Vender a antecipação é o novo mercado dos Big Data. Os investigadores em informática da Universidade de Birmingham, em Inglaterra, dizem poder prever, a partir de dados de rastreamento dos nossos smartphones, onde exatamente cada um de nós se encontrará, em qualquer momento, com uma margem de erro de 20 metros.
Assim, pode-se vender a uma certa loja a predição da passagem de um cliente interessante num determinado dia e hora. A ideia é poder dominar e controlar o ‘destino’, a probabilidade, o que pode ser bastante perigoso, já que o imprevisível constitui uma parte essencial ao Homem. O espírito humano é, de facto, mais rico frente ao inesperado, ao imprevisto e na história da Humanidade, a maior parte das grandes descobertas não teriam tido lugar sem esta vertente imprevisível. Como, por exemplo, a invenção da penicilina. Alexander Fleming descobriu que o mofo tinha contaminado algumas culturas bacterianas. Não obstante, a área que rodeava o mofo estava livre da bactéria. Fleming predisse que teve um efeito antibacteriano. A descoberta valeu-lhe o prémio Nobel.

Ninguém sabe exatamente quem inventou a cerveja, mas tudo nos leva a crer que o processo que a originou – a fermentação, foi mais um feliz acaso. Pode-se citar muitos mais casos: o viagra, o RX, o aço inoxidável, o fósforo, a pólvora, etc.
Muitos estudiosos acreditam que o facto de cometermos erros é o que nos torna humanos e consideram o princípio da tentativa e erro, não apenas perfeitamente normal, como absolutamente necessário.

Mas, voltando aos nossos Big Data, tentar compreender as nossas emoções para nos poderem controlar melhor e acordar o consumidor que dorme em nós, é o seu objetivo.
‘Graças’ à tecnologia digital, podemos conversar, consumir, trocar opiniões, partilhar, divertirmo-nos e informarmo-nos a toda a hora, de dia e de noite. Em média, perdemos 18 minutos de sono reparador todos os dias, por causa das novas tecnologias. Tornamo-nos trabalhadores e consumidores ativos a todo o momento. Quase que nos sentimos mal pelo tempo que ‘perdemos’ a dormir, em vez de continuarmos incansáveis, ativos, bem comportados, como nos querem, num fluxo contínuo, a otimizar todos os instantes.

Ficamos com a impressão de que a resposta a todos os males no mundo só pode ser a tecnologia. A doença, a velhice e até a morte já não têm nada a ver com questões metafísicas, mas representam simples problemas técnicos que podem ser vencidas graças à fusão entre a biologia e a informática.

Os Big Data, mestres do tempo, imaginam-se já capazes a aumentar a esperança de vida de uma maneira determinante. Como diz o cofundador da Google, Larry Page, «A Google quer mesmo ‘eutanasiar’ a morte».
O autor do livro O Homem Nu, o francês Marc Dugain, afirma que os Big Data estariam a preparar com toda a discrição a medicina do futuro, onde os algoritmos estabelecerão o diagnóstico e prescreverão o tratamento.

Hoje, os softwares como o Watson, conseguem diagnosticar certos cancros de uma maneira mais eficaz que os próprios especialistas oncológicos; no futuro, o Dr. Watson poderá substituir por completo os médicos.

Mas, a ambição dos Big Data é conseguir vender aos que possuam grandes recursos, ‘Pontos de Vida’ suplementares, diz Marc Dugain. Viver eternamente, luxo supremo, é muito melhor do que possuir um iate de 180m, um relógio de 1 milhão ou um palácio à beira-mar.
Até agora, todos nós aproveitámos os avanços do conhecimento científico e ganhámos, nos últimos 30 anos, 3 meses por ano de esperança de vida. Amanhã, a ciência pode estar só ao serviço dos mega, ultra ricos, o que fará com que a nossa sociedade se divida em duas espécies que não evoluirão da mesma maneira, afirma um dos autores do livro O Homem Nu, Christophe Labbé.

Caminhamos para um futuro onde o ser humano possa viver um presente eterno, onde as escolhas já não têm importância e a coragem nenhum sentido, pois a única finalidade seria a longevidade e, frente a isto, tudo perderia sentido.
A finitude sempre representou o principal motor de progresso para o homem lúcido, consciente de quem ele é, com as suas fraquezas, que também demostram a sua força. E os Big Data não só pretendem acabar com a morte, mas querem fabricar um homem novo, em hibridação com a máquina. O objetivo é dar à luz um ser com capacidades físicas e intelectuais aumentadas, de facto, um género de super-homem, um futuro inelutável aos olhos dos que acreditam piamente nestas teorias.

Mas, atenção, estes objetivos podem parecer absurdos, diretamente tirados de um livro de ficção científica, mas graças à convergência da robótica, da biogenética, da nanotecnologia, das neurociências e da informática tornar-se-ão possíveis por volta de 2040, quando a inteligência artificial ultrapassar a inteligência dos humanos.
Já hoje, alguns imaginam um computador biológico que funcionaria com o código genético do seu proprietário. Esta fusão entre o cérebro e a máquina deveria permitir ao computador reprogramar-se continuamente, aumentando, assim, infinitamente as suas capacidades, até ultrapassar as do cérebro humano, limitado aos seus 100 mil milhões de neurónios, ainda a diminuírem com a idade. 

(Continua)