“Amo a minha vida e o meu trabalho, e nunca me imaginei a fazer outra coisa.”

Poderíamos afirmar que Ioana Bivolaru é sinónimo de garra, coragem e sucesso. Ocupa um cargo de topo que a apaixona de dia para dia, não se deixa amedrontar por possíveis dificuldades que a profissão lhe possa apresentar e elogia a capacidade feminina de desempenhar diversos papéis em simultâneo. Guarda a Roménia e Bucareste, em especial, no coração, mas confessa-se já rendida a esta nossa terra com vista para
o Atlântico.

Desde agosto que é a embaixadora da Roménia em Portugal. Quais foram as suas primeiras impressões deste nosso país ensolarado?

Nos últimos meses aprendi que, para além da Roménia, não existem pessoas tão gentis, calorosas e doces em mais nenhum outro lugar à face da Terra do que em Portugal. É um país rico em beleza e em espírito, com uma história rica e experiência no mundo, com ligações vibrantes que atravessaram o globo, com uma centelha de entusiasmo empreendedor que precisa apenas de algum oxigénio para dar origem a enormes chamas, vanguardista em inovações; com comida e vinho de classe mundial à espera de serem descobertos. Com um gosto muito particular para a beleza e bem-estar. E sim, com belas praias, campos de golfe e muito sol que se conjugam com pessoas, cuja generosidade de espírito não conhece limites.

Conseguiu ser bem-sucedida num “mundo de homens”. Uma mulher ser embaixadora é raro até numa sociedade moderna como a nossa. E ser uma embaixadora jovem e bonita como a Ioana ainda mais raro é. Qual foi o seu maior desafio ao longo dos anos?

Na verdade, as mulheres diplomatas no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Roménia representam, neste momento, mais de 43% do número total de diplomatas romenos. Esta é uma boa percentagem, mas claro que ainda há espaço para melhorias. Há 51 mulheres em posições de chefia na sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros, incluindo uma Ministra-Delegada responsável pelos Assuntos Europeus, uma Secretária de Estado e uma Secretária-Geral Adjunta. Para além disso, existem cerca de 40 mulheres em cargos de gestão na estrutura externa do Ministério dos Negócios Estrangeiros, incluindo Embaixadoras, Cônsules-Gerais e Diretoras de Institutos Culturais romenos no estrangeiro.

Na sua opinião, qual é a principal prioridade na carreira de uma mulher?

Tento fazer o meu trabalho, tal como vivo a minha vida: com paixão, compaixão, inspiração e estilo.

Por que acha que é mais difícil para uma mulher ocupar cargos de topo? Certamente que não se deve à sua falta de habilidades ou ambição. Será que está relacionado com o nosso mundo machista?

Honestamente, não experienciei desafios relacionados com o género neste trabalho. Pelo menos não enquanto trabalhei no Ministério dos Negócios Estrangeiros romeno ou desde que fui destacada para Portugal. Tive acesso à educação e à formação em condições iguais, optei pela diplomacia também em iguais condições e passei por processos de seleção idênticos. Pela minha experiência pessoal, não posso dizer que tenha sido ou que é muito mais difícil a segurança necessária ou a confiança na minha capacidade, tal como o estatuto de igualdade quando lido com os meus homólogos só porque sou uma diplomata/mulher embaixadora.

As mulheres têm várias responsabilidades e desempenham diversos papéis em simultâneo. No entanto, são educadas para dar mais assistência aos filhos, para se afastarem da vida profissional e serem flexíveis. O que motiva as pessoas que, tal como a Ioana, decidem fazer tudo, ser esposa, mãe, chefe, líder e até embaixadora?

Para começar, as mulheres cumprem tantos papéis diferentes em simultâneo, porque são capazes de o fazer. Ensinaram-me que as mulheres podem ser e agir de forma tão decidida e dura como qualquer homem que tenha o mesmo trabalho, desenvolvendo também formas inovadoras de desafiar a tradição. Podemos ser, ao mesmo tempo, criativas e inovadoras, com uma capacidade tremenda de comunicar. Mas a nossa contribuição mais importante, independentemente do papel que desempenhamos, é a capacidade de encontrar soluções práticas e pacíficas para a maior parte dos desafios que enfrentamos. É uma qualidade humana profundamente enraizada em nós, provavelmente proveniente da nossa experiência milenar em cuidar dos nossos filhos e famílias. É um recurso que definitivamente melhora o nosso desempenho profissional.

Acha que as mulheres querem realmente chegar ao topo ou simplesmente querem ser felizes?

No meu caso, quero ser a melhor versão de mim mesma em cada ação que tomo e isso faz-me feliz. Amo a minha vida e o meu trabalho, e nunca me imaginei a fazer outra coisa. Por outras palavras, esta é a minha vida e estou honrada e orgulhosa por abraçar este novo desafio enquanto embaixadora. Deixa-me ainda mais motivada, confiante e feliz. Definitivamente, a vida diplomática não é fácil. As mulheres diplomatas devem encontrar o equilíbrio certo entre a vida profissional e a pessoal, uma vez que viajam muito, passam muito tempo longe do seu país, família e amigos. Mas se me fosse dada uma segunda oportunidade de recomeçar a minha vida, eu escolheria o mesmo caminho. Como disse a Rainha Maria da Roménia, nada está longe quando lá queremos chegar.

Na sua opinião, o que faz as mulheres realmente felizes?

O sentimento de realização quando perseguem um propósito maior.

Enquanto romena, pode falar-nos um pouco sobre a Roménia, um bonito país pouco conhecido dos portugueses?

