Em Estava morto mas não estou, o autor partilha a sua própria história. Uma história marcada, desde cedo, por sucessivas contrariedades e que poderiam ter feito com que Pedro baixasse os braços. Mas aconteceu precisamente o oposto. Pedro não desistiu nunca de si mesmo, e a mensagem que transmite ao partilhar o que lhe aconteceu é poderosa e um incentivo para sorrirmos todos os dias. ——————————————————– O seu livro conta uma história real – a sua história. Sofreu um grave acidente, ficou com 70% de incapacidade e três hemorragias cerebrais. O que se sente quando pensamos que a morte poderá chegar a qualquer momento? Um desespero e um medo incontrolável! É neste tipo de situação que pensamos, sobretudo, em tudo aquilo que não fizemos e deveríamos ter feito, no que não dissemos e deveríamos ter dito? Sim, quando começamos a ficar conscientes e a recuperar. Após refletirmos sobre o passado e o agora, verificámos que não gerimos bem o nosso percurso. A vida pode de facto mudar quando estamos no sítio errado à hora errada? Ou será que não há nada de errado aqui e trata-se apenas da vida a chamar a nossa atenção? Grande questão. Para mim, ambas têm muito fundamento. Embora acredite plenamente que a vida nos chama à atenção de várias formas quando começamos a trilhar o nosso caminho de forma errada. São os chamados alertas da providência. O que fazemos quando a vida nos concede uma segunda oportunidade para vivermos melhor e mais felizes, alterando comportamentos e atitudes que possam colocar-nos no caminho certo? Sem sombra de dúvida que, quando a vida nos concede uma segunda oportunidade, temos de reformular toda a nossa forma de ser e estar. O que é mais difícil: ir ao fundo ou voltar à tona? Esteve em ambas as situações… É verdade. O mais difícil é voltar à tona! Aceitação e resiliência para podermos regressar o melhor que conseguirmos, e isto pode demorar anos. Ir ao fundo demora segundos! É nas alturas mais difíceis que vemos com quem podemos realmente contar? Sim, claro. Quando caímos “no buraco” e demoramos muito tempo a sair, por norma, as pessoas afastam-se ou vão-se afastando. Familiares mais próximos e um ou outro amigo são os que se mantêm fiéis. Como lidar com possíveis desilusões? Inicialmente, é um choque profundo ver que fomos abandonados por pessoas que julgámos que estariam sempre ao nosso lado quando mais precisássemos. Existe uma ou outra exceção de pessoas que se afastam pelo simples facto de não conseguirem enfrentar a situação do amigo ou familiar. Mas são casos residuais! Como foi feito o regresso à normalidade? Precisei de voltar a acreditar em mim, precisei de muita resiliência e de fazer o processo de aceitação. Ao regressar ao trabalho, sofreu bullying laboral. Acha possível contornar a insensibilidade, falta de respeito e indiferença com que lidava diariamente ou esta é sempre uma luta perdida? Não existe forma de contornar, uma vez que é um objetivo da entidade empregadora. Na minha opinião, praticado pelo lado mais perigoso. Quanto mais tempo lutamos contra uma causa perdida, mais próximos estaremos de perder a sanidade mental. Podemos ser levados a cometer um ato de loucura, o que infelizmente foi o que esteve muito perto de acontecer comigo! No meu caso seria muito fácil. Diziam: “Decorreram três anos de ausência forçada, existindo muitas mudanças nesse espaço de tempo. Não contamos consigo para o atual projeto.” Ficava muito triste, mas aceitava. Pagavam-me os valores devidos e mandavam-me embora. Não da forma como foi feito, para não pagarem alguns milhares. Foi um choque enorme para mim! Existe um processo de aceitação possível de se fazer relativamente ao que de mau nos acontece ou a revolta, angústia e incompreensão estarão sempre em primeiro lugar? Não existem processos de aceitação possíveis. O processo de aceitação existe apenas para nos libertarmos. Perdoar, aceitar a nossa condição física ou mental, excluir o passado porque passou. Enquanto não estivermos neste patamar, “viveremos eternamente aprisionados ao passado, algo que já não podemos mudar”. Revoltas, angústias e incompreensões, nem se pode equacionar, porque trava-nos a readaptação. Que papel exerceram as pessoas que lhe são mais próximas num processo de reabilitação física e emocional como a que viveu? Foram os meus pilares. Nunca desistiram de mim, incentivando-me sempre para que eu conseguisse seguir em frente. Não desfazendo ninguém, mas houve três pessoas que tiveram um maior impacto: a psicóloga clínica, Dra. Sónia Simões; a minha mulher, Luísa; e a minha filha, Sara. Quem é o Pedro agora, quase nove anos depois de um acidente que poderia ter-lhe custado a vida? Um ser humano que procura ter sempre uma presença muito mindful no seu dia-a-dia. Um ser humano com os horizontes muito mais abertos e muito mais presente familiarmente. Independentemente das sequelas que ficaram, gosto de mim como sou. Não posso correr, mas posso andar. Não posso ajoelhar-me, mas posso sentar-me. Não escrevo uma carta em dez minutos, mas escrevo em 40 minutos. Demoro mais tempo, mas também consigo! Ter uma segunda oportunidade de viver é uma grande vitória. Que mensagem gostaria de transmitir a quem passou por uma situação semelhante à sua? Devemos acreditar em nós e não devemos desistir nunca. Temos de aceitar para não vivermos eternamente aprisionados no passado.