Não é só o cérebro que envia informação ao coração, tal como às outras partes do nosso organismo. O coração também emite sinais eletromagnéticos e produz hormonas que incidem diretamente no cérebro e afetam as nossas emoções e a nossa forma de pensar, sendo muito mais que ‘o motor’ do nosso organismo.

 

Há muitos anos, quando fiz um Curso de Socorrismo (teria uns 15/16 anos), o formador perguntou a determinada altura qual era o órgão mais importante do corpo humano… instantaneamente, respondi: «O Coração», tal como mais um ou dois colegas… a maioria respondeu: «O Cérebro» e foi este o grupo que «acertou na resposta». Hoje em dia, sorrio, quando me recordo deste episódio… a minha resposta foi mais espontânea que pensada, até porque (modéstia à parte) sempre fui muito boa aluna a Ciências, por isso fiquei ‘cismada’ com a minha ‘resposta ridícula’. Anos volvidos, ao tomar conhecimento dos estudos sobre Inteligência Cardíaca, levados a cabo pela Neurocardiologia e pela Biologia Molecular, compreendi que a minha resposta tinha sido completamente intuitiva e que, finalmente, parecia estar a ser corroborada: O Coração tinha, afinal, ‘a sua importância’ e poderia fazer uma excelente equipa com o Cérebro!

O coração tem cérebro

Annie Marquier, matemática e investigadora da Consciência e da sua inter-relação com a Ciência, foi professora na Sorbonne, antes de se mudar para a Índia, onde participou da comunidade de Auroville com Sri Aurobindo e Krishnamurti. Mais tarde, fundou no Quebec, o Institute for Personal Growth e é autora de vários livros como: O poder de escolher, A liberdade de ser e O mestre do coração. Neste último, refere que os cientistas têm vindo a constatar que o coração «é inteligente», tendo em conta que possui um sistema nervoso independente e bem desenvolvido. Foi John Andrew Armour, da Universidade de Montreal, quem descobriu, em 1991, que o coração dispõe de um complexo sistema intrínseco formado por uma rede de mais de 40 mil neurónios, neurotransmissores, proteínas e células de apoio, apelidando-o por isso de ‘pequeno cérebro’. Parece, então, que o coração não é apenas um motor para bombear sangue por todo o corpo, mas tem também a capacidade de aprender, recordar e perceber e, por essa razão, pode tomar decisões e passar à ação.

Investigações levadas a cabo neste âmbito referem a existência de 4 vias principais de conexão que partem do coração em direção ao cérebro: Neurológica (mediante a transmissão de impulsos nervosos), Bioquímica (através de hormonas e neurotransmissores), Biofísica (feita por ondas de pressão geradas pelo batimento cardíaco) e Energética (através do campo eletromagnético que cria).

Através da via neurológica, o ‘cérebro do coração’ pode influenciar o ‘cérebro da cabeça’ na nossa perceção da realidade, na nossa maneira de pensar e sentir e nas nossas reações. O coração envia mais informação ao cérebro do que aquela que recebe e é o único órgão do corpo humano com essa característica, podendo inibir ou ativar determinadas partes do cérebro, de acordo com as circunstâncias. Esta será, então, uma nova forma de inteligência, diferente da inteligência cognitiva e mesmo da inteligência emocional, a qual designamos por Inteligência Cardíaca, que decorre deste ‘cérebro do coração’.

Em relação à comunicação bioquímica do coração ao cérebro, ficou demonstrado que o coração produz a hormona ANF que assegura o equilíbrio geral ou ‘homeostasia’ e um dos seus efeitos é inibir a produção da hormona do stress, em especial do cortisol, segregando a sua própria adrenalina quando assim o necessita. Produz também a oxitocina, chamada a ‘hormona do amor’ e liberta-a em grandes quantidades quando nos encontramos num estado amoroso.

Em relação à comunicação biofísica, foi observada uma relação direta entre a pressão sanguínea, a respiração e certos ritmos do sistema nervoso autónomo. Parece que através do ritmo cardíaco, e das suas variações, o coração envia mensagens ao cérebro e ao resto do corpo.

Quanto à comunicação energética, o campo eletromagnético do coração é o mais potente de todos os órgãos do corpo: 5 mil vezes mais intenso que o do cérebro e produzindo entre 40 a 60 vezes mais bioeletricidade que este. E o mais interessante é que o aspeto do campo magnético do coração muda em função do estado emocional. Quando sentimos medo, stress, frustração ou raiva, torna-se caótico; por outro lado, quando experimentamos emoções, como a gratidão, a compaixão ou o perdão, adquire um aspeto ordenado e surge aquilo que se chama de ‘estado coerente’. Este campo eletromagnético resultante da atividade elétrica cardíaca envolve o nosso corpo, atingindo um perímetro de 2 a 4 metros (mensuráveis através de magnetocardiogramas), permitindo a todos os que nos rodeiam receber e sentir a informação energética contida no nosso coração.

