Não perdoe!

Recebi no meu consultório uma cliente que afirmava sentir angústia e que, após assistir a um live meu intitulado “Dores Invisíveis”, resolveu procurar-me com a esperança de resolver essa questão. Porém, no meio do seu discurso, ela aumentou o tom de voz e disse: “Só quero deixar claro que não perdoo o que ele me fez e ponto final!” Eu não entendi quem era “ele” ou “o que ele fez”, mas compreendi logo de onde vinha a sua angústia.

epois de quase uma hora a ouvi-la, percebi que tinha sido traída. A raiva ainda estava tão viva que queria sentir-se bem e mudar a sua vida, desde que não tirasse de dentro de si aquela raiva. Para ela, era importante sentir essa raiva, porque lhe recordava o que aconteceu com alguém em quem tanto confiou. Passou um ano e quatro meses e ela continuava
a “alimentar” aquele sentimento, fazendo questão de relembrar pormenores.

Sentimentos que nos adoecem

Ouço sempre, atentamente, a queixa principal dos meus clientes, mesmo sabendo que nem sempre é a “causa” do que estão a sentir, apesar de ser – para eles – uma espécie de referência. Depois disso, vou “puxando” pela pessoa até saber o que realmente se passa. No caso desta cliente, a traição do namorado era apenas mais uma traição na sua vida.
Ela sentia-se traída desde a infância, quando
o cão morreu atropelado e a mãe, na intenção de a poupar, disse que ele tinha fugido.
Durante vários anos, ela acreditou que ele não gostava da sua companhia e a abandonou.
O pai saiu de casa e arranjou uma esposa com uma filha e ela sentiu-se traída uma vez mais.

Acredito que todos nós fomos, um dia, magoados ao ponto de sentirmos raiva, ódio ou algo parecido, e dependendo do que aconteceu ou da maneira como aconteceu, temos tendência a não perdoar e entendo isso! No entanto, quero – nesta dica terapêutica –
– dizer que não perdoar é um direito seu e se quer manter todos estes sentimentos maus
e confusos dentro de si, ok! É uma escolha sua, mas lembre-se que eles vêm acompanhados de angústia, tristeza, sensações de abandono e culpa, e isto tudo junto pode adoecer uma pessoa, criando sensações bem piores do que a raiva que já sente.

Será que vale a pena…?

Perdoar não é dizer ao outro que está tudo bem! Perdoar é livrar-se do enorme fardo que carrega quando decide ter todos estes sentimentos contra alguém que o prejudicou! Se analisar com calma, as pessoas que fazem algo contra nós continuam a viver a vida delas como se nada tivesse acontecido. Já nós, que abraçámos a raiva, vamo-nos sentindo cada vez pior, pois “alimentamos” sentimentos que nos prejudicam.

A pergunta que não quer calar aqui hoje é a seguinte: Vale a pena destruir, aos poucos, a sua vida, alimentando a raiva e sentimentos menos bons por alguém que não deveria receber de si nem uma lágrima ou merecer a sua atenção? Vale mesmo a pena? Será que esta pessoa, independentemente do que fez, merece uma atenção tão especial da sua parte, para que o dia seja dedicado a pensamentos e sentimentos focados nesta pessoa?
Não! Não acredito que essa pessoa mereça tanto assim.

“Perdoar não é esquecer…”

Perdoar é libertar-se, imediatamente, daquilo que o aprisiona e a chave destas correntes está guardada dentro do seu coração. Apenas você pode ir buscá-la e abrir as correntes. Perdoar é permitir que a pessoa que foi má consigo vá para longe, ajudando-o a sentir-se feliz por inteiro, pois ser feliz pela metade não funciona. Interrompa este padrão e altere
a rotina. Se for necessário, mude os seus pensamentos, alimente a sua mente com outros pensamentos e perdoe essa pessoa, perdoe-se por ter deixado acontecer! Quando pensar na situação, imagine-se a dizer em voz alta: “Vai ser feliz… Eu perdoo-te, eu perdoo-me.”

Talvez seja fácil fazer, talvez difícil, mas se se concentrar diariamente neste simples exercício, aquele sentimento será apenas uma lembrança a preto e branco num passado distante. Pode também imaginar uma luz a cair em si, protegendo-o enquanto se livra desta sensação.

Perdoar é dizer à sua mente inconsciente que está preparado para caminhar levemente e que não quer mais carregar dentro de si sensações que nunca lhe pertenceram. Perdoar não é esquecer o facto. É lembrar-se dele e não sentir absolutamente nada, pois o importante é a sua felicidade, e não o que fizeram consigo!

Eric Pereira

Coach e Hipnoterapeuta

www.ericpereira.eu