Na cozinha, colocando ordem na desordem, Rita tentava focar o pensamento na nova vida que estavam a iniciar, afastando-se de incómodas memórias do passado recente. De repente, uma memória mais antiga surgiu. Rita deixou que ela viesse e encostou-se a um armário para melhor saboreá-la. Tinha pouco mais de 5 anos quando os pais compraram a quinta onde passara tantos e tão alegres momentos da sua vida de criança e adolescente, até que as loucuras do pai obrigaram à sua venda. Rita sorriu com ternura nostálgica ao recordar-se de si, menina alegre e feliz, brincando com o cão verdadeiro que substituiu os seus peluches, promessa cumprida pelos pais quando se instalaram na quinta. Lá fora, como em resposta aos seus pensamentos, Toby ladrou. Espreitou pela janela e percebeu que era um ladrar de saudação a Rafael, que brincava com ele. Rita imaginou a mãe a observá-la da janela, naquele dia que tinha vindo à tona das memórias antigas. Mas ela tinha tido o pai presente, os filhos não.

 

Suspirou. O passado recente tinha surgido, aquilo que estava a tentar evitar. Rafael e o cão, um pastor alemão de grande porte, rolavam na relva como dois garotos ou dois cães na brincadeira.

Gabriela entrou na cozinha e o seu Bom dia, mãe, soou risonho, chamando-a mais do que nunca ao presente.

«Vem ver o Raf e o Toby, parecem dois miúdos a brincar!». Gabriela encolheu os ombros do alto da sua diferença de dois anos do irmão e nem se aproximou da janela. Rita continuou: «Eles fizeram-me lembrar quando os avós compraram aquela quinta que vocês já não conheceram e vi-me a mim, brincando com o cão que me compraram nessa altura. Chamei-lhe Bambi e o meu pai riu-se muito, troçando de mim. Dizia-me, Bambi? Que disparate, não vês que ele é um cão? A minha mãe veio salvar-me e disse-lhe que se o cão era meu, eu tinha o direito de dar-lhe o nome que quisesse. Foi das poucas vezes que vi a minha mãe fazer frente ao meu pai.» A dureza racional de Gabriela não perdoou: «A avó bem podia ter-se imposto noutras coisas, deixou o avô esbanjar o dinheiro todo e depois tiveram de vender a quinta…».

 

Rita tomou consciência de que as suas memórias tinham acordado um lado escuro do passado, ao perceber o tom duro da voz da filha. Suspirou e olhou ternamente para fora, para as brincadeiras que ainda continuavam.

«O Bambi morreu de velho, já não tínhamos a quinta, e o meu pai dizia-me, quando o cão já estava bem velhinho, que ele devia mudar de nome e chamar-se Veado…»

Rafael entrou de rompante na cozinha, reclamando o pequeno-almoço.

Assim se iniciou um novo ritual nas suas vidas, nessa manhã de Sol daquele verão em que as temperaturas foram consideradas como das mais elevadas nos últimos dez anos.

No fim da tarde do segundo dia, as arrumações iam-se compondo. Do vizinho, nem sinal.

Gabriela arrumava o quarto, tira móvel daqui, experimenta acolá, este quadro aqui ficará bem ou ficará melhor naquela parede, mergulhada no silêncio concentrado de decoradora improvisada.

Rita colocava ordem nos armários da cozinha, arrumando loiças e talheres.

De repente, surge do exterior o som estridente de uma música. O vizinho outra vez?

 

Ambas acorrem à janela e veem, estupefactas, Rafael deitado numa cadeira de repouso, com Toby deitado no chão junto de si. Uma aparelhagem sobre a mesa de jardim lançava para o ar os fantásticos trinados da Rainha da Noite da ópera A Flauta Mágica de Mozart.

Rafael escutava, de olhos fechados. Gabriela desceu rapidamente do 1º andar, encontrando-se com a mãe junto da cadeira de Rafael. Rita desligou a aparelhagem e Rafael protestou: «Mãe, não me digas que não gostas desta ária, tu que gostas tanto de ópera!».

Não foi fácil a Rita manter-se séria, mas tentou com esforço manter a compostura de mãe e mandou levar a aparelhagem de volta para o quarto.

Em silêncio, Gabriela apontou a casa vizinha. Um vulto na janela do sótão mostrava que havia vida.

Vencido pela firmeza da mãe, Rafael ia cumprir a ordem quando da casa ao lado surgiu o som da mesma ária, suficientemente alto para que todos a escutassem. Aquele fim de tarde foi assim iluminado pelo génio mozartiano e os três escutaram em silencioso respeito… Quando a ária terminou e o silêncio regressou, vibravam ainda no ar as notas de música que de algum modo foram o instrumento possível de comunicação.

Todavia, poucos dias depois, acontecimentos noturnos iriam marcar, de uma forma que ninguém conseguiria imaginar, uma nova etapa na relação com o misterioso vizinho.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 85 (edição de Fevereiro de 2016)