Coerência cardíaca, a chave do equilíbrio

A ‘coerência’ é um termo que descreve um estado de alta eficácia biopsicológica, na qual os sistemas nervoso, cardiovascular, endócrino e imunitário, estão a trabalhar de modo eficiente e em harmonia, sintonizados com o ritmo do coração (‘coerência cardíaca’). Quanto maior a coerência, menor o stress vivenciado. Quando estamos em coerência, o nosso corpo, ao nível físico e psíquico, emite uma sinfonia sob a batuta do coração.

Tendo o coração o seu circuito neuronal próprio, interrelacionado com o cérebro emocional, responsável pelo controlo das emoções e da fisiologia do corpo, quando estamos em ansiedade, o nosso corpo não está sincronizado devido às emoções negativas, provocando uma desordem no ritmo cardíaco e no sistema nervoso que conduz ao bloqueio e inibição do neocórtex ou cérebro racional.

Existem duas classes de variação da frequência cardíaca: uma é harmoniosa, de ondas amplas e regulares e toma essa forma quando vivenciamos emoções e pensamentos positivos, elevados e generosos. A outra é desordenada, com ondas incoerentes e surge com o medo, a raiva e a desconfiança. Mas, o que é mais curioso é que as ondas cerebrais se sincronizam com estas variações do ritmo cardíaco, o que nos pode levar a cogitar que ‘o amor do coração’ não é uma emoção e sim um estado de consciência inteligente. As emoções positivas criam harmonia no sistema nervoso e no ritmo cardíaco, provocando desbloqueios a nível cerebral, ao mesmo tempo que o resto dos sistemas do corpo se sincronizam e entram em ‘coerência’.

De um modo geral, pensamos que o nosso coração bate sempre a um ritmo uniforme, mas na verdade não é assim, um coração saudável apresenta uma variabilidade de batimentos que é ‘saudável’ (‘variabilidade do ritmo cardíaco’ = VRC), e que decorre de respostas de adaptabilidade corporal às mudanças que vivemos diária e constantemente. Esta encontra-se sob a influência direta do Sistema Nervoso Autónomo (Simpático – responsável pela ativação e Parassimpático – responsável pelo relaxamento, sistemas que se autoequilibram) e, curiosamente, uma VRC baixa pode originar problemas futuros ao nível da nossa saúde. Há fatores que influenciam claramente na nossa VRC, como sejam o nosso padrão de respiração, os nossos pensamentos e, sobretudo, as nossas emoções. A ansiedade, a zanga e a frustração produzem um traçado irregular e em picos, a que se chama ritmo cardíaco incoerente. As emoções positivas, por seu lado, enviam a todo o corpo um sinal muito diferente: o apreço, a gratidão, o amor e a calma, produzem um ritmo cardíaco coerente (ritmo sinusal, ou seja, com batimentos cardíacos regulares).

A coerência cardíaca significa que os dois ramos do Sistema Nervoso Autónomo funcionam de forma harmoniosa, o que leva a um funcionamento eficiente do nosso corpo, o que tem efeitos positivos no equilíbrio corpo-mente.

 

Treinar a coerência cardíaca

Como dizia Gandhi: «A felicidade alcança-se porque o que penso, o que digo e o que faço estão em harmonia», e esta situação pessoal acaba por criar uma grande coerência. Ao contrário, a incoerência é produto do conflito interior, que desemboca em vivências de stress, as quais, se perdurarem no tempo, levam a doenças várias, que mais não são do que reações do nosso psicocorpo para restabelecer o equilíbrio.

Existe um exercício muito simples que foi desenvolvido pelo Instituto HeartMath, que conta já com 20 anos de investigações sobre o Coração, e que serve para treinar o bater do coração de forma Coerente, enviando sinais ao cérebro para que elimine o stress através de um processo fisiológico que reduz as hormonas do stress e aumenta as hormonas ‘positivas’, ajudando, assim, a equilibrar pensamentos e emoções e aumentando a clareza mental, a vitalidade e o autocontrolo. Consiste em 4 passos:

 

  1. Respirar no Coração: coloque a sua mão no centro do peito, uns 10 cm abaixo da garganta. Respire para este espaço, com toda a sua consciência, como se o ar entrasse e saísse pelo centro do seu peito, de forma que, ao inspirar, sinta como a caixa torácica se expande e empurra a sua mão.

