«A felicidade é um conjunto de hábitos e todas as pessoas, sem exceção, podem vivê-la»

Quando questionamos outras pessoas sobre os seus níveis de felicidade, as respostas que obtemos, por mais estranho que possa parecer, são geralmente muito fiáveis.
Desde que a felicidade se tornou um campo sério de investigação científica, sou invariavelmente questionado sobre a métrica de avaliação da felicidade. Poderá a felicidade ser medida objetiva e fidedignamente? A resposta é sim.

 

Técnicas de imagiologia cerebral permitiram-nos encontrar correlações diretas entre a atividade do córtex pré-frontal esquerdo e os resultados dos autorrelatórios de felicidade. Os níveis de serotonina e cortisol (hormonas) durante o dia também validam esses resultados. De uma forma muito simplista, a forma como se sente relativamente à sua felicidade é verdadeira e será sempre validada por exames de ressonância magnética funcional ou análises hormonais.
Estas métricas permitem prever o futuro comportamento das pessoas. Se perguntarmos a pessoas entre os 18 e os 20 anos se estão satisfeitas com as suas vidas, concluímos que aqueles que são mais alegres e satisfeitos numa fase precoce da vida acabam por ser muito mais bem-sucedidos no futuro e nas mais diversas áreas. Num estudo que decorre há bastantes anos, ficou demonstrado que aos 38 anos essas pessoas têm rendimentos mais elevados e uma vida pessoal e profissional mais próxima das suas expetativas iniciais.

Medir a felicidade
É interessante: pessoas felizes ganham mais dinheiro. Também é uma evidência que as pessoas felizes tendem a viver mais tempo, a terem mais saúde, a casarem-se e a manterem-se casados, com taxas de divórcio muito baixas. Pode sentir-se tentado a apontar a qualidade dos relacionamentos como fator crítico para a taxa de divórcio, mas, na realidade, com base neste estudo não é isso que acontece. Estas perguntas foram feitas 5 a 10 anos antes de os indivíduos se casarem e, na maior parte dos casos, nem sequer conheciam os futuros parceiros.
Verificámos também que pessoas que obtiveram resultados mais baixos no questionário da felicidade aos 18-20 anos têm uma probabilidade muito maior de se divorciarem no futuro ou, pelo menos, de terem relacionamentos amorosos infelizes. Por isso, aí tem: perguntar às pessoas sobre o seu nível de felicidade. É a maneira mais simples, segura e fiável de medir a felicidade.

Ser feliz
Agora, pense na felicidade como a água de um recipiente (o leitor é o recipiente e a felicidade a água). Vamos utilizar esta metáfora. Quanto mais cheio estiver o recipiente, mais feliz é. O que afeta a quantidade de água no recipiente? As fugas, claro. Mesmo que as fugas não sejam muito grandes, a água vai acabar por sair, lentamente. Provavelmente, já lhe aconteceu deixar um recipiente (banheira, lavatório, balde, bacia, saco, etc.), cheio de água e, no dia seguinte, ter muito menos água ou mesmo nenhuma. Se a fuga for muito grande, o recipiente vai esvaziar-se muito depressa.
Da mesma forma, quanto maior é o atentado que comete contra a felicidade, mais rapidamente a sua felicidade se esgota. A frequência também é importante. Mesmo que não seja um atentado muito grande, se o fizer recorrentemente, vai igualmente esvaziar rapidamente o recipiente, ou seja, a sua felicidade. Um outro aspeto importante que afeta a quantidade de água no recipiente é o seu reabastecimento.

Os bons hábitos são como uma torneira que está continuamente a encher o recipiente. Mesmo que a água transborde, não há problema, porque, independentemente de a água em excesso sair, o recipiente continuará sempre cheio. Quanto mais água bombear para o recipiente, mais feliz estará. Assim, quanto mais aberta estiver a torneira – que significa que o hábito está bem enraizado – mais água terá o seu recipiente da felicidade. Pense desta forma: há duas forças a interagir com a felicidade em todos os momentos: os atentados e os bons hábitos. A melhor forma de aumentar os seus níveis de felicidade é eliminar os atentados (as fugas de água do recipiente) e adquirir bons hábitos (as torneiras abertas). De quantos mais atentados se livrar – o mesmo que eliminar fugas – e quanto mais água fizer jorrar das torneiras, mais feliz será. Se fizermos um bom trabalho a eliminar fugas e a reabastecer, o seu recipiente da felicidade ficará completamente cheio, e a sua vida, plena e gratificante. O objetivo do meu trabalho é ajudar as pessoas a manter os seus recipientes da felicidade cheios, independentemente das circunstâncias.

