Quando a conversa se porporciona, todas as mulheres que foram mães contam como foi o seu parto, um ano, 10 anos ou 20 anos depois. Não importa quando ocorreu, importa sim, como experienciou. Por norma, estas conversas revelam dor, desconforto e sofrimento.

 

A nossa sociedade criou e espalhou a crença de que ter filhos é algo doloroso e até temido. As crianças, mais tarde, mulheres, crescem a ouvir histórias de partos complicados, dolorosos e demorados.

Existem culturas em que o parto é visto como um acontecimento natural na vida de uma mulher, em que outras mulheres estão presentes e auxiliam de forma calma e tranquila, demonstrando naturalidade e deixando o corpo da mulher desempenhar o seu papel. Nestas culturas, muitas vezes, as crianças estão presentes. Este acontecimento é visto de uma forma positiva e cria nas crianças uma naturalidade em relação ao parto que se reflete na forma como mais tarde passam por essa experiência.

Apesar da cultura onde nos inserimos, todas as mulheres são diferentes, consequentemente, todos os partos são diferentes. Dependendo da mulher em questão, da visão que tem da vida, da perceção que tem da dor e como contextualiza essa dor, as histórias que foi ouvindo ao longo da vida e como ficaram mentalmente gravadas no seu inconsciente, estas vivências, podem beneficiar, ou não, o processo do parto.

 

O 3 ‘inimigos’ de uma grávida

Os 3 grandes ‘inimigos’ da mulher grávida são: o medo, a tensão e a dor.

O medo associado ao parto causa tensão e o corpo da mulher em tensão causa dor, e a dor gera medo. Este ciclo afeta de forma evidente todo o trabalho de parto a vários níveis. O bebé é afetado pelo stress da mãe. A mulher mais ansiosa não permite a passagem de oxigénio tão fluentemente para o bebé, através do cordão umbilical, os músculos contraem e criam resistência, atrasando e, por vezes, impedindo que o parto evolua.

 

A hipnose na gravidez

Cada vez mais, as mulheres procuram alternativas a partos excessivamente clínicos com formato único, disciplinados e técnicos. Nestes partos, o conceito é acelerar o processo de nascimento, retirar a dor à mulher o mais depressa possível para que esta esteja controlada e não muito ativa, provocando o parto com medicação, intervenções, técnicas ou cirúrgicas.

A equipa que a acompanha, ao estar presente em todo o processo, deve ajudar a mulher a compreender o que se está a passar no seu corpo, sem intervir de forma clínica se não se justificar, sabendo e transmitindo que o corpo da mulher tem capacidade de proporcionar um parto de forma natural ao seu ritmo e ao do bebé.

No parto sob hipnose, a mulher vivencia o nascimento do seu bebé de uma forma ativa e participativa, não sendo apenas uma observadora. Ao estar calma e tranquila, o parto flui naturalmente e, muitas vezes, [espaço a mais] crenças negativas transformam-se numa experiência positiva.

A hipnose tem um papel extraordinário durante a gravidez, no parto e no pós-parto.

Durante a gravidez, a hipnose pode ajudar no controlo do peso, vómitos e insónias, trabalhando também as expectativas, a ansiedade, aumentando a confiança e o autocontrolo.

No trabalho de parto, vários estudos demonstram que tanto a mulher como o bebé são beneficiados em vários aspetos, entre os quais, menor duração do parto, músculos mais relaxados, menos ansiedade, redução ou inexistência de medicação, intervenção médica e circúrgica, índice de APGAR (avalia o nível de adaptação do bebé à vida fora do útero) mais altos, bebés mais ativos após o nascimento e mais calmos, pós-parto menos doloroso, ausência ou menor número de depressão pós-parto, entre outros.

No pós-parto, redução ou ausência de depressão e amamentação mais facilitada.

 

As sessões

As sessões de preparação para o parto sob hipnose têm como objetivo um parto e pós-parto o mais positivo, calmo e confortável possível.

A grávida e o seu parceiro de parto (que pode ser o companheiro, a sua mãe ou uma amiga) aprendem, entre outras técnicas, a utilizar a hipnose, a visualização, o relaxamento e a respiração durante o parto.

A mulher aprende a confiar no seu corpo e a gerir o seu desconforto. Durante o parto sob hipnose apercebe-se mais facilmente do que se passa à sua volta, das questões que se apresentam, participando ativamente de um modo consciente e não por impulso. Toda a equipa colaborará mais facilmente com uma mulher calma do que com uma mulher descontrolada.

Ao sentir-se mais confiante, sente-se mais preparada e, assim, mais predisposta a sentir o processo de uma forma mais positiva. Estudos demonstram que mulheres que utilizam hipnose no parto, não usam fármacos ou sentem menos necessidade. A epidural, anestesia tão utilizada nos hospitais portugueses, pode causar alguns efeitos adversos, tanto na mãe como no bebé, entre eles, parto vaginal operatório e baixo índice de APGAR aos 5 minutos. De qualquer modo, a hipnose não é contraindicada com o uso de medicação.

Temas abordados durante as sessões

Durante as sessões serão abordados temas como a gestão da dor/gestão de desconforto, pois, a dor, além de ter um componente sensorial tem também um componente emocional; preparação mental; ansiedade, uma mulher ansiosa não vai deixar o parto fluir de forma natural, criando tensão no corpo e nos músculos, de forma a abrandar ou, mesmo, parar a evolução do parto; respiração e relaxamento, o quanto auxilia o processo; respiração diafragmática; criação de âncoras, entre outros.

 

Quando começar as sessões de hipnose

Deve começar as sessões de parto sob hipnose a partir das 20 semanas. Caso sinta grande ansiedade ou medo exagerado (tocofobia) deve começar as sessões por volta das 12 semanas de gestação.

As sessões poderão ser em grupo ou individuais, com duração de 60 ou 90 minutos. Serão entregues gravações das sessões com técnicas de relaxamento e visualização para praticar em casa.

É importante que o hipnoterapeuta tenha uma formação em parto sob hipnose. No site da AHCP – Associação de Hipnose Clínica de Portugal, encontrará hipnoterapeutas formados em todo o país.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº79 (edição de Agosto de 2015)