Quem não se lembra da celebérrima cena em que a rainha de um conto de fadas, madrasta de Branca de Neve, em frente do seu espelho mágico, que só diz a verdade, pergunta: “Espelho meu, espelho meu. Há alguém mais bela do que eu?” Invariavelmente, a resposta do espelho era que não existia pessoa mais bela no mundo. Até ao dia em que Branca de Neve fez dezassete anos…

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Então, a resposta do espelho foi inequívoca: Branca de Neve era a mais bela de todas as mulheres. A fúria da rainha não se fez esperar e ordenou a um caçador que matasse Branca de Neve e lhe trouxesse como prova o coração da jovem. A rainha, apesar de ser madrasta da rapariga, não suportava ter qualquer rival que se lhe comparasse em beleza e disputasse a atenção da corte. A vaidade, prepotência, inveja, raiva, vingança e crueldade estão magistralmente registadas neste breve episódio, que constitui um dos mais irónicos retratos ficcionais da perturbação narcísica da personalidade.

 

A origem

 

A designação de narcisismo para qualificar o amor exagerado e doentio que uma pessoa tem por si própria deriva de outra história famosa que integra o panteão da Mitologia Grega. Narciso era um jovem frívolo e belo que suscitava o desejo das ninfas do bosque, mas a sua arrogância e presunção faziam-no desprezar quem quer que fosse. Ao olhar para a imagem do seu reflexo nas águas de uma lagoa, Narciso ficou deslumbrado com tamanha beleza e enamorou-se por si próprio. Tanto se debruçou sobre o espelho de água que se fundiu com a sua imagem. Afogou-se e transformou-se, por graça dos deuses, numa flor: o narciso.

 

Ao longo da história da Psicologia foram vários os estudiosos que se interessaram por este tipo de personalidade. Em Sobre o Narcisismo, publicado em 1914, Freud relançou o debate elaborando a distinção entre um narcisismo normal na infância – em que a criança toma o seu próprio “eu” como objeto de amor, estimulada pelo carinho incondicional dos pais – e um narcisismo anormal quando, depois da maioridade o sujeito, em vez de dirigir a energia psíquica da libido para outros objetos sexuais, continua obcecado com o corpo e fixado na sua imagem como fator de satisfação erótica.

 

Nos adultos, um narcisismo desmesurado seria, pois, um sinal de falta de maturidade e egocentrismo. Os indivíduos com traços de narcisismo teriam tendência para preferir parceiros sexuais com caraterísticas semelhantes às suas ou então para escolher como objeto da líbido pessoas capazes de satisfazer algumas das suas necessidades básicas. Até certo ponto o narcisismo é uma caraterística usual dos seres humanos, passando a ser considerado patológico quando se torna excessivo, perverso, e dificulta as relações do indivíduo com os outros nos meios profissionais e sociais que frequenta.

 

Principais caraterísticas

 

De acordo com os critérios clínicos atuais, a perturbação narcísica da personalidade carateriza-se por um amor exagerado por si mesmo e por um comportamento autocentrado, egoísta e prepotente, desprovido de empatia pelos outros. Alguma megalomania, que leva o indivíduo a sonhar com feitos grandiosos que não passam de fantasia, é acompanhada pela necessidade de constante admiração por parte de quem o rodeia.

 

Em encontros sociais o narcisista esforça-se para ser o centro das atenções, não se cansa de falar de si, de autoelogiar-se sempre que pode e de falar mal dos outros como forma de destacar as suas qualidades excecionais, razão que o leva a considerar-se único e com direito a um tratamento especial.

 

A pretensa superioridade do narcisista, sublinhada por uma ostentação mal disfarçada, é quase sempre acompanhada por uma vontade irresistível de manipular as outras pessoas a fim de obter o que pretende. Quando alguém o contradiz, o contraria, o critica, ou o rejeita, ele fica furioso, alimenta rancor e não perde uma oportunidade para se vingar de quem supostamente o humilhou. Em casos extremos, o fantasma da madrasta de Branca de Neve não anda longe!

 

Sempre a aumentar

 

Estudos recentes apontam para um acréscimo nas últimas décadas do número de indivíduos com sinais de perturbação narcísica. As mais afetadas são as camadas jovens dos países desenvolvidos. De acordo com um estudo norte-americano, 9,4% dos inquiridos com idades compreendidas entre os 20 e os 29 anos apresentam um nível de narcisismo extremo, enquanto os inquiridos com mais de 65 anos se situam nos 3,2%.

 

Embora alguns autores falem de uma recente epidemia narcisista, já que o narcisismo extremo tem tendência para semear a discórdia, a agressividade e a maledicência à sua volta, não se conhecem com precisão as causas que geram o atual surto de narcisismo. Dada a enorme influência dos costumes, cultura e meio social na formação das mentalidades, o alvo mais óbvio tem sido a propagação da sociedade do espetáculo, o culto da celebridade e a incrível proliferação das redes sociais como matriz de comunicação entre os jovens.

 

A divulgação permanente da vida das celebridades na televisão, nas revistas mundanas, nas redes sociais, e a constante adulação mediática das estrelas do espetáculo e do desporto estimulam a ideia de que a exibição pública e a ostentação dos tiques narcisistas contribuem para alcançar mais facilmente o sucesso, a fama, a riqueza e o poder. Os inúmeros formatos televisivos de reality show reforçam esta tendência criando disputas artificiais de vaidade, concorrência, supremacia, agressividade e exclusão entre os concorrentes com a finalidade de fazer aumentar as audiências.

 

A moda das selfies

 

A cultura do narcisismo atinge o seu auge nas redes socias, onde todos podem ter os seus quinze minutos de fama e, ao abrigo do anonimato ou pseudónimos, insultar quem os faz sentir incomodados. A cultura transformou-se em divertimento e o divertimento é cristalizado em imagens que proliferam por todo o lado. A diferença entre a realidade e as imagens tornou-se irrelevante e o que não existe na imagem pura e simplesmente é como se não existisse.

 

As selfies converteram-se num meio acessível de afirmação do culto da personalidade. Do telemóvel passam para o Facebook, o Instagram, o MySpace, o Twitter ou outros sítios, e são partilhadas por uma comunidade de desconhecidos ou amigos virtuais. Em 2013, quando o Oxford English Dictionary considerou selfie a palavra do ano, só no Instagram foram carregadas 184 milhões de selfies. Segundo estimativas do Google, todos os meses foram publicadas 93 milhões de selfies, em todo o mundo.

 

Agora não se fotografa a realidade exterior, fotografa-se o “eu” como extensão do reflexo do indivíduo no mundo. Não é por acaso que nos telemóveis atuais o mesmo visor pode ser utilizado como espelho do rosto e como câmara fotográfica. Narciso ficaria encantado!