Um dos maiores e mais penosos exercícios do ser humano é pensar. Dizem que a melhor forma de eliminar um mau pensamento é simplesmente não pensar, ou dizer não amiúde até que esse pensamento nos largue a porta, o que é algo que, como todos já sabemos, só poucos até agora conseguiram fazer. Será que conseguiram?

 

Não indo mais longe do que isto, por enquanto, decidi começar esta crónica pelo pensamento, porque quero falar de experiência. Uma boa experiência ajuda-nos a evitar um pensamento desviante e ou/paralisante, ou seja, ajuda-nos a saber seguir em frente. Talvez seja esse um dos maiores males do (mau) pensamento. Ter a experiência evita sucessivos pensamentos (patéticos) que apenas nos levam ao caos e à falta de decisão. Podemos poupar muito tempo quando sabemos o que é melhor para nós. Mas, só sabemos o que é melhor para nós quando paramos de ‘fazer filmes’, vulgo quando esses ininterruptos pensamentos (patéticos) nos baralham o sistema. Não pensar é também pensar. Ausência de pensamento (patético, note-se) é colocar a mente a um nível mais elevado. Quando chegamos lá, à não patetice, uma só frase basta – por vezes, uma só palavra é suficiente – para responder ao nosso ‘pedido de socorro’. Não quero com isto dizer que não devemos reflectir (que é um pouco mais do que pensar) em casos mais sérios da vida. Eu próprio não estaria aqui a escrever sobre este assunto se não me dedicasse a pensá-lo. Mas, talvez precise de menos tempo para aquilo que vou pensar se o assunto já uma experiência adquirida, isto é, começo a usar menos condimentos (situações complicadas) para as mesmas receitas (aprendizagens). E a comida sabe igual, ou até melhor.

O ‘conselho’ mais prático que dou a mim mesmo é procurar aliar pensamento/reflexão à minha prática, o mais possível, e de preferência com a maior celeridade (tempo a mais cria espaço; espaço a mais cria dúvida). Quanto menor o interregno maior a viabilidade de assimilar as melhores ideias. Consequentemente, a realidade que está à nossa frente torna-se cada vez mais clara e completa e sem as amarras dos ‘pensamentos lixo’ – numa linguagem técnica ‘pensamentos spam’ – momentos que podemos traduzir por percepções distorcidas pela memória, ou apagadas pelo tempo e misturadas por inúmeras emoções. Esse interregno, curto, nem sempre é possível, principalmente em situações imprevistas e dolorosas que nos apanham de surpresa e nos deixam sem chão. Não há receitas nem fórmulas, já todos sabemos. Nestes casos, apenas podemos ser cientistas de nós mesmos. O que é isso? Tal como um cientista, temos de observar o que nos acontece e ver as nossas reacções naquele preciso momento. E é aí que a experiência entra e nos permite ver a vida como um laboratório. Quando uma (má) situação acontece abruptamente, temos de ser os melhores anfitriões. E então, de forma diplomática, teremos de saber receber os convidados (acontecimentos) mesmo quando estes surgem sem nos comunicar. Esse é o segredo universal que descodifica qualquer confusão da nossa mente. É, portanto,a chave que abre qualquer porta a quaisquer convidados, desejados ou programados, mal-intencionados ou inofensivos, ‘penetras’ ou não. Este é, para mim, o melhor pensamento para seguirmos em frente. E o melhor pensamento é aquele que permite ter as respostas mais rápidas e sem grandes intervalos.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº71 (edição de Dezembro de 2014)