A estória passa à frente do meu nariz num relâmpago, em modo ‘feed de notícias’. Quase decidi não ler. Mas, ‘por que raio’ haveria eu de dar atenção a um texto cujo título era ‘the black toast’ (a torrada queimada), ainda por cima numa daquelas manhãs cujo alento estava mais denso que o nevoeiro da Escócia?

Numa tradução livre, passo a contar: «Quando eu ainda era um menino, a minha mãe gostava de fazer um lanche, tipo pequeno-almoço, à hora do jantar. E eu lembro-me especialmente de uma noite, quando ela fez um lanche desses, depois de um dia de trabalho muito duro.
Naquela noite distante, a minha mãe colocou um copo com leite e um prato com torradas bastante queimadas para o meu pai. Eu lembro-me de ter esperado um pouco, para ver se alguém notava tal facto. Tudo o que o meu pai fez foi pegar na torrada, sorrir para a minha mãe, e perguntar-me como tinha sido o meu dia na escola.
Eu não me lembro do que respondi, mas recordo-me de ter olhado para ele a lambuzar-se com a torrada com manteiga e geleia e a degustar cada pedaço. Naquela mesma noite, ouvi a minha mãe a desculpar-se por ter queimado as torradas. Jamais esquecerei o que o meu pai lhe respondeu: «Amor, eu adoro torradas queimadas». Mais tarde, quando fui dar um beijo de boa noite ao meu pai, perguntei-lhe se ele realmente gostava de torradas queimadas. Ele abraçou-me e disse: «Filho, a tua mãe teve um dia de trabalho muito pesado e estava realmente cansada. Além disso, uma torrada queimada não faz mal a ninguém. A vida é cheia de imperfeições e as pessoas não são perfeitas. E eu também não sou o melhor cozinheiro do mundo».

Ora aqui está a resposta para o meu dia – que já tinha começado com uma manhã bem carregada, densa, qual nevoeiro escocês – mais encardido que as torradas desta estória. O lembrete caiu-me que nem uma luva. Concluí: é tão possível criar paz quando o motivo mais ‘legítimo’ seria abrir uma guerra, aceitar as falhas alheias, mesmo que as diferenças entre nós e outros sejam enormes, tudo isto em prol de relacionamentos mais sadios e duradouros.

É assim que eu quero começar as minhas manhãs, com cheirinho a torrada queimada, porque aí sim, sei que o Universo apenas está a fazer com que eu ponha em prática essa (in)capacidade de relativizar certos ‘danos’ na vida que, afinal, não passam de ‘males’ disfarçados de grandes bênçãos, truques do cosmos só para ficarmos mais perto do coração de uns e de outros.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 88 (edição de maio de 2016)