Luís Portela, Chairman da Bial e autor do livro Da Ciência ao Amor – Pelo Esclarecimento Espiritual

Confessa não acreditar em milagres e acredita que tudo possui uma explicação. Luís Portela, licenciado em Medicina, falou-nos sobre partículas de energia, vidas passadas, o poder do pensamento, reencarnação e a importância de atingir um maior esclarecimento espiritual, algo fundamental para uma existência mais plena e equilibrada.

 

No seu livro afirma que existe um “desequilíbrio na postura de um considerável número de seres humanos, muito focados no mundo físico, no ter e no parecer; dando uma importância menor aos valores universais, ao ser, à vida espiritual.” Até que ponto uma maior valorização e consciência de uma vida espiritual faria de nós melhores pessoas?
Quando assumirmos que somos uma partícula de energia talvez possamos perceber que somos uma partícula semelhante às outras. E com isto quero dizer que somos semelhantes aos outros seres humanos, aos animais, às plantas. Quando o percebermos talvez não faça muito sentido andarmos numa competição exacerbada ou em situações de conflito quase permanente. O que faz sentido é acordar com esta forma de energia que nos entrelaça a todos para vivermos de forma harmoniosa. Parece-me que quando fazemos o caminho do autoconhecimento percebemos que somos partículas de energia e assumimos uma postura mais harmoniosa e de entreleçamento com os outros seres. As pessoas perguntam muitas vezes como é que isto funciona, mas eu acho que o melhor
é as pessoas simplesmente se disponibilizarem a fazer este caminho.

O que falta para que a evolução espiritual se concretize?
Essa é uma pergunta de reflexão. Felizmente acho que há cada vez mais pessoas a preocuparem-se com isto. Não se pretende uma postura desequilibrada e muito focada na materialidade das coisas, e que a meu ver foi exacerbada durante algum tempo, porque
o Homem procurou saber muito e realmente conseguiu eventos notáveis. Hoje em dia conhecemos muito do corpo físico, mas infelizmente essa atenção não foi lançada para a área espiritual e portanto a Humanidade ficou muito focada na materialidade das coisas, deixando de parte os chamados valores universais. Acho que esta é uma postura que vem de trás, mas que durante o século XX acabou por se exacerbar. Estamos muito voltados para o ter, para o consumir, para o parecer, e pouco voltados para o ser. O que me parece desejável é que durante o século XXI a Humanidade faça um percurso de desenvolvimento em termos individuais e em termos coletivos na área espiritual, como o fez na área material durante o século XX. Aí poderemos ter um reequilíbrio.

O que estamos a fazer na Terra?
Estamos aqui a aprender. Para mim, a Terra é um mundo-escola. Estamos cá a aprender com quem sabe mais e a seguir os bons exemplos, mas também aprendemos com quem sabe menos e identificamos os seus erros para que não os cometamos. A vida é um aprendizado permanente. Se estivermos atentos e disponíveis, no nosso dia-a-dia temos um manancial de oportunidades para aprender constantemente.

O sofrimento faz parte da aprendizagem que cada um faz na Terra? O que é que o sofrimento nos ensina?
Acho que é uma via. O aprendizado faz-se por esforço, por mérito de cada um, e isto passa pela atividade física, intelectual, reflexão, autoconhecimento e no desenvolvimento do nosso próprio Eu, de forma simples, tranquila, procurando corrigir o que percebemos que não é bom nem para nós, nem para os outros. Corrigir o que nos envergonhamos de fazer e procurando focar a nossa atenção e energia em sermos úteis a nós próprios e aos outros. Parece-me que, por vezes, nos desviamos daquele que é o nosso caminho e recebemos um sinal de alerta. Isso é o sofrimento. Quando a natureza nos proporciona algum sofrimento, devemos procurar perceber o porquê da situação, não responsabilizando os outros, não dizendo mal da vida, não chorando nem desesperando; mas sim analisando as situações de forma serena. E quando fazemos isto de forma serena, tranquila, honesta, transparente e verdadeira normalmente encontramos
o caminho para superar as situações.

