«Às vezes, é preciso criar novos caminhos»

egundo Rui Neto, «ser ator foi um acaso ou talvez fosse lá parar, fosse qual fosse o caminho que tivesse optado».

A profissão de ator sempre foi um desejo na sua vida?

Não. Nunca desejei ser ator. Mas também nunca desejei profundamente ser outra coisa qualquer. Sempre achei uma chatice ter de escolher ser apenas uma coisa para o resto da vida. Além disso, ter de escolher uma profissão quando se é ainda bastante novo. Lembro-me de quando era miúdo ter desejado ter uma profissão que pudesse ter tempo para continuar a brincar. Quando era miúdo queria ser rei. Mas, a ideia de ser veterinário foi aquela que mais durou. Acabei por entrar para o curso de Informática. E depois mudei para Publicidade e licenciei-me. Depois voltei a licenciar-me em Teatro e, mais tarde, fiz Mestrado em Ciências da Comunicação. Ser ator foi um acaso ou talvez fosse lá parar, fosse qual fosse o caminho que tivesse optado. «Todos os caminhos vão dar a Roma», dizem. No meu caso, Roma é ser ator.

Quando percebeu que a representação era o caminho que queria seguir?

Quando percebi que não havia outro caminho, ou outro destino possível. Era tarde demais para voltar atrás. Há decisões na vida, cujas efeitos e alterações que nos provocam não podemos anular. Não podia mudar. Posso reinventar-me. Posso afastar-me temporariamente. Posso desejar ter outra profissão. Mas, está tudo demasiado entranhado naquilo que sou. Não sei fazer mais nada profissionalmente. Poderia aprender, claro, e ter outro trabalho, mas ainda assim não deixaria de ser ator. Mesmo quando escrevo ou enceno, faço-o na perspetiva de ator. É a minha forma de estar em cena, de representar, de comunicar, de desenvolver trabalho e continuar a aprender e a crescer, mesmo quando não estou em cima de um palco ou à frente de uma câmara.

Mas, tirou a licenciatura em Publicidade e Marketing…

Sim, tirei. O que me ajuda imenso a ter ferramentas para planear a comunicação dos meus espetáculos, fazer os cartazes, pensar visualmente a comunicação daquilo que quero apresentar ao público. Cá está… tudo vai culminar naquilo a que damos mais atenção e que nos é importante.. no meu caso, o Teatro e o trabalho de ator.

Ser reconhecido profissionalmente

Na novela Sol de Inverno, deu vida à personagem Nuno, o que lhe valeu o Prémio Áquila de Melhor Ator Secundário. Como foi receber este prémio?

Foi ótimo ter tido o reconhecimento do público e perceber que o meu trabalho foi bem recebido. Foi a primeira vez que recebi um prémio pelo meu trabalho e senti-me muito sensibilizado.

É muito intensa a sua entrega às personagens que interpreta…

O meu trabalho, para mim, só faz sentido quando a entrega é total. Depois há trabalhos e personagens onde isso se torna mais visível. Nem sempre se tem a sorte de encontrar personagens que sejam ricas e que permitam essa intensidade e essa margem de trabalho e investimento. Às vezes, a personagem não é nada, e nada podes fazer, por muito que inventes. E também não se trabalha sozinho. É importante ter um bom encenador que ajude a desbravar o caminho e a tomar as decisões certas, ou bons guionistas, bons diretores de atores, bons realizadores, bons editores… Na verdade, o resultado está dependente de inúmeros fatores. Mas, acredito que sem trabalho não há magia nem milagres.

Já participou em diversos projetos tanto de teatro, como de cinema e televisão. Tem um currículo excelente. O que lhe falta fazer?

Falta-me fazer quase tudo. Falta-me conhecer tantos encenadores com quem nunca tive oportunidade de trabalhar. O mesmo em relação a realizadores. Tantas personagens que gostava de interpretar. Sobretudo, a vontade de trabalhar com muitos colegas com quem nunca me cruzei profissionalmente.

Fazer teatro

Já colaborou em diversas peças de teatro. O que é para si fazer teatro?

É ser livre. É poder ser de várias formas. É brincar de forma muito séria. E com isso comunicar, entreter, fazer refletir e educar.

Quais são os seus próximos projetos?

Para já, irei iniciar filmagens de um projeto para televisão, do qual não posso ainda revelar pormenores. Estive em cena recentemente no Teatro da Comuna com um espetáculo, Mechanical Monsters, de minha autoria. Em julho apresentei um
espetáculo a partir de Shakespeare, no Teatro São Luiz, em coautoria com a Teresa Sobral, onde participámos enquanto atores. E, em setembro, regressei à encenação, com um projeto para o Teatro da Trindade.

A minha mais recente criação, HUIS CLOS de Jean-Paul Sartre, está em cena até 9 de outubro, no Teatro da Trindade, com interpretação de Lia Carvalho, São José Correia e Miguel Raposo. O espectáculo segue para o Teatro da Comuna de 13 a 23 de outubro.

Quais são os seus sonhos a nível profissional e pessoal?

Primeiro, ter trabalho; segundo, que o trabalho seja desafiante e relevante; terceiro, que não estagne enquanto ator; quarto, que o público me reconheça pelo meu trabalho; quinto, que os meus pares reconheçam mérito no meu trabalho; sexto, que venha mais trabalho. Em termos pessoais, que tenha saúde para continuar nestas andanças. E o carinho da família e amigos.

O que não dispensa na vida?

Gosto muito do meu trabalho. Sushi. Rir. O meu cão. Ler. Ver filmes e séries. Leite sem lactose. Panquecas da minha mãe. Cantar no carro.

Realista, mas sonhador

O que o faz feliz?

Sentir que não me travam. Chegar a casa.

É sonhador?

Sim. Pragmático e realista, mas sonhador.

Acha que se cada um de nós acreditar que pode melhorar o que está à sua volta, as coisas acontecem?

Sim. Mas, às vezes, só melhorar não chega. Às vezes, é preciso criar novos caminhos.

Como imagina o seu futuro?

Não sei. Acho que não sou nada daquilo que, quando era mais novo, imaginei que iria ser. Não que seja pior ou melhor. Sou diferente daquilo que imaginei. E acho piada ser surpreendido por mim próprio. E tenciono continuar a fazê-lo.

Como alimenta a sua autoestima?

Ela alimenta-se sozinha. Às vezes, passa fome. Outras vezes, morre de fartura ou engana-se a si própria. Acho que anda muito em sintonia com as fases cíclicas de trabalho e com as derrotas e conquistas por que vou passando.

Costuma planear a sua vida ou prefere vivenciar e aproveitar cada dia?

Há coisas que têm de ser planeadas e pensadas. Até para poder tirar maior partido delas. Mas, na generalidade, gosto de aproveitar cada dia. Não vivo para objetivos a longo prazo nem para metas a atingir. Mas naquilo em que me comprometo no momento, faço por cumprir o melhor possível.

Mensagem positiva

Que mensagem positiva quer deixar aos nossos leitores?

Cada coisa tem o seu tempo e cada um tem o seu tempo. Não adianta ter pressa de chegar ao destino, até porque, na maioria das vezes, o mais interessante é a viagem.