Paulo Vieira de Castro, um dos mais conceituados autores de língua portuguesa em estratégias intuitivas/espiritualizadas para as organizações e colaborador da revista Zen Energy, lançou, recentemente,o livro Viva a Crise! O despertar da consciência em tempos de incerteza. Este é o seu primeiro livro, publicado pela ZenElly Publishing, dedicado especialmente às famílias, às escolas, a todos os que querem ser líderes de si mesmos. O prefácio é da directora da revista Zen Energy, Elisabeth Barnard, que durante uma conversa informal com Paulo Vieira de Castro fala sobre a vida e a espiritualidade, do qual partilhamos um excerto.

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«Como motivar e inspirar a ter uma visão transcendente e comprometida face a um mundo que vai por si mesmo? Este livro ajuda-nos a isso mesmo, a encontrar novos caminhos para novas e velhas dimensões da vida humana», Elisabeth Barnard.

 

O que teríamos de mudar?

E se a resposta fosse, simplesmente, tornarmo-nos melhores que nós mesmos em vez de estarmos preocupados em ser superiores aos outros? A espiritualidade dá-nos essa possibilidade, obrigando-nos a olhar para nós próprios de forma honesta. Nunca exageramos quando afirmamos que a escola tem um papel fundamental, pois é o lugar do conhecimento, do aprendizado, do questionamento, do crescimento intelectual, emocional e, por que não, espiritual?

 

Sendo tu uma empresária já consagrada, convives com pessoas de todos os tipos, credos e crenças. Penso que partilhas da ideia‘todos oshomens são iguais, exceptuando-se no cumprimento das promessas’. Consideras que a existência de um conjunto de valores e, ainda mais importante, fortes crenças estruturadas internamente, ou seja, uma espiritualidade activa, poderá fortalecer as relações no mundo dos negócios?

Tenho a profunda convicção que a nossa vida exterior é o reflexo da nossa vida interior, havendo uma relação directa entre a maneira como pensamos, sentimos e o modo como agimos e vivemos. Os relacionamentos, a saúde, a prosperidade e posição social são, na maioria das vezes, imagens reflectidas do nosso mundo interior.

Para dar um exemplo concreto do que quero dizer. O meu filho Michael adora jogos de consola e, para meu desespero, investe demasiado tempo a tentar chegar ao nível mais alto de cada jogo. Muitas vezes consegue, mas leva mais tempo do que gostaria, o que o aborrece imenso, levando-o a um estado passageiro, mas intenso de frustração e até de irritação. Tentei explicar-lhe que o que interessa não é apenas conseguirmos aquilo que desejamos, mas sobretudo os bons momentos que vivemos enquanto tentamos alcançar algo. O mais importante não é a realização do desejo, mas o que o desejo nos leva a fazer para o realizarmos. Não sei se ele compreendeu, sei que muitas pessoas adultas nunca chegam a reflectir sobre o facto de as nossas vidas só terem sentido quando achamos que aquilo que fazemos vale a pena. O mesmo se passa no mundo dos negócios, nas famílias, nas escolas.

Uma empresa é feita de pessoas e as pessoas carregam uma mochila cheia de coisas boas e menos boas. Num mundo ideal seria bom se todas as pessoas conseguissem libertar-se do que as aprisiona: velhas convicções, hábitos errados, raiva, inveja, preconceitos… Mas, para isso, precisamos de nos transformar, cada um de nós. A Humanidade não precisa de mais uma revolução como sugerem uns, mas de uma transformação e essa transformação releva, sempre, do domínio espiritual. Assim como há uma medicina holística que ganha terreno todos os dias, existe um pensamento integral que liga tudo a tudo, todas as coisas a outras coisas que está a possibilitar esta mudança.

 

A reboque de um mundo irresponsável, todos os jogos de consola falham. O que será cumprir um objectivo sem antes saber quais os valores que podem justificar disparar sobre outras pessoas? Que mundo é este em que se tornou fácil, mesmo agradável, matar pessoas? Onde difícil é, agora, encontrar os verdadeiros motivos para o fazer… Matar só por matar, roubar só por roubar, leva-nos ao estar felizes só para estar felizes… Esta é a verdadeira origem da crise, a falta de um propósito maior para o ser humano.

