Magda Roma, autora de 5 Mudanças antes, durante e depois do cancro

A maioria das pessoas não se tem em primeiro lugar nas suas prioridades…”

Magda Roma é nutricionista e consultora nutricional há mais de 14 anos. Neste livro mais recente, a autora partilha respostas concretas para quem está ainda a tempo de evitar um diagnóstico oncológico, mas também para quem se encontra numa fase pós-doença.

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Há 5 anos atrás escreveu A dieta anticancro. Agora decidiu publicar 5 Mudanças antes, durante e depois do cancro. Por que considera importante abordá-lo?

O cancro é a segunda doença que mais mata em Portugal e estima-se que, num futuro muito breve, 50% da população portuguesa terá diagnóstico de cancro pelo menos uma vez na vida. São valores assustadores e penso que ainda se associa muito esta doença à genética/hereditariedade ou, como alguns profissionais de saúde afirmam, à “falta de sorte”, o que não corresponde à verdade.

Qual é o papel da nutrição na prevenção das doenças oncológicas?

A nutrição tem um papel fulcral na maioria das doenças e no cancro não é diferente. Segundo a OMS, mais de 31% dos fatores de risco de ter o diagnóstico de cancro deve-se à alimentação e gestão de peso. Mais de um quarto do valor é a gestão do peso e aquilo que o indivíduo come. Logo, uma alimentação equilibrada e um peso saudável contribuem para a diminuição do risco de diagnóstico.

No seu livro diz: “Segundo o IARC, 25 mil casos de cancro do cólon, 15 mil casos de cancro do rim em indivíduos do sexo masculino e, entre o sexo feminino, cerca de 45 mil casos de cancro da mama e 42 mil casos de cancro do útero devem-se ao excesso de peso e à obesidade.” Que reações provocam a obesidade e o excesso de peso no nosso corpo, de modo a potenciar o aparecimento de casos como estes?

A obesidade é uma doença que tem sido associada a diversas patologias, como a diabetes, síndrome metabólica, doenças osteoarticulares e inflamatórias. Naturalmente, o tecido adiposo produz determinados sinais inflamatórios ao nosso organismo e, quanto mais gordura tiver, mais quantidade de sinais inflamatórios terei no organismo e, simultaneamente, maior será a dificuldade dos órgãos na boa gestão do organismo. Não traz qualquer benefício o excesso de peso e obesidade para esta e todas as demais doenças.

Quais os alimentos altamente prejudiciais a um corpo livre de cancro?

Segundo a OMS, carnes processadas e carnes vermelhas são potencializadores de vários cancros. Depois, a forma como cozinhamos pode potencializar o surgimento de compostos também já designados como cancerígenos, como aminas heterocíclicas ou hidracarbonatos aromáticos policíclicos. A falta de fibra alimentar que promove o atraso da evacuação intestinal, a falta de ingestão de vegetais e legumes que podem potencializar desequilíbrios ou deficiências nutricionais estão também associadas aos fatores de risco do diagnóstico.

Uma má alimentação pode igualmente favorecer recidivas?

Os comportamentos alimentares na prevenção, tratamento e prevenção de recidivas deverão ser os mesmos que se enquadram num estilo de vida saudável. A nível de alimentação, determinados cancros têm indicações específicas de nutrientes para prevenir recidivas, mas de uma forma geral serão os mesmos comportamentos que nos protegem de um primeiro ou segundo diagnóstico.

Para além da importância de uma alimentação cuidada, fala ainda da importância da respiração. Se não chegar oxigénio suficiente às células é “meio caminho andado” para o aparecimento de cancro?

Foi prémio nobel de medicina o investigador alemão que comprovou que uma célula saudável, na ausência de oxigénio durante cerca de 48 horas, se altera como forma de adaptação ao meio, e tornar-se-á cancerígena. Ora, todos os dias respiramos. Mais rapidamente morremos se não respirarmos, do que se não ingerirmos água ou comida, o que é lógico. No entanto, respiramos, maioritariamente, de forma incorreta. A respiração que a maioria das pessoas pratica é uma respiração superficial, fornecendo até 20% da capacidade máxima respiratória, o que faz com que possamos respirar muito melhor, até 100% da nossa capacidade, permitindo a entrada de um maior aporte de oxigénio e promovendo a boa oxigenação celular para prevenir alterações celulares.

Por outro lado, o que poderá acontecer se respirarmos constantemente ar poluído? Qual será o impacto?

Ninguém respira diretamente da chaminé de uma fábrica, mas é evidente que há menor incidência de cancros em zonas menos poluídas, do que zonas mais poluídas. Através da respiração, inalamos oxigénio, outros gases e até partículas, como o amianto, que poderão provocar cancro. Não podemos andar fechados numa bolha, mas podemos proteger-nos o melhor possível. Fazendo caminhadas em zonas de ar puro, praticando exercício físico em zonas abertas e fora da cidade. Vemos muitas pessoas a correr ao lado de estradas movimentadas. Nestes casos, com o aumento do aporte respiratório no momento da prática de exercício físico estará a inalar compostos não saudáveis. O impacto na saúde, esse, deixo para um pneumologista, mas na minha opinião trará prejuízos quando comparado com a prática de exercício físico em locais com menor índice de poluição.

Muito se tem falado no poder dos pensamentos e emoções. Tão importante como nutrir o corpo físico é também alimentar o corpo mental e emocional?

Segundo a OMS, a palavra saúde define-se como um bem-estar físico, social e mental. A saúde mental e a gestão das emoções fazem parte da saúde integral e, muitas vezes, é desprezada ou tida menos em conta quando falamos de doença vs. saúde.

Qual é a sua opinião sobre as Terapias Complementares na construção de um corpo são e reforço do sistema imunitário?

Sou apologista que se não conseguirmos nutrir o nosso corpo convenientemente apenas e só pela alimentação, deveremos recorrer se necessário à suplementação ou terapias complementares que impulsionem uma resposta benéfica do nosso organismo. Esta só é benéfica se for devidamente avaliada por um profissional que domine a matéria. Já vi grandes “acidentes” com a toma de suplementos ditos “naturais”, que trouxeram maior prejuízo que benefício ao indivíduo. Cuidado, deixe isso para quem sabe o que está a fazer.

Nesta receita anticancro repleta de ingredientes amigos da saúde, devemos incluir um igualmente relevante: uma boa dose de amor-próprio, certo?

Se eu me amar, farei o melhor por mim. A maioria das pessoas não se tem em primeiro lugar nas suas prioridades, o que, na minha opinião, é errado. Devemos sempre pensar primeiro em nós, tratar de nós para podermos ser os melhores e mais saudáveis. Só assim poderei ser uma boa filha, esposa, mãe, irmã, colaboradora. Quando coloco outros à minha frente e desleixo a minha saúde e as minhas necessidades, um e outro dia, um e outro ano, mais cedo ou mais tarde o corpo sinaliza-nos, como se nos chamasse a atenção. Como estamos tão envolvidos a tratar e a sermos os melhores para os outros, não nos ouvimos e pode surgir a doença, seja ela qual for, como se nos obrigasse a parar. Não conheço um único caso de doente oncológico em que, quando abordo a situação desta forma, a pessoa não se reconheça ou não se reveja.
Entrevista por: Catarina Cruz