Somos todos afectados pela violência e o sofrimento que acontece a todo o momento em todo o mundo e ao qual assistimos como que sentados na primeira fila. A evolução tecnológica coloca-nos quase que na cena em si… e tudo fica mais perto. Cenas de violência e de guerra, de injustiças várias, são captadas pelas câmaras de televisão e transmitidas ao segundo, deixando-nos no papel de actores passivos, espectadores/figurantes das cenas mais terríveis e abomináveis… e no entanto, o sofrimento está longe, é-nos presente, mas é-nos alheio à pele. E se a todos nos toca, toca-nos de diferentes formas.

 

O caudal de misérias, injustiças, barbáries, cada vez mais aumentado, continua a impressionar pelo seu crescimento exponencial. A consequente sensação de impotência leva a um desgosto contido que mina dia adia o coração e a consequente fé na raça humana. Outros há que olham para o lado, negando o que vêem para se resguardarem da dor alheia feita sua. E há quem até consiga esconder-se atrás da máscara de pedra da suposta indiferença, pois congelar as emoções é outra opção defensiva, que nos endurece face ao sofrimento alheio. Qualquer uma destas atitudes é uma defesa contra o sofrimento psico-emocional.

Além disso, é interessante notar que os media não tratam as desgraças mundiais com igual atenção, parecendo existir uma certa hierarquia de notícias que corresponde a uma hierarquia mais alargada ao nível das relações de poder e que reflecte o facto histórico de que alguns lugares e alguns seres humanos merecem mais tempo de notícia, mais atenção. Daí que as notícias sejam eventualmente sujeitas a um processo de selecção que define quais os sofrimentos mundiais que nos interessam como espectadores ocidentais.

 

Há a dor… e há o sofrimento

Utilizam-se muitas vezes a ‘dor’ e o ‘sofrimento’ como sinónimos, mas na realidade, são coisas diferentes. A ‘dor’ é uma emoção ou uma vivência negativa, que surge na sequência de um determinado acontecimento que nos afectou negativamente… dor é a tristeza ou a raiva… a angústia ou o sentimento de rejeição ou perda… a dor é formada por uma emoção associada a uma situação que necessita ser avaliada ou resolvida.

O sofrimento vai mais além… o sofrimento é o prolongamento dessa dor emocional, para lá dos limites, diria, razoáveis. O sofrimento é alimentado e cresce à custa de pensamentos ruminativos e erróneos, bem como de emoções negativas recorrentes, que aumentam a dor anterior, em termos da sua intensidade e duração… é um prolongamento (desnecessário) da dor, que torna esta desproporcionada. A má notícia é que o sofrimento nos corrói com o tempoa boa notícia é que, estando atentos às nossas emoções e aos nossos velhos e automatizados hábitos de resposta, o podemos aprender a evitar.

Face às notícias que nos colocam face a face com o terrível sofrimento de terceiros, o sentimento predominante é de impotência e de não ter controlo sobre os acontecimentos, pesem embora as emoções que nos avassalam: tristeza e compaixão. A dor deverá ser sempre elaborada e transcendida e, para isso, existem os processos de luto, com os seus diferentes tempos de elaboração psicológica. Para isso temos que ter em atenção duas componentes: a nossa atitude face à dor e o significado que lhe damos.

Voltando ao sofrimento de outros, que os órgãos de comunicação cruamente nos desvelam, se estiver nas nossas mãos poder fazer algo, passar à ação é uma opção importante para o próprio e para quem poderá vir a beneficiar desse gesto.

O modo de reacção à dor depende de diversos factores, tais como: a nossa estrutura de personalidade, a nossa fortaleza afectiva, o nosso estado emocional e físico, as distintas experiências do passado (sobretudo durante a infância), as nossas crenças e o significado pessoal que damos à dor. A isto acrescento a nossa capacidade para reconhecer, aceitar e expressar as nossas emoções.

 

Dor pessoal… dor mundial

Curiosamente, muito do nosso sofrimento é auto-infligido, decorrente de não aceitar as coisas como são, não advindo da situação em si mesma, mas da forma como a interpretamos. Somos, em última análise, quem cria o nosso próprio sofrimento, e apenas nós podemos dizer ‘basta!’. Os ensinamentos de todos os grandes sistemas religiosos visam, em última análise, o fim desse sofrimento… um pouco como ‘encontrar o reino dos céus no aqui e agora’. Começar a paz e caminhar na direcção do fim do sofrimento, passa por nós e pelos nossos sistemas familiar, laboral e social, e esse aparente ‘tão pouco’, comparado com os sofrimentos que há no mundo, é o tanto que nos podemos pedir e, acreditem, um tremendo de um desafio, mas que está seguramente ao nosso alcance.

Além do sofrimento pessoal, há o sofrimento mundial, decorrente de injustiças várias… ser humanos que provocam dores sem fim a outros seres humanos e catástrofes naturais que destroem vidas em instantes imprevisíveis. O mundo em que vivemos apenas parece enlouquecido na medida em que nele vive a loucura… lado a lado com a sanidade mental. Um mundo onde é mais vendável mostrar desastres ecológicos e desgraças alheias, do que divulgar ações em prol do bem comum. Um mundo onde o poder, a corrupção e o dinheiro são reis… e a amizade, a honestidade, os sentimentos, a liberdade e a verdade parecem perder em cotação. Um mundo regido pelo Ter em vez do Ser.

