Não tenho escolha?

Há muitas situações em que estou mesmo a pensar porque fazemos umas coisas e não outras. Estará tudo já escrito no nosso destino? Será que não temos outra escolha no momento, a não ser tomar aquela decisão e não outra? Será que somos nós a escolher o nosso destino ou somos guiados pelo destino?
O mestre espiritual George Gurdjieff compara-nos a carruagens tiradas por dois cavalos que portam um cocheiro em cima e que transportam um mestre ou um guia. A carruagem é o nosso corpo e os cavalos representam as forças vitais que nos levam na vida. Todos nós nascemos com uma carruagem, uns com uma mais majestosa, outros com uma mais modesta. A vida é assim. O cocheiro é o nosso ego e a nossa personalidade e representa todas as influências dos nossos pais, dos educadores, do ambiente, etc. Ele conduz a carruagem e pode pensar que tem o comando, pois pensa que se quiser pode ir para a direita ou para a esquerda. No entanto, no interior, está o mestre. Ele não precisa de estar atento à estrada, pois tem o cocheiro para isso.Mas, é ele que indica o destino final ao cocheiro e se não gostar do trajeto, pode sempre mandar o cocheiro a mudar de caminho.
No universo científico, a questão de saber se o homem tem livre-arbítrio ou não, está longe de fazer a unanimidade e, certos neurólogos apoiam a tese do que o livre-arbítrio será pura ilusão. Ou seja, pensamos que fazemos várias escolhas, mas na realidade o nosso percurso já está predefinido. Na base desta teoria está a ideia de que o nosso inconsciente tem um papel mais importante do que se possa crer e, tal como o atestam várias experiências em laboratório, esse inconsciente é definido pelo nosso passado.
A ideia de base é que os genes que temos desde o nosso nascimento, a educação que nos foi dada, as circunstâncias em que crescemos e vivemos e, até, a meteorologia, tal como outros fatores, ditem as nossas escolhas, sem que nos apercebamos disso.
Outros neurólogos opõem-se a essa conceção e avançam com a hipótese de que todas as nossas decisões são tomadas, parcialmente, de uma maneira inconsciente. Mas, que, no entanto, teríamos esta capacidade de nos opor, graças ao nosso Eu consciente.
Somos fortemente influenciados pelo passado, dizem eles, bem como pelo ambiente em que evoluímos, mas, de algum modo, dispomos de um veto. Este debate está presente em quase todos os correntes espirituais e tenho a certeza que, como eu, você também esteve a refletir sobre isto mais do que uma vez.
Se é bem verdade que nos reconforta a ideia de que tudo já está escrito e que de todas as maneiras o que tem para acontecer, acontece, pois isso exime-nos de qualquer responsabilidade quanto ao que nos acontece, não é menos verdade que há espaço pelas escolhas pessoais e individuais.
Que vamos subir até ao topo ou que vamos descer precipitadamente uma encosta, a escolha é nossa. É triste pensar que o ser humano só é um ator no grande palco da vida, sem direito à palavra, apenas a reproduzir um cenário já escrito por uma força qualquer. Somos guiados pelos fatores interiores e exteriores e encaminhados, assim, para fazer certas escolhas, mas temos sempre esta pequena voz interior capaz de dizer não, quando sentimos que alguma coisa não nos convém.

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