As relações que vivemos ao longo da vida vão marcando e moldando a nossa visão do mundo, vão alterando o nosso modo de pensar e de sentir. Não paramos de sofrer transformações, pois nada em nós é imutável. Cada pessoa com que nos cruzamos ao longo do nosso percurso de vida representa sempre uma oportunidade de alterar o rumo previsto da nossa história. É uma escolha nossa. No entanto, quanto maior a intensidade emocional sentida com o outro, menor parece a nossa capacidade de escolha.

 

Quando nos apaixonamos, o elo criado com a pessoa em questão é tão forte que se torna extremamente difícil, se não mesmo impossível, recusar a mudança que o outro nos provoca interiormente. Quando damos por nós, já está! Resta saber se essa mudança que advém de relações vividas vai no sentido de murcharmos cada vez mais ou, pelo contrário, florescermos e sentirmos que somos cada vez mais felizes, apesar da dor sentida no passado. Dor e prazer, tristeza e alegria, medo e desejos… são tudo elementos presentes numa relação amorosa. Rejeitar o que nos fez sofrer é abdicar do que nos enriqueceu e fez de nós o que somos hoje.

 

Enfrentar uma desilusão amorosa

Quando se tem uma desilusão amorosa há uma tristeza que transparece no olhar de quem acreditou e, mais uma vez, sente ter falhado. Acreditámos, entregámo-nos, lutámos, insistimos até perdermos as forças e admitirmos que toda a energia investida não passou de uma ilusão. E com a desilusão vem a tristeza, vem o vazio, vem o sofrimento de mais uma morte. Já nada será igual. A nossa planta murchou. Não morreu, mas deixou de viver. Sobrevive no meio do caos da vida. Sobrevive até encontrar outro alguém que vê a nossa beleza – ainda que murcha – alguém que nos dá água e alimento e nos faz acreditar que temos forças para florescer de novo. Até voltarmos a perder esse nutrimento e murcharmos mais uma vez. O ciclo repete-se. Num determinado ponto deste percurso repetitivo, passamos a desacreditar que é possível outra coisa senão apenas sobreviver. Com o passar dos anos, quando alguém nos volta a ver, a coragem para nos entregarmos é diminuta. Agarramo-nos à crença de que o único modo de proteger e salvaguardar o que ainda resta de nós é assumir que o lugar mais seguro é a solidão e o vazio. Aí já ninguém nos magoa, estamos a sós com nós próprios. Não vivemos a entusiasmante surpresa da vida que nos faz voar e tocar nas estrelas, mas também não vivemos a angustiante imprevisibilidade que nos faz precipitar a pique. Mas, será que uma relação amorosa é esperar que alguém nos salve, nos nutra, cuide de nós, nos faça voar até às estrelas e nos largue bem lá em cima?

Dar sentido a cada experiência vivida, aprender com cada momento de leveza e de tensão, aceder às dificuldades que existem no nosso interior para cuidarmos delas, potenciar as nossas forças e voar cada vez mais alto em liberdade, lado a lado com alguém, ou frente a frente, não será isso muito mais nutridor? As relações fazem parte das aventuras da existência para nos conhecermos, para contactarmos as nossas feridas interiores que gritam por atenção, para percebermos quais são os nossos medos e os superarmos. Enquanto não o fizermos, iremos depositar no outro o poder de fazer isso por nós. E quando depositamos no outro essa responsabilidade, ficamos à mercê do seu ritmo e da sua dedicação. Quando finalmente percebemos esse nosso mecanismo de esperar do outro uma tarefa que nos cabe a nós fazer, então, convencemo-nos de que a vida não é voar e cair continuamente. Não pode ser. O outro aparece na nossa vida como uma ferramenta de aprendizagem e crescimento interior, não como alguém que nos usa a seu proveito, como muitas vezes oiço.

Não deixe que a sua felicidade dependa do outro

A única forma de deixarmos de sentir que a nossa felicidade depende do outro, da sua presença e dedicação, é concentrarmo-nos no nosso percurso individual, ao longo do qual somos obrigados a olhar para nós próprios, pois somos a pessoa mais importante da nossa caminhada. Quando temos alguém que deseja estar a nosso lado para nos fazer companhia, melhor. Afinal, é com o outro que entramos na partilha, na cumplicidade, no mar de emoções que caracteriza uma relação… Mas, conseguir estar bem sozinho também é importante! É uma forma de não nos esquecermos de nós, de quem somos, do que andamos aqui a fazer e para onde vamos, ainda antes de entrarmos numa relação. Porém, cuidar de si pode apresentar-se como uma obra extraordinariamente árdua, pois alguns de nós não aprendem a fazê-lo. Nesse caso, uma primeira reação perante um novo encontro tenderá a ser encolhermo-nos ainda mais e, sem darmos por isso, lá estamos nós outra vez a renunciar à vida. Murchamos por ter e perder, murchamos por não ter. Que paradoxo! Qual a lógica disto tudo?

Quando ganhamos a coragem de olhar para nós próprios, ouvindo os nossos medos e necessidades, dando-lhes o devido valor e aceitando que fazem parte de nós e que são indispensáveis ao nosso percurso de desenvolvimento, então ganhamos também a capacidade de os mostrar, não para que o outro cuide deles, mas para que o outro os veja e valide a sua vontade de estar connosco na mesma, de fazer parte da nossa vida. Lado a lado, ou frente a frente.

Aprenda com as experiências passadas

O amor incondicional é amar sem condições, sem exigências, sem pedidos. É ter a capacidade de olhar e de ver o outro, de se mostrar, de caminhar juntos no que a vida tem de complexo e de simples. Passamos a ser companheiros de viagem, durante a qual assistimos orgulhosamente ao florescimento do outro. Mas, para isso, temos de sentir que aprendemos com as experiências passadas. Aprender implica alargar a consciência, reconhecer que o que vivemos foi fundamental para o nosso presente e sentir gratidão por essa vivência. Aprendemos o suficiente para chegarmos onde estamos hoje. Precisávamos desse suficiente para chegarmos onde estamos hoje. Com esta certeza, olhamos para trás e sentimos que tudo valeu a pena e que agora estamos mais preparados do que nunca para voar até às estrelas com alguém a nosso lado. Ou frente a frente.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 85 (edição de Fevereiro de 2016)