Porque cumprimos, nos conformamos e obedecemos?

Desde a mais tenra idade que aprendemos a importar para a nossa vida regras, atitudes e comportamentos que aceitamos, como forma de nos mantermos ligados aos outros e amados por eles.

A submissão e a revolta oscilam como movimentos internos que articulamos para melhor conseguirmos a segurança e a necessidade de amor que aprendemos a ter. O NÃO parece ter sido muito mais aprendido e interiorizado que o SIM. As estratégias para contornarmos a sensação de contracção e o corte no fluir da vida quando experienciamos o NÃO são inúmeras! Nascemos inocentes e disponíveis para começar de novo e trazemos connosco uma capacidade de amar infinita. Quando observamos o semblante de um bebé enquanto dorme, apercebemo-nos da imensa paz e entrega com que se abandona ao seu descanso. Os sons que o cercam começam a chegar a si e a querer encontrar significado na sua ainda curta experiência de vida. Rapidamente se apercebe que existem Nãos e que eles surtem um efeito em si e nos outros. A sequência de Nãos aumenta e repete-se ao longo dos meses e anos e depressa a criança se torna prisioneira de Nãos que ela não entende, mas que deve aceitar porque sim.

A vida é uma sequência de Nãos e Sins

Com o tempo descobrimos que a vida é uma sequência de Nãos e de Sins e que o nosso papel é descobrir como receber o maior número de Sins possível e fugir dos milhões de Nãos que chegam até nós. À medida que os nossos desejos, escolhas e decisões se vão desenhando, tornamo-nos especialistas em reprimir o que sentimos e queremos para nos conformarmos com a vontade ou o interesse dos que nos rodeiam. Nas nossas famílias aprendemos a pagar caro o amor que esperamos receber e a cobrar igualmente muito pelo amor que lhes devolvemos. A violência física e/ou psicológica força-nos a sucumbir aos ditames da educação que recebemos, ainda que ela não contemple o respeito por quem somos e do caminho que precisamos pisar. Os nossos educadores oferecem o seu melhor, tal como o concebem. A sua fonte de inspiração vem da educação que receberam, quer por colagem, quer por oposição. Quando nos tornamos pais, educamos os nossos filhos tal como nos sentimos ao ser educados. Racionalmente, achamos que descobrimos novas formas de educar, mas emocionalmente, ainda continuamos presos às memórias das experiências que nos marcaram.

Quem foi educado numa cultura de Nãos, tem tendência a viver a vida numa luta feroz para vencer obstáculos e dificuldades, pois foi assim que foi treinando a sua mente, ao longo dos anos de formação da sua personalidade.

Ironicamente aqueles que foram educados numa cultura de Sins, reagem, muitas vezes, negativamente ao SIM e procuram o NÃO mais vezes do que seria de imaginar. O que parece ser um paradoxo desconcertante é o facto de nenhum dos lados SIM ou NÃO ser elemento de equilíbrio na mentalidade humana. A ausência de obstáculos ou dificuldades pode incomodar tanto ou mais do que a sua existência.

Viver em tempos de mudança

Estamos a atravessar um período de grande mudança nas estruturas de pensamento que nos têm assistido e sustentado o mundo em que vivemos. Os desafios da dualidade estão a vir ao de cima. Vamos aprendendo a olhar para nós e para o significado que damos ao que vemos e pensamos sob um terceiro ponto de vista unificador e redentor da turbulência que os opostos nos oferecem. No Fluir da Vida o SIM é o único movimento que existe, mas antes que ele possa ser vivido em verdadeira harmonia e equilíbrio é preciso que o ping pong do SIM/NÃO se desfaça na nossa consciência. Quando o NÃO for desafiado na nossa mente e tornado impotente, deixaremos de ser ‘obedientes’ ou ‘revoltados’. Quando o SIM perder a ponte para o NÃO e viver por si mesmo, abandonaremos o medo de precisar de aprovação e reconhecimento e assumiremos quem somos. A quantidade de repressão que vive em nós é imensa. Obrigados a gerir cada momento de acordo com o interesse ou necessidade de alguém, criámos mecanismos de adaptação às exigências externas, soterrando milhares de frustrações, medos, angustias, raivas e dores que se vão manifestando, pela calada, através do nosso corpo ou das circunstâncias de vida. Submetemo-nos a uma enorme carga limitadora iludidos com a ideia de que receberemos a contrapartida que tanto desejamos. O sacrifício que fazemos raramente é compensador. Abrir mão de quem somos em favor da atenção de alguém pode levar-nos muito mais cedo ao hospital ou mesmo ao cemitério, pois a dor de desilusão é maior do que a breve compensação que poderemos receber quando, temporariamente, alguém nos embala as necessidades ou os medos. Caminhamos para um mundo onde a mentira e as ilusões de vivermos num abismo emocional não consciente não têm lugar para existir. Desmanchar as crenças sobre pontos de vista que apenas camuflam a verdade do que se passa nos bastidores da nossa mente/corpo é cada vez mais urgente e essencial para resgatar o imenso potencial que aguarda ser despertado dentro de todo o ser humano. Deixaremos de ser ‘seguidores’ compulsivos de ‘gurus’ e seres ‘especiais’ para passarmos a ser deuses de pleno direito, num mundo onde o mais e o menos, o sim e o não, o acima ou abaixo deixarão de separar-nos da vida e dos outros e passarão a ser um reflexo de um mesmo PODER que se expressa na forma, mas não se reduz a ela.

  • A quantos hábitos, compulsões, crenças, medos e necessidades estamos nós submetidos?
  • A quantas fórmulas rápidas de sucesso ou saúde estamos obrigados?
  • A quem ou a que é que obedecemos cegamente, só porque lhes damos mais PODER sobre nós do que a nós mesmos?

Estamos tão habituados a ser ‘seguidores’ que perdemos o hábito de dizer SIM a quem somos e NÃO a quem quer gerir a nossa vida! A dependência emocional pode levar-nos a esvaziar a alma e a viver para servir uma miragem de falso encantamento por algo ou alguém… As crianças de outrora continuam aprisionadas aos medos e às raivas que não permitiram que elas explorassem as possibilidades que borbulhavam dentro delas. Ainda hoje são o testemunho vivo dessa castração e continuam a lutar por tudo menos por si mesmas. Valerá a pena?