas, confesso que o livro que me trouxe mais complexidades foi o da princesa Diana.

 

Existe alguém sobre o qual gostaria de escrever, mas que ainda não conseguiu contactar?

Sim, o Presidente Russo, Vladimir Putin. Contudo, provavelmente acabaria numa caixinha de madeira depois disso (risos). Acho que não vou arriscar escrever sobre ele.

 

As celebridades e os mesmos interesses

O que as pessoas famosas têm em comum?

Elas são uma elite, todos fazem praticamente parte de um ‘clube’, pois têm muitos pontos em comum que os coloca com as mesmas dificuldade e ambições.

 

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