A felicidade que todos queremos tanto atingir existe dentro de nós, muitas vezes bem escondida por baixo de muitas camadas de medo, de arrogância, de incertezas, de ignorância e de apatia. Logo, teríamos que a procurar e trabalhar lá, perto da fonte, dentro de nós. Para isso, temos que ouvir a nossa voz interior, as intuições, estando conscientes do facto que aquilo que nos acontece foi, de qualquer maneira, atraído por nós. Se não foi pelo nosso comportamento então, terá sido pelo nosso karma.

Claro que vivemos numa era de grande competitividade e muita pressão; por isto, a resistência física, mental e emocional são igualmente fundamentais. Contudo, fica claro que as pessoas que destacaremos das comuns, invariavelmente, não serão aquelas que tiveram a sorte, mas sim as que tiveram a vontade e a garra de aprender – trabalhando arduamente, interagindo com o mundo de uma maneira singular. Aquelas cuja felicidade advém do fazer e realizar e não do adquirir e possuir.

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Artigo publicado na Zen Energy Nº 67 (edição de Agosto de 2014)

 

A sorte e o azar

Confunde-se demasiadas vezes a sorte dos outros com o nosso azar…

Ouvi muitas vezes dizer que somos o resultado das nossas escolhas e, efectivamente, isso faz sentido. Na realidade temos sempre a escolha de continuar a viver na caverna, onde nada nos pode acontecer ou sair para a luz, fazendo o que dá verdadeiro sentido às nossas vidas. O milagre é quando conseguimos isso. Mas, se não tentarmos… Não acredito no milagre que nos vai cair do céu. Acredito no milagre que fica escondido dentro de nós à espera. Se ninguém o procurar este não vai revelar-se.

Muitos são os que não estão dispostos a agir para acordar. Quando têm uma tragédia, um drama, uma desgraça qualquer que aparentemente não podem ou não querem controlar, então evoluem. Estas situações difíceis, as crises, abrem a porta da transformação, através da fragilidade, da humildade, do senso comum, do questionamento, da rebeldia e, claro da empatia.

 

A beleza da vida

Na atualidade, tudo parece ser conseguido sem esforço e no imediato. Quando pensamos na espiritualidade, numa sociedade onde tudo pode ser mercantilizado, isso torna-se sintomático. Ao contrário do que muitos julgam saber, a espiritualidade não se limita a momentos invulgares de contemplação. Ela é acção, cooperação, gratidão, generosidade, solidariedade! E isto é coisa de gente, não temos que ser santos para o fazer… A beleza da vida está nos sentimentos mais simples, por isso entendo que somos apenas usufrutuários, herdeiros de tudo o que há no planeta Terra. Mas, não os humanos, todos os outros seres da natureza são herdeiros cósmicos da energia que é, afinal, uma e a mesma.

Nada nos pertence, somos todos mais ou menos vazios em busca de algo para nos preencher e eu encontrei aquele algo que me faz vibrar. Encontrei-o em pequenina quando descobri a sensação maravilhosa de dar e de ser útil aos outros, sem esperar qualquer coisa em troca, despertando assim o meu Eu superior. Infelizmente, para muitos de nós, este despertar chega muito tarde ou talvez nunca. A maioria das pessoas vive com uma venda nos olhos, com a certeza de que o mundo à vista é a única realidade, pensando que as suas vidas pequenas e medíocres são as únicas que podem merecer. Eu penso que cada vida está predestinada à grandiosidade. Não achas? Mas, temos que aprender isso mais cedo, nos bancos da escola, para podermos pô-lo em prática durante a nossa vida.

 

Viver em paz, com nós próprios e com o mundo

O que eu tenho qualquer um pode ter, já ser o que eu sou ninguém pode. Do mesmo modo, entre o certo e o errado, o certo será sempre certo e o errado sempre errado. Como é que sendo estes pensamentos tão evidentes e primários parece impossível conseguir que o ser humano volte a partir das regras mais simples? Tempos difíceis para os sonhadores como nós… Qual o papel do tempo de trabalho na construção de uma sociedade mais justa?

A maior parte da nossa sociedade está em conflito porque as pessoas estão a executar atividades que não são delas, com as quais não se identificam. Deve ser terrível sentir e não saber que se está no lugar errado. A fazer coisas que não nos dizem respeito, todos os dias, durante anos, sem ripostar, sem se questionar, sem se rebelar, sem tentar mudar e… sem viver. Na maioria dos casos é preciso uma crise existencial para nos mostrar que devemos seguir o nosso caminho e não o dos outros. Todos nós podemos ser luz e escuridão e por que não tentarmos ser simplesmente quem somos, nada mais? Por que não mudar a nossa atitude para que surja o nosso lado mais positivo e, assim, sermos dominados pelo amor, respeito, compreensão, apreciação e preocupação com os mais frágeis?

