Numa época de constante imprevisibilidade e mudança, como a que vivemos, a maior parte dos seres humanos é confrontada com desafios constantes em todas as áreas da vida. O fator surpresa, a inevitabilidade do que surge inesperadamente, o ruir dos padrões, das certezas e do conhecido, são fatores que nos levam a ter que encontrar novos pontos de vista para o que acontece e qual o propósito que servem.

 

Fala-se, presentemente, em resiliência, como forma de aprender a lidar com as dificuldades e os obstáculos que surgem. Devemos resistir ao que surge ou simplesmente aceitar e redirecionar a nossa atitude de forma a encontrarmos novas formas de pensar, sentir e/ou atuar?

Quando pensamos em resiliência, lembramos os conselhos que ouvimos em criança para nos motivar a encontrar forças e razões para não desistir, não baixarmos os braços, remar contra as marés, desafiando o destino e as contrariedades…

Mas, apesar de tentarmos manter-nos à tona da água, lutando e insistindo, milhares e milhares de pessoas vão-se desgastando, tentando manter-se ‘de pé’ no meio da tempestade e do vendável. Será esse o caminho certo?

Talvez devêssemos parar por instantes e refletir acerca do verdadeiro significado da resiliência e do seu propósito. Todas as questões que se poem na nossa vida devem ser investigadas a partir da sua raiz. Persistir será entrar em guerra? Ganhar será lutar? Viver será um constante medir forças com o mundo e os outros? Qual o propósito que aceitamos para a nossa vida?

 

Paz e equilíbrio

Muitas são as lições que se nos oferecem, mesmo sem percebermos porquê. No nosso subconsciente existe informação que desconhecemos, de uma maneira geral. Aquilo que acreditamos ser nem sempre corresponde à verdade. Todos, de uma maneira ou de outra, precisamos de criar uma harmonização entre os aspetos contraditórios da nossa personalidade. Por mais que nos foquemos nos aspetos positivos, o desafio do negativo, latente em nós, não precisa de autorização nossa para se apresentar, reclamando a sua existência e alimento. A constante dualidade e oscilação entre os nossos dois lados tornarão os nossos dias inquietos, imprevisíveis e desafiantes. Não há como fugir a esta realidade, exceto quando nos consciencializamos desta dança pouco consciente, e nos dispomos a encontrar a harmonização indispensável para vivermos em paz e em fluxo.

Muitas pessoas perguntam se nesse estado interno de paz e equilíbrio os desafios deixarão de existir. Uma bela questão!

Não existe uma resposta direta pois a pergunta esta mal formulada. A resposta possível será mais: nesse estado de alinhamento interior, não vemos as situações como desafios. Um problema, uma dificuldade, um obstáculo são vistos dessa forma mas, na verdade, todas as circunstâncias são neutras em si mesmas. O significado é atribuído por nós e, como sabemos, cada ser humano avalia o que vê de forma diferente.

Existem, entretanto, alguns pontos de vista que vale a pena considerar, pois através deles podemos abrir-nos a novas perspetivas e reagir ao que vemos de forma mais equilibrada e sábia.

Ser feliz

Será que a nossa felicidade depende dos resultados ou das circunstâncias? A resposta a esta pergunta pode explicar porque sofremos e resistimos em modo de ‘ataque’ à vida. Quando nos deparamos com uma contrariedade, ou baixamos os braços ou resistimos cegamente ao que se nos apresenta, a questão é: são as circunstâncias que nos fazem infelizes ou são os nossos olhos infelizes que olham para elas?

Existe uma diferença fundamental entre uma atitude e outra. Na primeira, sentimo-nos vítimas atacadas, na segunda, percebemos o que está em causa dentro de nós e curamo-nos.

Por outro lado, estamos por demais focados em atingir resultados ou alcançar metas ou a esperar que a vida se molde totalmente a nós. Se é legítimo que queiramos alcançar os nossos desejos, não é menos importante que nos tornemos conscientes de nós e dos propósitos que nos animam. A nossa vida é desenhada por dentro. A realidade externa ‘molda-se’ aos sinais que recebe de nós, que vão sendo emitidos de forma nem sempre consciente.

