O camião de mudanças parou junto ao portão, logo atrás do carro de Rita, que tinha vindo a indicar o caminho. A casa, graciosa vivenda de dois andares, qual ventre vazio, esperava tranquilamente que a vida a enchesse. Ao abrir o portão, Rita sentia que esse gesto simples tinha o significado profundo de iniciar uma nova fase na sua existência.

 

Atrás dela, impacientes, Gaby e Raf, ela de 15 anos e ele de 13. Então, mãe, não entras? Rita voltou-se para trás e sorriu-lhes. Raf segurava Toby, o inseparável cão. Então mãe, estás à espera de quê? Sim, todos esperavam este momento, um ponto de inflexão nas suas vidas, como naqueles gráficos matemáticos em que a curva mudava de um sentido descendente para um ascendente. Este era um momento verdadeiramente importante e Rita quis usufruir dele, esgotando-o até ao limite. Olhou para o camião de mudanças que carregava todo um passado, ainda ali à espera, imóvel e pesado. A casa e o pequeno jardim que a rodeava, simbolizavam o futuro que iriam construir em conjunto os três, agora que o 4º elemento tinha decidido abandonar o percurso. Parecia-lhe ter duas faces, como o deus Janus que preside ao mês de janeiro, olhando o passado com uma face e com a outra o futuro. Aquele simples gesto de abrir o portão era simbolicamente arrasador, pois unia duas fases da vida e simultaneamente separava-as, para que melhor se distinguissem. Olhou a chave na sua mão e pensou que o importante é ter a chave certa para integrar o passado e o futuro em cada momento da vida presente.

 

Mal tinham acabado de entrar no jardim, houve movimento na casa vizinha, uma vivenda semelhante, exceto na cor das paredes e no facto de ter o sótão levantado. Desse lado, o jardim estava cuidado e havia plantas junto do muro que separava os dois jardins, enquanto do lado em que iriam habitar só havia terra e plantas selvagens. Uma janela abriu-se na zona do sótão fechando-se quase logo a seguir, apenas se percebendo um vulto espreitando fugidiamente.

Rita acenou para o camião de mudanças, indicando que podiam começar a descarregar. De repente, uma porta bateu na casa ao lado. Um homem de fato de treino saiu do jardim vizinho dirigindo-se em passos rápidos a um jeep estacionado na rua, olhando em frente como se não quisesse ver mais nada senão um ponto longínquo no futuro, ignorando os novos vizinhos, que todavia o olharam. De repente, Rita viu-o vestido de forma estranha, com um fato dum nobre ou burguês endinheirado do séc. XVI, umas mangas de balão, um chapéu estilo boina com uma pena comprida. Esta visão foi instantânea e rapidamente se desvaneceu, deixando-a atónita, pois tal coisa nunca lhe tinha acontecido. Como psicóloga e terapeuta regressiva ouvia muitas histórias dos seus pacientes que descreviam culturas perdidas, modos de vestir esquecidos e épocas longínquas. Apenas nas regressões que tinha feito durante o curso e nas que Bianca, a sua supervisora, lhe conduzia regularmente, vira coisas semelhantes à visão que acabara de ter. Mas assim, vinda do nada, ou melhor, vinda talvez de profundas e obscuras memórias armazenadas, aquela visão era altamente perturbadora e intrigante. Quando se refez da surpresa, já o vizinho arrancara ruidosamente com o seu jeep.

 

Gabriela

Dormimos a primeira noite na casa nova. Dormi bem, apesar da confusão, talvez porque estivesse muito cansada. Preocupa-me o vizinho, foi tão antipático quando passou por nós e quando à noite pôs a música tão alto. Nem acreditava quando a mãe disse que era o Coro dos Ciganos de uma ópera qualquer. Vejo ali uma intenção de ofender, um segundo sentido que mostra arrogância. Acho que vamos ter problemas com ele. Mas não quero pensar muito nisto, agora temos de instalar-nos. O pai continua sem dar notícias e já deixei de preocupar-me com isso. Ele está envergonhado, quero acreditar que estará, depois do que fez. Não quero falar com ele. O Raf vai de certeza perdoar-lhe facilmente. A mim, há-de pedir perdão muitas e muitas vezes até eu lhe perdoar! E a mãe, certamente ainda não se refez de tudo o que passou…

Agora já consigo pensar nisso, naqueles dias confusos em que o pai e a mãe discutiam todo o tempo, ninguém nos dava atenção, o Toby era o único que nos ligava. Quando finalmente o pai saiu de casa, foi um alívio! Eu fui logo tirar as fotografias dele de todo o lado, a mãe e o Raf protestavam, mas eles são uns corações moles. Eu não. Tirei-as todas e nessa altura percebi que ele estava por todo o sítio na casa, parece que estava sempre a descobrir mais um lugar onde havia uma fotografia ou um objeto que fazia recordá-lo. O Raf vai de certeza querer uma foto dele no quarto, eu sei que ele guarda fotos do pai às escondidas. Ele precisa de uma referência do pai, eu não! Gosto desta casa, é vida nova para nós, apesar do vizinho antipático.

Rafael

A mãe não me deixou trazer o Toby para dentro de casa! Diz que nesta casa, como tem jardim, ele vai ter de ficar lá fora, pelo menos agora no verão. Não gosto nada dessa ideia. O Toby faz parte da família, era ele quem me fazia companhia quando o pai e a mãe discutiam. A Gaby tem lá as coisas dela e quando me via chorar ficava logo a resmungar pelas minhas lamechices… Gosto desta casa e tenho pena que o vizinho tenha sido tão antipático. Até o Toby ladrou quando ele ontem à noite pôs a música tão alto! A música era bonita, a mãe disse que era de Verdi, pena é que estivesse tão forte e a intenção dele fosse aborrecer-nos. E se eu procurasse nos CDs da mãe uma outra música e a pusesse assim alto, como ele fez? Podíamos falar por músicas! Vou falar nisso à mãe, a Gaby já sei que vai achar uma parvoíce! Não, também não vou dizer nada à mãe, senão ela não me deixa fazer isso. Mas vou fazer! Garanto que logo à noite vou fazer!

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 84 (edição de Janeiro de 2016)