Mas, o que é a felicidade?
De uma forma simples, é um estado. As pessoas estão ou não estão felizes.
E quando estão felizes, não estão sempre na mesma medida. Podem estar em diversos níveis. Felicidade significa leveza e alegria. Significa que não se leva tão a sério, a ponto de ficar sem alegria de viver. Significa desfrutar da vida ao mesmo tempo que se responsabiliza e se conecta com tudo o que a vida tem para oferecer.
Agora que temos uma definição que descreve a experiência da felicidade, chegou o momento de lhe apresentar, concretamente, o que nos afasta deste estado, pois, por muito que não pareça, nós, naturalmente, somos felizes:

1. Sacrificar a felicidade. Pode achar surpreendente que as pessoas sacrifiquem algo tão importante, mas a verdade é que, a maioria de nós, o faz continuamente a nível pessoal, profissional e até social. As escolhas que fazemos estão mais vezes relacionadas com aceitação e sobrevivência do que com felicidade. Vale a pena pensar nisto. Depois perguntamo-nos porque estamos infelizes.
2. Superioridade. Alguns de nós, sem querer, estamos continuamente a competir e a perseguir a superioridade. Queremos ser mais ricos, mais fortes, mais rápidos, mais poderosos, mais atraentes, mais famosos, etc. Este é um dos maiores assassinos da felicidade.

3. Ser carente ou demasiado fechado. Todos nós queremos estar em relações positivas e saudáveis. Ainda assim, por vezes, esse desejo é demonstrado de formas muito pouco saudáveis. Ser carente não é bom para a felicidade, nem o seu oposto, ser demasiado fechado ou antissocial.

4. Ser excessivamente controlador. Muitos de nós sentimos que não somos felizes, porque a nossa esposa não nos conta tudo ou porque não sabe ser simpática com os nossos amigos ou mesmo porque os nossos filhos não nos obedecem. Ou, então, porque está frio ou a chover muito ou a nossa equipa preferida não ganhou o jogo no domingo e por aí afora. Tentar controlar os outros, ou mesmo os eventos que não dependem de nós, condena-nos a baixar os nossos níveis de felicidade.

5. Desconfiança. Significa que nos habituámos a olhar para a vida e para as pessoas com desconfiança. Em vez de vermos o copo meio cheio, vemo-lo sempre meio vazio. Este atentado está relacionado com um foco excessivo nos aspetos negativos da vida, quando o deveríamos fazer em relação aos positivos.

6. Incapacidade de entrar no fluxo. A fonte da felicidade é a habilidade de focar a atenção no que quer que seja, de uma forma positiva, no presente e sem julgamentos. Estarmos atentos, aqui e agora, deixa-nos felizes – as crianças são um grande exemplo! Incrivelmente isto continua a ser verdade, mesmo quando experienciamos algo desagradável. Por exemplo, quando o chefe grita connosco ou mesmo quando temos um acidente, é muito mais provável experienciarmos felicidade se estivermos plenamente atentos e condicionados a estar aqui e agora (no presente). Através da prática podemos assegurar a capacidade de nos ausentarmos de pensamentos e eliminarmos o hábito de oscilar continuamente entre o passado e o futuro. No entanto, a maioria de nós não está familiarizada com esta fonte de felicidade. Sente que não controla os pensamentos? Que faz filmes na sua cabeça que lhe trazem ansiedade e tristeza? Comece a treinar o seu cérebro. Invista 15 minutos por dia, sozinho, para estar atento à sua respiração. Quando se aperceber de algum pensamento, reconheça-o e volte à respiração.

Passadas algumas semanas, o seu nível de atenção e, consequentemente, de felicidade estará alterado, para muito melhor. Garanto-lhe que a felicidade é um conjunto de hábitos e todas as pessoas, sem exceção, podem vivê-la. Aqui e agora!

Leia este artigo na íntegra, na Zen Energy Nº91 (edição de agosto de 2016), já nas bancas.