eis um dos sentimentos mais subjetivos, intensos
e complexos. É difícil de compreender, interpretar e definir. Pode dizer-se que amor é tudo aquilo que nos move da interioridade para a vida através do desejo. O amor é como uma atração que nos inclina para um objeto diferenciado em relação a outros, para o qual convergem energias, aspirações, desejos e pulsões.

O amor também é “um sentimento que induz
a aproximar,
a proteger ou a conservar a pessoa pela qual sentimos afeição, ou atração”, “uma grande atração ou afinidade forte por outra pessoa” ou “uma ligação afetiva a outrem, incluindo uma ligação de carácter sexual”.
Existe uma ideia de amor muito idealizada, onde é visto como um valor puro, universal, eterno
e irracional que ultrapassa todas as barreiras. É o “amor romântico”, exclusivo da cultura ocidental
e da era atual. Dizem que é cego, surdo e mudo, e que pode causar felicidade e sofrimento.


Amor duradouro: elementos-chave
O amor assume muitas formas ao longo da vida. Amar uma pessoa e querer estar com ela durante a vida requer trabalho e dedicação. É preciso querer e construir. Segundo o psiquiatra e psicoterapeuta Coimbra de Matos, o amor entre o casal assenta na reciprocidade. As relações são boas quando são recíprocas. No amor, na amizade, nas relações pessoais evoluídas, o mais importante é a pessoa. De acordo com o pesquisador americano John Gottman, o amor para durar depende da forma como o bem-estar e a felicidade do outro são encarados, com igualdade e sem submissões, mas com partilha e envolvimento, ou seja, com bondade
e generosidade. É a bondade que mantém a relação duradoura.
Ter o outro por garantido ou dar-se por garantido não é bom prognóstico para o futuro do amor. Outra regra de ouro é aceitar os defeitos do outro sem querer mudar. Ninguém pode mudar ninguém. Não podemos fazer do parceiro aquilo que ele não é. Uma relação é um diálogo assente numa dicotomia de perguntas e respostas. Há que apreciar as intenções, os gestos e ter bondade para reconhecer o esforço do outro.
O filósofo Zygmunt Bauman avança que no momento atual, onde tudo
é rápido e flui como um líquido, também o amor é líquido. A fragilidade do vínculo é a realidade atual dos relacionamentos amorosos que tem menos consistência e que se separam facilmente. Não só as relações interpessoais são frágeis, mas também a relação que estabelecemos connosco, ou seja, a “liquidez do amor-próprio”. O amor-próprio é o resultado de ser amado. É parte importante para amarmos outra pessoa de forma madura. O amor-próprio e a autoestima são fundamentais para uma personalidade saudável, preparada para nutrir as relações amorosas
e superar os desafios da vida.


Questão hormonal
O amor também depende da química em função da oxitocina e da vasopressina. A oxitocina é conhecida como
a hormona do carinho ou do abraço.
É produzida pelo hipotálamo do cérebro. Está associada às emoções
e comportamentos sociais; é responsável pelos orgasmos e diminui a resistência em relação à proximidade com os outros. O amor é cerebral e corporal. Com uma inundação de oxitocina há um conjunto de felicidade e bem-estar. A vasopressina é atualmente conhecida como a hormona da fidelidade.


Amor eterno
O ciclo do amor não é constante. Estudos apontam que a intensidade do amor não se estende ao longo do tempo e que, com o passar dos anos, se transforma em profunda amizade. O amor romântico começa com altas doses de paixão, crescente intimidade. De seguida, a paixão diminui, a intimidade é mantida e o compromisso aumenta. Esse estágio dura de cinco a 12 meses e, posteriormente, há um sentimento de habituação, no qual
o sentimento de exaltação é substituído por outro de calma e segurança,
e o apego é consolidado. A paixão não desaparece definitivamente, pois pode ser revivida ao se incorporarem novos elementos no relacionamento. Muitos casais não aceitam a mudança de “amor romântico” para “amor de companheiro” e julgam ser o fim do amor. É nessa mudança que as paixões extremas do amor se tornam as verdadeiras chaves para um relacionamento duradouro, com comunicação, ternura, carinho e satisfação. O amor é múltiplo e a experiência afetiva é composta por um conjunto de variáveis que se entrelaçam de maneira complexa.
É necessário não se negligenciar o aspeto afetivo e procurar o amor inteligente capaz de integrar sentimento e razão em proporções adequadas. O amor não necessita apenas de ser sentido, mas incorporado na nossa crença de sistema de valores.


Amor sadio
Uma relação amorosa sadia dá-nos alegria e felicidade, mesmo havendo discussões e conflitos. A serenidade não depende dos tormentos e conflitos do casal, mas de como o casal consegue gerir e resolver as situações. Para uma relação amorosa saudável é preciso:

  1. Responsabilidade pela própria felicidade.
  2. Confiança entre os parceiros.
  3. Respeitar o outro.
  4. Discutir como ocasião para melhorar.
  5. Ter o próprio espaço.
  6. Considerar e admirar o parceiro.
  7. Querer estar juntos.

A primeira grande relação de amor é a vinculação afetiva, expressa pelo cuidado e vivida pelo sentimento de ternura e os seus derivados, como compaixão e admiração. Em todos os tipos de relações amorosas, a bondade e a preocupação com o bem-estar do outro surgem como ponto essencial para um relacionamento saudável.
É preciso lembrar que violência não é amor. Expressar amor é nutrir as nossas relações com bondade e compaixão para ter uma vida mais feliz, equilibrada e harmoniosa.

Mariagrazia Marini Luwisch
Especialista em Psicologia Clínica
e da Saúde | Psicoterapeuta
966 062 421