Quantas e quantas vezes nos debatemos com o terrível desafio de saber se fizemos a coisa certa, se decidimos bem sobre algo que (não) fizemos ou (não) queremos fazer, se o resultado final da nossa acção coincide com o nosso primeiríssimo pensamento em fase embrionária que julgávamos ser o mais ‘certo’? O que é isso de ‘certo ou errado’? Há uma palavra, hoje, muito deturpada, que talvez possa responder a esse conceito dividido entre certo/errado versus semente/fruto. A resposta está numa palavra que todos achamos entender mas que, na prática, só os sábios a dominam. O termo confunde-se com outro, de facto muito parecido, mas, no fundo, muito diferente. Falo de vontade.

 

Mas, não confundamos vontade com desejo. Enquanto a vontade está mais ligada à ideia de pormos em acção os nossos pensamentos, o desejo quase sempre está frequentemente ligado aos nossos sentimentos e emoções. Ainda há pouco escrevi que de nada nos serve agir de coração quando não sabemos ligá-lo à nossa mente, quando não sabemos controlar essa corrente possante, esse impulso primário, de forma harmoniosa, e logo a seguir elevá-lo para outro estágio.

Porém, dentro da vontade persistem dois grandes desafios – e é disso que quero falar neste texto – duas forças que, ao se entrecruzarem, dificilmente nos ajudam a decidir a ‘coisa certa’. Uma é erguer a bandeira do ‘querer é poder’, expressão extremamente ligada a um modo bem simplista e primário da vida, e ao mesmo tempo castrador, do género «se não fazes é porque não queres». É de facto uma versão crua da ideia de vontade que, ao mesmo tempo,nos impõe a ideia rápida, prática e gloriosa de mudança e de glorificação através da ‘catártica’ vontade. Por outro lado, temos a versão oposta em modo ‘preguicite aguda’, isto é a da desresponsabilização, do cepticismo crónico, do ‘não adianta, do esforço em vão’. Se por um lado, uma é a pujança a toda a força, a outra é a anulação total da vontade. De facto, ambas as versões parecem desequilibradas. O que falta a estes dois pólos tão opostos? Eu acredito, vivido na pele, que só através de uma terceira via, que os reconcilie, a energia flui de verdade. Ambos os pólos dependem um do outro, sem dúvida, mas a chave está numa terceira coluna, num filamento se quisermos, que limpe a confusão do coração e da mente e nos permita ver a ‘lâmpada’ acesa por muito mais tempo.

Até aqui a teoria é esta. Na prática, contudo, há que fazer com que essa vontade seja treinada. Sim, treinada, a todo o instante e nas mais pequenas coisas do nosso dia-a-dia, mesmo que já nos julguemos estar preparados para ela. Esse é o segredo da longevidade do espírito, da cura para as depressões, da saúde mental… da humildade, esta última palavra resumiria tudo, absolutamente tudo o que foi dito anteriormente.

Exercitar o ‘músculo’ da vontade é, portanto, uma prática crucial à nossa saúde espiritual. Há erros que assomam na nossa vida, porque o nosso desejo de receber para nós mesmos confunde-nos com vontade de receber para compartilhar. E o resultado final é no fim ficarmos esmagados. Vontade, de verdade, é ter essa coluna vertebral e ser capaz de driblar as artimanhas do ego quando chega aquela hora tão difícil de tomar a decisão ‘certa’. Esse é o treino, o exercício da vontade para fazer a coisa ‘certa’ e de forma positiva.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº70 (edição de Novembro de 2014)