O mundo é assim, feitos de sombras e de luzes. Cabe-nos empreender um caminho pessoal onde prevaleça o bom senso, o respeito e a compaixão.

 

Os media e a aversão à dor

Outras imagens publicitárias há que nos rodeiam e que nos mostram o ‘outro lado’: o lado do prazer e da felicidade à distância de uma qualquer compra num centro comercial e que, ao mesmo tempo, favorecem o lado da aversão à dor, como se esta não fizesse parte da vida. Muitos são os males da vida que são inevitáveis, como as doenças graves e a morte, sem que esteja nas nossas mãos evitar as mesmas.

Ciente disto, o Homem desde tempos imemoriáveis que tenta amenizar este facto. Diversas correntes de pensamento, como o estoicismo e o budismo, concordam na necessidade inevitável de aceitação das circunstâncias adversas da vida e da dor subsequente. O acto de ‘aceitar’ passa a ser sinónimo de mudança, inclusive se é uma aceitação dolorosa, porque aceitar faz parte da vida. Porém, aceitarnão como um acto passivo ou de mera resignação, mas como a aceitação de algo inevitável, que não pode ser mudado, resguardando-se a energia pessoal para a investigação daquilo que pode vir a ser mudado ou transformado.

Aristóteles e os filósofos estóicos dividiam os problemas em dois: aqueles que estão no nosso poder resolver e os que não estão no nosso poder reverter. Relativamente a estes últimos, tratava-se de nos treinarmos para sofrer o menos possível, através da aceitação do inevitável, ao que acrescento a necessidade de se dar espaço para um eventual processo de luto.

Zen Out 2014 24-25

Artigo publicado na Zen Energy Nº 69 (edição de Outubro de 2014)

Apesar de que há inúmeras coisas que não dependem de nós, não nos devemos esquecer que temos algo em nosso poder: a forma de reagir face ao que nos acontece – essa, será sempre escolha nossa. Como aceitar a dor? Bem, do mesmo modo como se fala, se caminha, se constrói uma casa, conduz um automóvel ou se maneja um computador: aprendendo. E depois de aprender: treinar. E depois de treinar: ensinar.

 

O sofrimento como mestre

O sofrimento como ‘grande mestre’, tem como missão única fazer-nos dar conta de que ‘já chega’, que já é altura de sairmos desse círculo vicioso de perpetuação da dor! E apenas a vivência do sofrimento nos pode levar a este ensinamento. Que curioso paradoxo! O sofrimento como professor e libertador, caso o saibamos olhar e ver, interpretar e elaborar.

Darmo-nos conta de que chega de sofrimento e de que é tempo de começar o processo de cura da dor inicial, é como dar um salto quântico em termos da expansão da nossa consciência, rumo ao final do sofrimento auto-infligido. Relembremo-nos que muitas vezes são os nossos próprios pensamentos que nos fazem sofrer, esses produtos da mente na forma de imaginação, essa ‘louca da casa’ como lhe chamava Santa Teresa d´Ávila.

 

O medo e a sua libertação

Para nos podermos libertar da emoção do medo que é causa e/ou decorre da dor e do sofrimento, devemos primeiro tomar consciência do mesmo, no aqui e agora, não o negando. O medo é uma emoção fortíssima, muitas vezes com carácter de adaptação, pelo que não deve ser negada, reprimida ou escondida. Devemos respirar o medo, ou seja, senti-lo, reconhecê-lo, compreendê-lo e abraçá-lo. Interessa que o aceitemos, mas sem nos identificarmos com o mesmo, pois: ‘não somos esse medo’. A desidentificação com o medo é importante e passa por aprendermos a dizer: «Este corpo está a experimentar uma emoção de medo… olá medo, sei que estás aí, não te preocupes, vou dar-te todo o meu amor consciente».

A emoção de medo vem do nosso instinto de sobrevivência, da nossa criança interior, enfim, de partes nossas mais frágeis que pedem atenção. Abraçar o nosso medo é agirmos como a mãe que pega ao colo o seu filho assustado, reconfortando-o. Este acto ‘psicomágico’ permite uma transformação energética: o poder do amor e da aceitação podem ajudar a diminuir ou mesmo fazer desaparecer o medo. É sair de um plano mental de conjecturas racionais, para um plano de amor universal… mais próximo da nossa luz essencial.

A divulgação de imagens dolorosas pode actuar como uma abertura de consciência e de compaixão… porém, o excesso das mesmas pode levar à dessensibilização emocional. Os meios de comunicação estão, muitas vezes, programados para gerar colectivamente este tipo de emoções carregadas de negatividade, apenas mostrando a sombra da Humanidade. O que por vezes se torna numa verdadeira manipulação colectiva de massas, tão distante da veiculação de uma informação justa, equilibrada e nutritiva para a mente colectiva humana. A beleza, a doçura, as maravilhosas formas da Natureza e da existência humana não ‘vendem’ jornais, nem aumentam as audiências de programas de televisão… curiosa a mente humana!

Sinto que a responsabilidade é de todos e de cada um de nós… façamos, então, o que nos cabe!