A educação dos nossos filhos

Ser mãe ou pai é inato à Humanidade. Faz parte do nosso ser e estar: cuidar, amar e passar a informação que detemos. Toda esta aprendizagem vem daquilo que nos foi transmitido pelos nossos cuidadores. Aqueles que também aprenderam com alguém.

A partir do momento que um filho entra na nossa vida tudo muda. O tempo a dois reduz-se a curtos segundos de comunicação entre um choro e um sorriso. A segurança com que os nossos pais nos educaram é a mesma com que vamos educar os nossos filhos… com alguns receios e algumas certezas.

aseados cada vez mais nos padrões transmitidos ao longo dos anos e cada vez menos naquilo que instintivamente já sabemos, o que passaremos como informação certa será o que assumimos ter adquirido. A par com a sabedoria familiar vem a enchente de informação da sociedade. Opiniões de peritos na matéria, certezas de amigos de amigos, livros, Internet e, num ápice, tudo se mistura e o que parecia verdade absoluta familiar passa a um obsoleto inseguro.

Um dia também fomos como os nossos pequenos filhos. Terão ocorrido momentos nos quais teríamos gostado de ouvir o porquê de tal acontecimento em vez da típica resposta: «É assim porque é». Ou teremos muitas vezes dito para nós próprios: «Quando tiver um filho nunca farei isto». E aqui estamos nós apenas a repetir padrões. Talvez já não nos recordemos de quando olhávamos para cima e víamos os nossos pais enormes a olhar para baixo… para nós. Provavelmente, eles também não se recordam.

Talvez seja agora o momento de cortar com esta repetição padronizada e começar a escutar para reaprender e depois educar.

Dar uma boa educação

Manter o respeito pela sabedoria familiar e por tudo o que grandes peritos estudaram será, contudo, algo a guardar e usar com uma atitude ponderada e de crítica respeitadora.

Vamos começar agora de novo. Não há nada nem ninguém para nos ajudar a educar este pequeno e valioso ser que de um momento para o outro preencheu por completo todo o nosso tempo e toda a nossa vida. Todo este saber está dentro de nós, quando um dia fomos crianças e observámos os nossos pais a darem o melhor de si pelos filhos. Seguiram padrões de como deveria ser e nós, ávidos de aprendizagem, absorvemos tudo o que vimos, ouvimos e sentimos. Dentro de toda essa escola que frequentámos, algum saber ficou retido. E como crianças fomos amorosamente críticos sobre aquilo que nos foi ensinado.

Sendo assim, para podermos ajudar os nossos pequenos na educação, teremos que nos recordar de como éramos na sua idade. Pelo que, vamos procurar o momento no qual deixámos de ser crianças. Esse instante terá sido aquele que frenou o nosso Eu infantil. À medida que o tempo foi passando e fomos absorvendo nova informação, transformámos aquela que recebemos em criança e formatámos de acordo com o que é considerado, para nós, aceitável. Se assim é, terá, com certeza, havido um momento em que deixámos de nos permitir sonhar. Será difícil ensinar algo que esquecemos. Pelo que, o que vamos transmitir aos nossos filhos não é mais do que aquilo que não nos permitimos ser. Haverá, contudo, uma miragem nossa que vagueia à espera de ser tornada realidade. Mas, antes de a transpormos para a criança, devemos considerar a possibilidade de se tornar real para nós. Para tal, deveremos questionar o quanto nos lembramos de nós, nos amamos e o quanto nos permitimos sonhar. Podemos definir estratégias individuais e, interiormente, procurarmos momentos da nossa infância até percebermos aqueles que nos formataram como os adultos que hoje somos. A partir daí, poderemos libertar os padrões e olhar livremente para os nossos filhos, reaprender e educar.

Recordar a infância

Agora a responsabilidade é nossa… o grande ato de amor é nosso. Vamos escutar o que os mais pequenos têm para nos ensinar e fazer-nos recordar toda a infância. Ao olharmos para os seus brilhantes olhos, vamos fazê-lo diretamente e ao mesmo nível. Podemo-nos ajoelhar ou sentar junto deles e apenas deixar o momento correr. Ouvir tão atentamente como se tudo o resto à nossa volta fosse um silêncio ensurdecedor. Só o som da sua pequena voz, os gestos assertivos da brincadeira contam para aquilo que pretendemos reaprender. Quando os olhares se cruzarem conseguiremos escutar. É por aí que temos de iniciar todo o processo – escutar dentro dos nossos olhos e recordar aquela criança que fomos e que via o mundo de uma perspetiva completamente diferente da que vê hoje. Encontrámo-la e percebemos que ela também está no olhar do nosso pequeno filho. Começamos, então, a recuar no tempo e de um momento para o outro estamos no lugar do nosso aprendiz que se tornou nosso professor tão rapidamente. Vamos reaprender com ele para o podermos ensinar. É assim a escola que frequentamos desde que nascemos, uma passagem de testemunho. Certamente, a nossa avaliação no teste final da vida, feita pelos nossos pequenos Mestres será: «Foste o melhor pai, mãe que poderia ter!».