 

  1. Visualizar algo agradável: ao mesmo tempo que respira para o seu coração, visualize na sua mente coisas que o fazem sentir-se feliz. Estas visualizações deverão provocar sensações de bem-estar, amor ou agradecimento e deverão ser praticadas durante cerca de 3 minutos.

 

  1. Focalizar as imagens no coração: mantendo a respiração do primeiro passo, deverá agora imaginar que move as imagens agradáveis visualizadas para debaixo da mão, sob o seu peito.
  2. Sentir a emoção no seu coração: quando começar a sentir no seu peito a emoção agradável, decorrente das visualizações, poderá expandir com a sua respiração o espaço no seu peito e ampliar essa emoção. Quando começar a conseguir fazê-lo, a sensação de stress irá desaparecer.

 

A coerência cardíaca tem aplicações diversas, nomeadamente:

– Face à irritação, raiva, frustração;

– Medo de falar em público;

– Ataque de pânico ou ansiedade generalizada;

– Fobias;

– Tratamento da dor física;

– Hipertensão arterial;

– Distúrbios do sono;

– Enxaquecas;

– Enjoos;

– Fibromialgia.

 

Não esquecer que o Coração:

– Começa a bater no feto antes de o cérebro estar formado;

– Tem um sistema nervoso próprio, independente e complexo, conhecido como ‘o cérebro do coração’;

– Dirige e alinha muitos sistemas no corpo para que possam funcionar em harmonia entre si;

– Está em constante comunicação com o cérebro, com o qual cria uma comunicação bidirecional e cujo funcionamento pode alterar (já se sabia o contrário, que o cérebro podia alterar o funcionamento cardíaco);

– Pode sentir, processar informação, decidir e aprender de maneira autónoma, percebendo a informação em primeiro lugar e transmitindo a mesma ao cérebro, utilizando uma capacidade incrível: a intuição.

 

Despertar a inteligência cardíaca

Ativar este circuito passa por viver (também) desde o coração. Cada pensamento, cada emoção, deverá ser apresentada primeiro ao coração e ver se está em harmonia com o Amor que ali se encontra, a partir deste centro do nosso Ser Interior que mais não é do que a Intenção do Coração.

Digamos que o ‘cérebro do coração’ ativa no ‘cérebro da cabeça’ centros superiores de perceção completamente novos, os quais interpretam a realidade sem se apoiar em experiências passadas, não passando este circuito pelo baú das nossas antigas memórias. Desta forma, o seu conhecimento é imediato, instantâneo e, por essa razão, tem uma perceção exata da realidade, sem que esta seja filtrada pela nossa mente – a isso chamo de Intuição. As nossas aprendizagens, fruto das experiências passadas e as memórias que delas temos, são obviamente importantes… mas a inteligência cardíaca também o é e a proposta, a meu ver, será de equilibrar as diferentes áreas de inteligência que nos habitam.

Cultivar a inteligência cardíaca é procurar sermos testemunhas de nós mesmos, desenvolvendo a capacidade de auto-observação do nosso sentir, do nosso pensar e do nosso agir, uma observação ‘pura’ e sem julgamento, feita com a curiosidade de ‘quem se vê pela primeira vez’, tão-somente com o propósito de detetarmos os nossos padrões automatizados de funcionamento e, eventualmente, de melhor os modificar.

«Dispomos, hoje, de provas científicas de que o coração nos envia sinais emocionais e intuitivos para nos ajudar a governar a nossa vida. Em vez de simplesmente bombear sangue, o coração dirige e promove o alinhamento de muitos sistemas do corpo, de modo a fazer com que funcionem em harmonia uns com os outros», (Doc Childre e Howard Martin, respetivamente fundador e presidente executivo do Institute HeartMath, na Califórnia).

                                 

O coração é vital no controlo do stress

Devemos aprender a confiar na intuição e a darmo-nos conta de que a verdadeira origem das nossas reações emocionais reside dentro de nós e não no que acontece na realidade exterior na qual estamos embrenhados, recuperando assim o nosso poder pessoal na resolução dos nossos problemas.

Por outro lado, a saúde cardiovascular condiciona a saúde mental e, ao aumentarmos o nosso campo energético, estaremos ainda a projetar e a expandir calma e serenidade para o ambiente à nossa volta e para as pessoas com quem interagimos… quem sabe um pequeno passo para fomentar a paz e a harmonia na sociedade que nos rodeia.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 82 (edição de Novembro de 2015)