A autenticidade, a natureza e a cultura são palavras que traduzem a essência da Roménia. É um país dinâmico, com uma história rica, uma cultura impressionante e belezas naturais inigualáveis. A Roménia oferece experiências de viagem únicas. Podemos fazer uma viagem de algumas horas, de carro ou de comboio, do Danúbio até às soberbas cidades medievais da Transilvânia; de Bucareste, a capital da Roménia, ao Mar Negro; e do sul da Transilvânia para Bucovina ou Maramures. É possível viajar até ao passado visitando os célebres mosteiros pintados de Bucovina, a antiga cidadela de Sighisoara ou as arcaicas aldeias de Maramures, recheadas de tradições folclóricas. Podem ser descobertos os tesouros da arquitetura romena, cidades cheias de dinamismo e conhecer de perto a riqueza e a vitalidade da arte romena.

Como é vista a Roménia pelos olhos de um estrangeiro?

Posso enunciar dois exemplos: o Príncipe Carlos e o escritor Rui Zink. O Príncipe Carlos diz que a Roménia lhe proporciona um “sentimento de eternidade” e que lhe recorda a infância. Quando viaja para a Roménia sente que regressa a um tempo que lhe alimentava a alma e o coração. O Príncipe declara-se dependente do espírito da Transilvânia, aprecia Sinaia (a Sintra da Roménia, como lhe chamam os portugueses que visitaram o nosso país) e deixou-se conquistar pelas riquezas naturais dos Cárpatos. Rui Zink, por seu lado, é um dos escritores portugueses mais traduzidos para romeno. O escritor aprecia a Roménia, porque gosta de pessoas corteses, cultas, generosas e que sabem que cada um de nós é embaixador do seu próprio país em qualquer parte do globo. Os visitantes estrangeiros consideram os romenos um dos povos mais hospitaleiros do mundo. De facto, os romenos são, por natureza, acolhedores e têm um sentido de humor inato.

A Roménia é também associada a grandes nomes da Arte, do Desporto e da Ciência: Constantin Brâncusi (um dos mais apreciados escultores modernos), Angela Gheorghiu (uma das maiores sopranos do mundo), Radu Lupu (que reinventou a música clássica), o escritor Eugène Ionesco, o músico George Enescu, o intérprete de flauta de pã Gheorghe Zamfir. Sem esquecer as mulheres romenas que deixaram o seu marco na história: Nadia Comaneci (ginasta que conseguiu o primeiro 10 na história da Ginástica); Ana Aslan (médica e detentora do segredo da juventude eterna); Elisa Leonida Zamfirescu (a primeira mulher engenheira da Europa); Elena Caragiani-Stoenescu (a primeira mulher aviadora); Aurora Gruescu (a primeira engenheira silvicultora do mundo); Cecilia Cutescu-Storck (a primeira mulher professora catedrática de arte da Europa).

À semelhança de Portugal, a Roménia é um país romântico por excelência, o que talvez se deva à fraternidade criada entre os dois países, já que ambos se situam nas margens do Império Romano: um com vista para o Mar Negro e o outro para o Oceano Atlântico. Ou talvez devido à família de línguas românicas, à qual ambos pertencem. O próprio mito do Drácula é romântico. Mesmo os que nunca visitaram a Transilvânia, decerto que já sonharam com esta região.

Existem muitas lendas sobre o Drácula, que se supõe ter sido natural da Transilvânia. Este vampiro tornou-se uma fonte de inspiração para o romance Drácula de Bram Stoker, mas também para o filme homónimo e para outros filmes de terror, programas de televisão e novelas. Poderia contar-nos a verdadeira história por detrás de todas estas lendas?

Vlad Tepes nasceu em 1428, em Sighisoara. O seu pai, Vlad II, obteve o cognome Drácula, após se ter tornado membro da Ordem do Dragão. A Ordem do Dragão, similar à dos Templários, era uma Ordem militar criada para proteger a cristandade da ameaça otomana. A Ordem tem a sua relevância na lenda, pois explica a proveniência do nome Drácula, sendo draco a palavra latina para dragão. Enquanto nos tempos medievais os dragões eram símbolo de independência, coragem e força, a associação bíblica ao diabo com a serpente que tentou Adão e Eva, conferiram ao dragão conotações negativas. Por isso, a palavra romena dracul representa a palavra “dragão” e “diabo” em inglês. Bram Stoker fornece no livro descrições de sítios que ainda podem ser visitados na Roménia atual. Entre eles inclui-se a cidade de Sighisoara, o mais importante local da história associado a Vlad Tepes, onde pode ser visitada a casa onde ele nasceu (a casa acolhe presentemente um restaurante e um museu de armas medievais). Outros locais ligados a Dracul são o Palácio da Corte Antiga de Bucareste; o Mosteiro de Snagov onde, segundo a lenda, Vlad Tepes foi sepultado; as ruínas do Castelo Poenari (considerado o verdadeiro castelo de Drácula); a aldeia de Arefu, onde ainda circulam relatos de lendas; a cidade de Brasov, onde Vlad liderou raides contra os comerciantes saxões e o Castelo de Bran. Alguns circuitos cobrem também aspectos folclóricos da personagem fictícia Drácula. Por exemplo, os visitantes podem optar pelo mesmo menu que Jonathan Harker escolheu no restaurante Coroana de Aur em Bistrisa e podem pernoitar no Hotel Castel Dracula, construído no desfiladeiro Tihusa, um local aproximado do castelo fictício do Conde.