Transmissão de pensamentos ou telepatia: refere que foram realizados 570 ensaios, em que a probabilidade de acertar por acaso era de 25%, mas verificou-se uma percentagem média de acerto de 40%. Como explicar este fenómeno? Que “magia” é esta relacionada com a força do pensamento?
Acho que não há magia nenhuma. São coisas absolutamente naturais, que são chamadas de magia ou milagre enquanto não se conhece bem. Felizmente, algumas Universidades da Europa e dos E.U.A. estão a estudar este tipo de fenómenos. Essa experiência de que fala foi feita no Reino Unido. Foram estudados voluntários que se conheciam e que estavam em edifícios diferentes. Um deles sabia que os outros quatro iriam telefonar. O número de telefonemas, globalmente, seria igual para cada um deles e durante um determinado período eram esperados telefonemas. De 10 em 10 ou de 15 em 15 minutos, mas nunca se sabia qual dos quatro iria telefonar. Portanto, a probabilidade era de 25%. Então, quando o telefone tocava, a única coisa que um voluntário tinha de fazer era tentar adivinhar quem estava a telefonar.
A indicação do nome correto de quem estava a telefonar é da ordem dos 40%. Como se explica isto? Pondera-se que o pensamento é uma emissão de uma radiação que todos fazemos e temos a capacidade de captar essa radiação, uns mais e outros menos. Pensa-se que é algo que pode desenvolver-se naturalmente ou através de treino. Parece-me que
é importante que estes estudos se façam para que as pessoas percebam o potencial que têm em si e para se realizarem de forma mais bem conseguida.

Também os cães, considerados seres irracionais, são capazes de transmitir pensamentos. Como é isto possível?
Os cães captam o pensamento de alguém, sim. Muitas vezes se diz que os cães se aproximam da porta de entrada da casa quando o dono está para chegar. Houve um investigador inglês que resolveu testar isso. Colocou câmaras, de forma permanente, no terreno onde os cães se movem e também colocou câmaras a visualizar os donos. Depois, criou situações em que os donos regressavam a casa, nem sempre à mesma hora. Em alguns cães, cerca de 80% das vezes, logo após o dono tomar a decisão de voltar a casa, os animais dirigiram-se para a porta aparentemente para esperar o dono. Quando o dono emite o pensamento de que vai regressar a casa, sendo isso captado pelo cão, ele aproxima-se da porta.

No seu livro também refere experiências de quase-morte, sendo que quem as viveu diz ter começado a encarar a vida de forma diferente. Deveria ser necessário chegar ao ponto de vivermos uma experiência tão marcante como esta para vivermos melhor e ajudarmos quem nos rodeia a viver melhor também?
É desejável que não seja preciso viver esse género de experiências para haver essa mudança. Mas, de facto, o que os investigadores têm verificado é que quando se dão essas situações, as pessoas passam a perspetivar a vida de forma diferente. Tornam-se pessoas mais tranquilas, sem medo da morte, descontraídas perante as religiões, comportamento mais equilibrado e harmonioso, desejosas de terem paz.
O que se teoriza é que ao se perspetivar que afinal, depois da morte física, existe algo mais, estas pessoas tornam-se mais tranquilas e deixam de valorizar os aspetos materiais.

O que acontece após a nossa morte física será para sempre um mistério?
Terá alguma dose de mistério, mas penso que com o desenvolvimento científico se poderá perspetivar como o final de um capítulo
e o início de outro. Cada um terá as coisas de acordo com as próprias características.
À medida que a Ciência for identificando essas situações e elucidando a Humanidade sobre elas, parece-me que haverá uma tendência para se desmistificar o fenómeno da morte. Ela deixa de ser temida para passar a ser uma coisa mais simples, serena.
Se tivermos a certeza de que estamos a despedir-nos de um ente querido, mas que vamos encontrá-lo mais tarde, analisamos as coisas mais tranquilamente. Nada acabou. Vamos continuar. É uma forma diferente de estar na vida, que me parece mais lógica e que desejo que venha a ser, mais cedo ou mais tarde, assumida pela Humanidade.

