O karma é uma viagem que iniciámos e na qual somos o principal condutor. Tal como em todas as viagens, as adversidades são sempre uma incerteza e estão sempre presentes. O objetivo é igual para todos: chegarmos sãos e salvos ao destino.

A aptidão e a perícia com que vamos enfrentar e contornar essas adversidades vão ser determinantes na celeridade e na forma como acabaremos essa jornada.

O karma é uma das leis que regem o Universo, conhecida como lei da causa e efeito, a partir de uma movimentação de energia desencadeada por nós. O que somos hoje e tudo aquilo por que passamos, de bom ou de mau, é fruto das escolhas que fizemos no passado, seja ele remoto, recente e até na vida atual. Essas escolhas incluem pensamentos, palavras ou atos praticados por cada um de nós desde a nossa existência no Universo. No fundo, são aquilo que construímos ao longo das várias encarnações que tivemos, pois o karma e as encarnações são indissociáveis.

Tal como o karma é uma consequência do livre-arbítrio, também a reencarnação é uma consequência do karma. Quando encarnamos, o objetivo é resolvermos os karmas que deixámos para trás. E isto acontece porque, quando o espírito se liberta do corpo físico, ou seja, desencarna, vamos ter uma visão em retrospetiva da nossa vida terrena recente e aí temos a noção dos erros que cometemos e da sua gravidade, e prontamente vamos querer corrigi-los.

Assim sendo, devemos sentir-nos privilegiados por, mais uma vez, nos ter sido concedida uma oportunidade para o resolvermos e prosseguirmos o nosso caminho. Embora o karma seja muitas vezes visto como um castigo ou uma punição, não deve ser encarado como tal. Há que ter uma visão mais ampla sobre esse conceito de causa e efeito e mais discernimento na sua análise. Sobretudo porque qualquer acontecimento (causa) que possamos achar que tenha tido, no imediato, um efeito menos bom poderá, ao mesmo tempo, ser o ponto de partida necessário para algo positivo no futuro. Ou seja, o evento causado poderá não ser um fim, mas antes o início de uma sucessão de acontecimentos.

 

 

Apresento-vos o Pedro…

Faz agora uns anos que conheci o Pedro. À época era um jovem adulto de 19 anos e já trabalhava, pelo menos, desde os 17. Era uma pessoa muito fechada e pouco sociável. Tinha um emprego na área da publicidade, e – embora pareça um contrassenso trabalhar em comunicação e ser pouco comunicativo – a sua relação com os colegas não passava muito do estritamente necessário. Era a personalidade do Pedro, não tinha nada a ver com arrogância. Ele simplesmente era assim. Considerava-se – e eu própria o pude constatar – um bom profissional. A imagem de competência no trabalho correspondia, de resto, à que os seus pares tinham de si, não obstante ser reservado. Por isso, na empresa também era visto como um bom profissional.

Entretanto, os anos foram passando e o Pedro foi mudando algumas vezes para outras empresas, sempre dentro do mesmo ramo e convicto de que aquela profissão seria a sua para o resto da vida. Passado algum tempo, e infelizmente à semelhança do que sucede muito hoje em dia, a empresa faliu. Aconteceu o que tantas vezes ocorre neste tipo de situação: trabalho não faltava, porém o défice de competência para gerir a empresa andava em paralelo com a avidez e o excesso de ganância. Para o Pedro, que nunca tinha equacionado um desfecho desses, com a agravante de considerar que a estabilidade material era tudo na vida, o mundo tinha acabado de desabar. Se de início houve um choque e a falência da empresa foi encarada como um beco sem saída, certo é que não tardou muito para que o Pedro começasse a olhar para a sua vida de outra forma – até porque se viu forçado pelos acontecimentos a fazê-lo. O habitual “o que vou fazer agora?” perdeu o seu tom desesperado e tornou-se, ao fim e ao cabo, numa verdadeira pergunta de partida.

 

Sobreviver à reviravolta inesperada

Assim, nos últimos anos, e sem saber muito bem porquê, o Pedro passou a revelar um maior interesse pela área das terapias complementares e foi fazendo diversas formações para aprender mais sobre o assunto. E seriam elas que lhe iriam valer, a todos os níveis. Como é um perfecionista, depressa garantiu a sua subsistência financeira, mas não ficou por aí. Através dessas novas competências desenvolveu outro tipo de linguagem, a sua mente despertou para o mundo, porque passou a haver outra realidade em vez de existir apenas aquela rotina a que estava habituado.

Considerando que acompanhei bastante de perto este seu percurso, pude constatar que foi das pessoas mais bloqueadas e “de cabeça quadrada”, como costumava dizer-lhe para ver se o acordava para a vida, que mais me surpreenderam em termos evolutivos. E não o fez só ao nível da aquisição de conhecimentos em várias áreas profissionais, por assim dizer, fê-lo também espiritualmente.

Como digo frequentemente, estamos sempre a mudar e tenho a certeza de que o Pedro já percebeu o que é realmente importante na vida e qual é o seu caminho.

Pelo seu exemplo é fácil chegar à conclusão de que o efeito originado por uma causa, que aparentemente era dramática, acabou por ser a razão para uma vida melhor e para a própria evolução espiritual do Pedro.

Durante uns tempos ele pensou, inclusivamente, que andava a ser empurrado até chegar aí. Hoje já sabe porquê. Ainda tem de percorrer um bom caminho, mas isso falta-nos a todos. De resto, se assim não fosse não estaríamos aqui. Por vezes, somos nós que oferecemos resistência àquilo que nós mesmos traçamos como destino nesta vida. Mas esta acaba por ter, muitas vezes, maneiras interessantes de no-lo lembrar, ainda que à partida não o pareça, como aconteceu com o Pedro.

 

Lopes, Maria da Luz Rodrigues (2016) Crianças Espirituais. Amadora: Nascente