Há momentos na nossa vida, episódios até aparentemente banais, cujo impacto é de uma intensidade tal que muda o rumo da nossa existência. Podem ser eventos dramáticos inesperados, como por exemplo, um acidente ou uma doença, mas também uma simples frase ouvida, um olhar trocado, um gesto sentido. Há momentos que mudam a nossa vida para sempre, desviam-nos da direção prevista. Momentos destes estão sempre a acontecer, mas há alturas em que decidimos prestar-lhes atenção e colocar em questão o caminho que estávamos a percorrer.

Qualquer que seja o momento, bom ou mau, alegre ou triste, é uma porta que, quando conscientemente aberta, nos permite entrar numa maior profundidade de quem verdadeiramente somos. São momentos que nos levam a elaborar perguntas sobre as nossas opções de vida até então e se essas têm sido um reflexo do que queríamos, livres de condicionamentos e medos. Tudo o que nos acontece são oportunidades para pormos em causa os nossos pensamentos, os nossos sentimentos, as nossas atitudes. Será que são serenos, coerentes com a nossa essência mais íntima, ou será que são fruto de padrões de comportamento e defesas que carregamos às costas? E será que estaremos conscientemente presentes para reconhecer essa porta a abrir-se ou estará a nossa mente tão cheia de distrações que nem os vemos?

Exploração interior

Para vermos essa abertura, precisamos de escutar. E para escutar, precisamos de parar, de entrar em silêncio, de contactar o nosso sentir e de distinguir o que é nosso e o que nos foi colado de fora. Uma vida autêntica implica sentirmos a nossa essência para a conseguirmos exprimir no mundo, num movimento de dentro para fora. A vida é esta caminhada de exploração interior, de descoberta de quem verdadeiramente somos, do que andamos aqui a fazer, para onde queremos ir, o que queremos aprender, conquistar e exprimir. Pessoas para quem a vida é apenas uma sucessão de momentos do nascimento até à morte, cujo propósito não lhes toca, são pessoas que passam pela superfície das águas sem mergulhar. Não ficam molhadas, mas também não conhecem a beleza que se esconde nas profundezas do mar, não conhecem a sensação de sentirem o corpo em contacto com a água…
Pessoas atentas deparam-se constantemente com oportunidades de abertura à mudança. A atenção é o contrário de distração. É o contacto consigo próprias. É reconhecer o que sentimos perante os estímulos exteriores. E quando andamos distraídos não sentimos. Distraímo-nos para nos abstrairmos, porque é cansativo estar atento à vida. É cansativo olharmos para nós, ficarmos no sentir, questionarmos as escolhas que fazemos, assumirmos a liberdade de alterar tudo a qualquer momento. Preferimos não pensar, não sentir, não sofrer, não nos molhar… e vamos vivendo, ou melhor, sobrevivendo, sempre sequinhos! Aceitar entrar no desconhecido assusta, mete medo, cria-nos insegurança. É melhor não… É melhor optarmos pelo seguro, pelo que nos é familiar e já conhecemos, pois assim sabemos com o que contamos. Como se a vida fosse uma escolha entre certezas e incertezas… como se a vida pudesse ficar imutável se escolhermos o conhecido. Resistimos. Resistimos. Resistimos. Quem não resiste entrega-se à batalha. Só os grandes guerreiros se disponibilizam às grandes batalhas. Batalhas que transformam a vida. Batalhas onde nada se perde, a não ser o que já não nos serve e não é útil ao nosso propósito de vida.
Entrar numa batalha para ganhar traduz-se em perder, logo à partida. O objetivo deste tipo de batalhas, ou desafios, não são a vitória sobre um inimigo, mas sim, um enriquecimento, uma transformação, no contacto com os outros, que não são nossos inimigos, mas sim, ferramentas ao nosso dispor para conseguirmos concretizar as nossas aprendizagens, sendo que aprender e crescer implica superar obstáculos que tendemos a ver como externos, mas que, na verdade, são apenas internos. Já só reconhecê-los é difícil, implica atenção e perseverança num trabalho de olhar para si próprio, o que nem todos estão dispostos a fazer.
A condição base para que os desafios nos enriqueçam, nos tornem mais fortes e mais em contacto com a nossa essência – sejam eles arriscar, investir no que se gosta de fazer, ir numa viagem, entrar numa nova relação, o que for! –, é estarmos disponíveis a sermos afetados. Ser afetado no sentido de estar interiormente aberto para que determinado momento nos possa provocar uma mudança. Ser afetado na sequência do fluxo de movimentos implícitos, pautados pelo afeto, pelo sentimento, por algo é ativado no nosso interior porque nos disponibilizámos a isso. Entregar-se ao momento, deixar que ele nos afete, acolher sem resistências a entrada das águas em cada poro da nossa pele, para que sintamos a intensidade da vida, no que ela tem de transformador, é só para quem tem a grande vontade de valorizar e honrar a própria existência. Quando nos abrimos aos momentos e nos deixamos afetar – com afeto – é sempre uma oportunidade para que o desconhecido em nós passe a conhecido.

Mas, até que ponto nos queremos conhecer?

Na mesma exata medida em que nos permitimos ser afetados pelos momentos que passam por nós. Ou os apanhamos e corremos o risco de uma caminhada cada vez mais feliz, ou os deixamos ir, na ilusória certeza de que a nossa vida continuará a mesma de sempre. Tudo muda, mas na primeira hipótese temos a coragem da escolha; na segunda, a vida escolhe por nós. Quando somos nós a escolher, a apanhar o momento, a nossa abertura à mudança, à aprendizagem e ao crescimento é claramente muito maior. O percurso terá sempre as suas dificuldades, mas se nos mantivermos atentos, o nosso propósito estará sempre presente.

Ter a disponibilidade para nos entregarmos a momentos que nos fazem pôr em causa a nossa visão do mundo abre-nos para uma vida mais estimulante. Momentos que questionam o nosso sentir. Momentos que alteram a nossa caminhada no trilho da vida. Momentos que se tornam marcos no nosso percurso. Momentos escolhidos.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 87 (edição de abril de 2016)