Os pais que somos e os que queremos ser

quilo que somos e o modo como exercemos a nossa Parentalidade é fruto de padrões de comportamento e de crenças transmitidos de geração em geração. O “tradicional” estilo de Parentalidade que prevalecia no passado baseava-se numa relação autoritária, hierárquica, punitiva, assente muitas vezes no medo e na ideia de que o papel de pais estava perfeitamente definido e aos filhos não restava nada mais que obedecer. Um estilo de Parentalidade com resultados imediatos, beneficiando os pais, mas com poucos benefícios para a criança e, sem dúvida, prejudicando
a relação pais-filhos. Alguns anos depois, observámos uma transição para o extremo oposto passando da autoridade a uma passividade em que (quase) tudo era aceite e onde os limites e as regras eram pouco definidos. Também ela uma Parentalidade inconsciente, com resultados desastrosos para muitas crianças.

Os Pilares da Parentalidade Consciente

Atualmente, as crianças são claramente diferentes das crianças das gerações anteriores. O contexto em que vivem é abismalmente diferente do ambiente familiar e social em que viviam há uns anos atrás. Essa nova realidade obriga-nos a questionar e a agir de modo diferente enquanto pais, se queremos que os nossos filhos vivam numa sociedade melhor do que aquela que temos.

A prática de uma Parentalidade mais consciente é um processo de aprendizagem, que permite reforçar a conexão entre pais e filhos, fomentando o desenvolvimento de adultos saudáveis, felizes, com autoestima e respeito pelos outros.

A base fundamental da Parentalidade Consciente é o amor incondicional.
E para amarmos incondicionalmente o nosso filho, temos de ser capazes de o ver tal como ele é – não pelos seus comportamentos, pelo que faz ou diz, mas pela sua essência. E isso implica abandonar expectativas, julgamentos
e determinadas crenças. Esta capacidade de olhar para o que temos em comum (a nossa humanidade) e para a nossa essência (o que somos, para além do que temos e fazemos) é a base das relações humanas e da construção de uma sociedade mais pacífica. É também ela a base de uma forte conexão entre pais e filhos.

Outro dos princípios fundamentais da prática da Parentalidade Consciente  é o igual valor. E isto não significa que  o nosso filho possa fazer tudo aquilo que quer. Significa apenas que não é por ele ser mais novo que os seus pensamentos, sentimentos, necessidades e emoções não têm importância. Quantas vezes impedimos as crianças de expressarem aquilo que sentem, pensam ou desejam e depois queixamo-nos que enquanto jovens adultos são influenciáveis, com pouca autoestima e sem expressão?
O reconhecer e respeitar os nossos próprios sentimentos, emoções e limites não é um ato de puro egoísmo. É a base fundamental para sabermos respeitar os dos outros.

Numa Parentalidade Consciente é fundamental olharmos para além do comportamento que o nosso filho está a ter. A maior parte dos métodos pedagógicos são comportamentalistas, mas sabemos que o comportamento é apenas o topo do iceberg. Quando eliminamos um comportamento sem tratar a causa, outro comportamento habitualmente surge. Se queremos fazer uma real mudança, devemos perceber as razões desse comportamento, as necessidades que estão na sua base.

Gostaria de ser melhor pai/mãe?

Naturalmente, as crianças querem satisfazer os pais e conectar-se com eles (mesmo que às vezes não pareça!). Uma criança sente dificuldade em autorregular-se sozinha  e muitas vezes exprime as suas emoções  e sentimentos através de comportamentos mais intempestivos ou desajustados, o que não implica que aceitemos esses comportamentos! Mas podemos validar os seus sentimentos e ajudá-la a voltar a um estado de calma, para mais tarde conseguir fazê-lo sozinha.

Uma criança, como qualquer outra pessoa, possui a capacidade de nos cansar, stressar e irritar. Mas o modo como reagimos  a estes comportamentos diz mais sobre nós do que sobre elas. Mostra como estamos,  o que sentimos, o nosso cansaço e as nossas frustrações. Aproveitar estas oportunidades para refletirmos sobre as nossas próprias necessidades, emoções e limites, e sobre como estamos a vivê-los ou a exprimi-los é, sem dúvida, um convite diário à aprendizagem.

Podemos ser os pais que já somos ou termos a intenção de querer ser mais. E isso não nos torna menos autênticos. Pelo contrário, se tivermos uma maior consciência do que dizemos e fazemos na nossa prática de Parentalidade, isso ajudar-nos-á a agir mais  de acordo com a nossa própria intuição e  intenção, e menos segundo as crenças incutidas ou as expectativas dos outros. E este é um processo gratificante para pais e filhos.

Futuros adultos saudáveis

• Elogio o meu filho apenas quando ele tem excelentes notas?

• Ignoro-o quando se está a portar mal?

• Queixo-me do comportamento dele em frente a outras pessoas?

• Não lhe presto atenção quando quer mostrar-me
algo importante para ele?

• Recuso que ele se vista da forma de que gosta?

• Recuso que se comporte de modo diferente das
minhas expectativas?

Posso fazer tudo isto, mas sei que o amo. No entanto, será que aquilo que ele sente é amor incondicional? Para que se tornem adultos saudáveis, as crianças precisam de ser vistas e reconhecidas por aquilo que são no seu nível mais profundo. Não é isso, afinal, que nós adultos também precisamos?

Vanda de Sousa
Farmacêutica, Formadora, Artesã,
Facilitadora Certificada pela Academia de Parentalidade Consciente
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