Outro mistério eterno poderá ser a reencarnação?
A Teoria das Vidas Sucessivas ou Teoria da Reencarnação também tem sido estudada e penso que há hoje muita investigação que merece ser ponderada. A investigação que considero ser mais impactante nessa área é a do professor Ian Stevenson, da Universidade da Virgínia e da equipa que lhe sucedeu, liderada pelo Dr. Jim Tucker. Essa equipa de médicos e psicólogos estudou casos de supostas vidas passadas.
Ou seja, trata-se de pessoas que evocam que há 100, 200 ou 300 anos atrás existiram com um determinado nome e que viveram num determinado local, que os pais e os irmãos tinham este e aquele nomes, as profissões, entre outras situações. Essa equipa percebeu que isto é mais comum em crianças, sendo que também o professor Stevenson defendia que as crianças são mais verdadeiras e, por isso, optou por estudar crianças. A equipa do professor Stevenson e a equipa que lhe sucedeu estudaram até agora mais de 3 mil casos de crianças que evocaram supostas vidas passadas. Eles gravam o que as crianças dizem sobre a sua existência passada; procuram saber junto dos mais próximos dessas crianças se houve alguém que tenha vivido no local onde a criança diz ter vivido, se há alguma conexão, se viu alguma série televisiva nesse local… Quando não encontram relação nenhuma dão continuidade ao estudo. Deslocam-se
à terra onde a criança diz ter vivido e tentam provar se existiu uma pessoa com aquele nome e características. Em 68% dos mais de 3 mil casos provaram que aquela pessoa existiu. Acresce outro pormenor: algumas dessas crianças apresentam malformações à nascença e quando questionadas sobre estas malformações contam, normalmente, um episódio que terá ocorrido numa suposta existência anterior. Houve uma criança que nasceu sem quatro dedos e quando questionada sobre isso disse que, numa vida anterior, tinha-se descuidado e colocado
a mão numa guilhotina. Quando verificaram esta situação, confirmaram que a pessoa tinha existido e que tinha mesmo ocorrido esse acidente. A Teoria das Vidas Sucessivas não está cientificamente demonstrada, mas há estudos deste género que nos fazem ponderar esta situação e que, na minha opinião, criam a “obrigação” de a Ciência continuar a estudar e a investigar para mostrar se esta Teoria é verdade ou não. Penso que faz sentido, porque se olho para a Terra como um mundo-escola faz mais sentido que venha cá várias vezes para aprender sempre mais.

Na sua opinião, qual foi até agora a descoberta mais significativa na área da Parapsicologia? E qual gostaria que ainda fosse feita?
Para mim, a descoberta com mais impacto é esta que acabei de referir. As investigações sobre as supostas vidas passadas feitas pelo professor Ian Stevenson e depois reproduzidas por outros autores e investigadores, como Erlendur Haraldsson, Antonia Mills, Jim Tucker. A descoberta que mais gostaria que fosse feita… Não sei dizer qual seria
a experiência ou a investigação, mas gostaria que houvesse uma demonstração da Teoria das Vidas Sucessivas, ou seja o que for, que desperte finalmente a Humanidade para a realidade espiritual. Não sei exatamente como é que isto poderá acontecer, mas talvez seja uma questão de tempo. Gostaria que acontecesse o mais depressa possível para
a Humanidade viver melhor, para não termos a postura destruidora que temos, colocando em risco o planeta e a existência de todos.

Será que rejeitamos este lado espiritual, porque não o compreendemos?
Acho que é o contrário. À medida que
o vamos desbravando, perdemos o medo de tudo, nomeadamente do mundo espiritual. Não há razão para ter medo. Acho que
o medo é fruto da ignorância, da exploração que se fez em torno daquilo que não se conhece. O esclarecimento que se possa ter sobre este tema proporcionará serenidade, tranquilidade, e uma orientação de cada um em termos individuais e da Humanidade em termos coletivos. A Ciência pode contribuir muito para esclarecer as pessoas sobre determinadas perspetivas, nomeadamente no âmbito espiritual. Mas também me parece que esse esclarecimento proporcionará
o conhecimento de determinado tipo de energias que ainda não são conhecidas ou que são desconhecidas. O seu aproveitamento fará com que os seres humanos tenham maior capacidade de realização (material
e espiritual) quer em termos individuais, quer em termos coletivos.

O nome do seu livro é Da Ciência ao Amor –
– Pelo Esclarecimento Espiritual. Onde entra o amor nesta equação de um Todo mais equilibrado e esclarecido?
Entra quando nos perspetivamos enquanto partículas da inteligência universal. Uma vez que somos partículas de energia iguais às outras, não vale a pena tentarmos sobressair. O que fazemos em termos materiais tem um valor bastante limitado, enquanto o que fazemos em termos espirituais tem um valor que prevalece para além da vida física presente. Então, os valores que devem orientar-nos são outros, os tais valores universais. Isto criará condições para uma maior harmonia e uma melhor relação entre as partículas,
e assim os seres humanos e os restantes seres poderão fazer prevalecer entre si uma relação de respeito, solidariedade. Considero que no último degrau, a desenvolver essa harmonia, está o amor-próprio, que por vezes é algo difícil, e o amor pelo outro. Até sermos capazes de olhar tranquila e serenamente para aqueles seres que se assumem como nossos inimigos e que nos tentam agredir. “Coitado, está a tentar agredir-me? Ainda não sabe fazer mais. Como posso ajudá-lo a ser melhor, sem se prejudicar a ele ou
a mim?” Daí eu achar que a Ciência pode dar um contributo para que, conhecendo-se melhor enquanto partícula de energia,
o ser humano possa viver com mais harmonia
e amor por si e pelo próximo.