“Paf, paf, paf” – ecoavam as patas do pachorrento camelo, pisando a areia do deserto e levantando montículos de poeira à medida que íamos avançando. Estávamos no meio de um passeio que tínhamos decidido fazer à Tunísia. “Brincávamos” de viver como os tunisianos, atravessando uma extensão de areia enquanto um sol, ainda relativamente pouco quente, já brilhava, prometendo manifestar-se em todo o seu esplendor.

 

O conjunto de anil, rosa e dourado era como uma poalha colorida que tudo dominava
e que, gradualmente, começava a mostrar aos condutores dos nossos amigos de quatro patas que nos transportavam, que era altura de mudar o rumo do passeio, voltando
ao ponto de partida.
Com os cabelos envoltos em turbantes de cor igual aos enfeites que adornavam cada camelo e que compráramos no mercado da aldeia ali perto, íamos protegidos da areia que rodopiava na dança do vento, levando o rosto quase todo coberto e recorrendo aos óculos escuros para proteger os olhos, agarrando-nos firmemente à bossa do nosso camelo e deixando-nos levar pelo “ondear” do seu caminhar.
Estes animais, aparentemente simpáticos, com os olhos orlados de grandes pestanas que semicerravam, avançavam num ritmo quase hipnótico e automático. No entanto, se sentissem a sua posição na cáfila ameaçada, urravam fortemente, irados e agressivos, abocanhando os seus rivais ou quem quer que se metesse no meio da sua luta.
O sol estava cada vez mais alto e quente. Era hora de regressar. E assim, a um sinal do condutor do grupo, virámos em círculo
e voltámos ao começo.
Calor sufocante
A areia envolvia-nos numa nuvem abafadora que nos fazia tossir
e desejar desesperadamente por um grande copo de água que acalmasse toda aquela invasão de pó e calor que se adivinhavam infernais. Mas os nossos condutores tunisianos sabiam bem as características pessoais do grupo que orientavam. Tinham o conhecimento absoluto de que europeus ou pessoas de outros lados do planeta, não habituadas a circunstâncias como as do momento, não suportariam temperaturas como as da noite, amanhecer e do ocaso, num sítio tão inóspito quanto belo como o poderia ser um deserto africano.
Cintilando sob o sol escaldante, como que deitando chispas de luz, as rosas do deserto brilhavam maravilhosamente, pois o sol incidia nelas irradiando as cores do amanhecer.
As suas pétalas de desenho e corte agudo são tão perfeitas que quase poderíamos delinear a sua forma com um dedo leve e curioso, mas com muito cuidado, pois corremos o sério risco de nos cortarmos naquelas arestas agudas, fruto da imaginação do nosso grande
e imensamente inteligente Criador Universal. Estas rosas são compostas de pura areia e sal, amassadas e petrificadas por muito tempo de calor e exposição ao meio ambiente. São vendidas aos turistas por crianças, que veem neste meio uma das suas formas de sobrevivência. Além de rosas, tentam vender-nos mil e uma bugigangas oriundas do seu meio circundante. Ainda conservo algumas destas rosas em casa. Simultaneamente, tentando quase agarrar-nos como um náufrago a uma tábua de salvação, agarrávamo-nos à sela dos animais firmemente e eles iam-nos levando, andando num ritmo quase hipnotizante e automático.

Outras realidades
Fascinada por aquela largueza de espaço, tentava contemplar
o horizonte. Completamente impossível. Era o mar sem fim de areia por onde desejava alongar-me que se me deparava por onde eu desejasse andar, andar, andar ou talvez até perder-me numa caminhada sem fim. Apetecia-me a largueza, a ausência de limites que os objetos do dia-a-dia nos impõem. Apetecia-me andar daquele modo sem rumo fixo, tentando descobrir o intangível e o desconhecido ou tentar descobrir mais um pouco de mim!
Na véspera, tínhamos estado numa tenda tunisina típica a observar um bailado da dança do ventre, rodeados de alimentos exóticos desconhecidos e cercados por cortinados e outros objetos multicores. Também na véspera nos tínhamos deslocado a uma aldeia estranha para nós, europeus. Não tinha teto! Era feita de blocos de areia compacta e seca. Ali não existe a misericórdia de uma gota de água, as condições de vida são extremas e a inteligência que se requer a um país de poucos recursos, como a Tunísia e outros, para sobreviver é enorme.

As estrelas como companhia
Mais uma deslocação de autocarro. Passada mais uma imensidão de areia chegámos ao nosso hotel, que mais parecia saído de um conto das Mil e uma noites. Jantámos. Uns retiraram-se para descansar
e eu desloquei-me ao jardim com a inevitável piscina e beleza, próprias de um hotel belíssimo como aquele. O ar era morno e perfumado, as plantas próprias de um clima árido, embora nascidas num oásis.
O silêncio era quase total e a lua maravilhosa refletia-se na piscina. As estrelas brilhavam como diamantes num céu de veludo e eu tinha
a consciência de que a Vida me oferecera um presente lindo. Deu-me a conhecer algo diferente e a oportunidade, talvez única, de estar ali.
6h00 da manhã, o céu clareia no horizonte! O dia promete ser lindo! Que para vós também o seja.

 

Maria Júlia Baptista
mariadepaulabrito53@gmail.com