 

Pode alguém ser quem não é? Pergunto frequentemente aos mais jovens por que está feliz a vaca no pasto? A resposta é, porque lhe pedem simplesmente para ser vaca. A nós, seres humanos, pedem-nos para sermos tanta coisa, isto desde que nascemos. Aliás, tenho para mim que o homem é o único ser vivo que fantasia a respeito de si próprio e dos outros. E, isto transforma-nos cada vez mais, em pessoas insatisfeitas, infelizes, mal dispostas… Por onde começar a contrariar esta realidade?

Essa é uma pergunta que me atormenta há muitos anos, se calhar desde sempre, como fazer para encontrar alegria onde ela não existe? Como vivermos bem, em paz com nós próprios e com o mundo, quando a maioria das pessoas está mal? Como encarar isso? Como ultrapassar isso? Afinal, como viver com isso e continuar a nossa vida sabendo que a maioria das coisas em que acreditamos está a falhar de uma maneira inacreditável. É um desafio muito grande para as pessoas mais idealistas, mais despertas, mais sensíveis ao sofrimento alheio, às injustiças. Acho que o amor é a única maneira de nos lembrarmos dos outros. Pelo menos é o que eu faço e, acredita, funciona na maioria dos casos. O grande Aristóteles dizia que «Nós somos aquilo que fazemos repetidamente». A ajuda desinteressada aumenta a nossa auto-estima e dá sentido às nossas acções e, afinal, às nossas vidas.

 

O que esperar do mundo?

Erradamente os países capitalistas, ditos desenvolvidos, basearam o seu ideário de liberdade numa regra básica do comunismo leninista, ‘a minha liberdade começa onde acaba a do outro’ e assim se criou o individualismo… Deveria ser exactamente o contrário, eu não posso ser livre se o outro não o for. Não posso ser feliz enquanto o outro não o for, e por aí adiante…O que poderemos esperar deste mundo?

Desde pequena, ouço afirmar que o maior mal da Humanidade é a ignorância e, com tenra idade, perguntava eu ao meu avô, quem é mais feliz: o humilde pescador ou o poderoso presidente de uma empresa multimilionária? Pois… não sei! É uma questão que ainda me ocorre todos os dias e para a qual não consigo obter resposta. Depende de quem é o pescador e o multimilionário. Da mesma forma que o multimilionário pode tornar-se pescador, o pescador também pode tornar-se multimilionário. Isso levaria a um milagre? Provavelmente… Mas, os milagres acontecem a todo o momento. Acho que tudo na vida é um milagre; para já, a própria vida não tem nada de vulgar, não concordas?

 

Claro, os milagres acontecem de acordo com o que conhecemos da natureza, não de acordo com a própria natureza. Igualmente, concordo com a ideia de a vida ser, ela própria, o maior milagre. Mas, no final ficará sempre algo por explicar…

Albert Einstein defendia apenas duas maneiras de se ver a vida: «Uma é pensar que não existem milagres e a outra é acreditar que tudo é um milagre». Acredito profundamente que cada passo que damos, até o mais simples e básico na direcção do amor e da vida, é um milagre.

Muitos de nós limitamo-nos a sobreviver ou a viver a realidade dos outros sem nos preocuparmos com a nossa própria vivência, o nosso próprio caminho, o nosso próprio Eu, por estarmos convencidos que os outros valem mais, que são mais bonitos, mais inteligentes, mais saudáveis, que têm mais sorte, enfim, que nasceram sob uma boa estrela. Se é bem verdade que nem todos nascemos sob uma boa estrela, tenho a convicção que o conhecimento, apesar do tormento que nos pode trazer, é também uma fonte, tal como o amor, para resolver os nossos problemas e nos trazer satisfação, equilíbrio e paz.

Mas, chegar ao conhecimento não é nada fácil nem confortável; por isso, muitas pessoas preferem continuar na comodidade e na inércia da ignorância.

O número de pessoas sensatas e esclarecidas, que, pelo menos querem saber e aprender, é infelizmente reduzido, em comparação com o das pessoas que só estão interessadas nas futilidades deste mundo, não sabendo quem são, para onde vão e por onde querem ir.