Será que são os resultados que nos dão paz e bem-estar? Por quanto tempo? Refletir sobre o propósito que eles têm na nossa vida, pode dar-nos boas indicações acerca do que podemos esperar da nossa relação com nós mesmos. Se a alegria e bem-estar depender única e exclusivamente da pontuação dos nossos resultados, a luta desenfreada para os conquistar pode custar-nos muita dor e sacrifício. Entretanto, tudo o que a viagem para os alcançar nos possibilitou aprender e crescer pode ser desvalorizado e perdido… Por outro lado, podemos baixar os braços e desistir de ‘lutar’ contra o ‘mal’ externo e cair na impotência e na apatia. Se o ‘mal’ for interno, a chave para nos conquistarmos está em nós e a liberdade está à nossa frente.

Resistir em tempos difíceis é importante e útil, mas este ‘resistir’ será entendido como um convite a alinhar aspetos internos que estão a ser ativados através dessas circunstâncias. Quando as dificuldades aparecem, podemos perguntar a nós mesmos:

  • Que leitura faço desta situação?
  • O que sinto e penso sobre ela?
  • Que conclusão tiro desta circunstância na minha vida?
  • O que sinto e penso sobre mim, nesta situação?
  • O que é que eu acredito sobre mim quando esta situação ocorre?

 

Nas possíveis respostas que podemos dar, analisemos o quanto a perspetiva que temos é consequência do que se passa dentro de nós. Desde crianças que o nosso valor e reconhecimento ou aprovação dos outros são assegurados pela obtenção de algum resultado esperado de nós. Este condicionamento roubou-nos o prazer de desfrutar da viagem e do aprendizado que ela nos proporciona. O caminho para o objetivo é mais rico do que a obtenção do mesmo. É com ele que crescemos, criamos autoestima e desenvolvemos a autoconfiança.

Existem muitas pessoas que são profissionais a alcançar resultados e vivem infelizes. Chamaremos a isto sucesso? Se sim, consideremos o valor que atribuímos a um ser humano…

Desenvolver uma verdadeira resiliência significa curar por dentro os desalinhamentos que se manifestam na interação com as circunstâncias externas. Num movimento de reflexão e autoconsciencialização libertamos a nossa vida de constantes sufocos que exigirão de nós, grandes doses de stress, quer porque nos lançamos numa luta feroz para sobrevivermos, quer nos afundemos numa depressão séria, transferindo a luta para dentro e contra nós mesmos.

Sinta-se melhor consigo próprio

Uma grande parte dos objetivos que temos e dos resultados que queremos obter resultam da nossa necessidade de nos sentirmos melhor connosco. Andamos sempre à procura de nós mesmos e cada resultado alcançado dá-nos a ‘ilusão’ de que valemos ‘mais um pouco’, sobretudo para os outros de quem dependemos emocionalmente para nos sentirmos amados e reconhecidos.

Quando as dificuldades apertam pergunte-se, amigo leitor:

  • O que é que pode acontecer se eu deixar de me afligir?
  • Se eu deixar fluir, aceitar o que é ou relativizar, ficarei mais ou menos forte para encontrar uma solução ou saída?

 

Aceitar o que é, por alguns momentos, sem julgamento algum, faz parar o circuito nervoso do cérebro que nos desequilibra e perturba. Esta interrupção, observando a convulsão interior até que ela se desfaça, cria um estado de tranquilidade, onde o nosso melhor aflora e nos serve elegantemente…

O estado de ‘alarido interno’ nada tem a ver com o que se passa lá fora. É nosso papel aquietar a mente e as emoções e num outro estado interno olhar de novo para a situação e encontrar a saída… esperar, confiar e seguir, conduz-nos, normalmente, a novas possibilidades ou à aceitação serena do que é, caso nada mais possamos fazer…

A maior resiliência que podemos desenvolver é a que nos leva para dentro e nos ajuda a arrumar a casa interior, preparando-nos para um encontro com a vida mais feliz e verdadeiramente bem-sucedido.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº81 (edição de Outubro de 2015)