Tenho uma amiga que diz que o segredo para se manter jovem é nunca olhar para trás. «O passado envelhece-nos», repica constantemente. Não sei se isso é bem assim, mas o que eu acho é que o tempo não volta para trás, venha quem vier. Podemos fazê-lo na nossa cabeça, mas fisicamente nada se repete na vida, por muito que tentemos ‘reiterar‘ o que já se foi para sempre. Voltar atrás daria muito jeito em certas situações, mas tudo muda a cada instante e a roda não para.

 

Mudar, ninguém gosta. Estou a falar em mudança profunda, duradoura. Mas, a mudança é possível. Não me refiro àquele tipo de mudança onde restringimos os nossos impulsos negativos durante algumas horas, poucas semanas ou até meses, para logo a seguir voltarmos ao nosso velho modo de ser. Estou, pelo contrário, a falar em mudança prolongada, aquela que nos traz mais felicidade para as nossas vidas e para as vidas dos que nos rodeiam (embora, muitas vezes, pareça o oposto).

Basta pensar naquela ‘tisana de energia’ quando nos comprometemos a fazer uma mudança de vida, um padrão típico e viciante, diria até patológico, e quando esse pico inicial se esgota, voltamos novamente a ‘zerar’, à deriva e a lutar contra essas mesmas tendências com as quais estávamos até então numa luta constante.

A vida ensina-nos que existe uma receita ‘tiro e queda’ para essa mudança duradoura:

– Deixar o passado para trás e abrir mão das nossas características compulsivas e destrutivas, mesmo que a ‘saudade’ aperte.

– Comprometermo-nos a substituir esses comportamentos que não estavam a funcionar por outros ou, como se diz agora, mais proativos.

– Resistir ao desejo de obter a energia que antes gratificava o nosso monstrinho, vulgo ego, quando nos sentíamos em baixo ou num estado mais primitivo.

Em suma: Não olhar para trás.

Tal como um alcoólico tem a árdua e eterna tarefa de resistir à bebida, nós teremos que nos ver como ‘egoólicos’ em recuperação, seres que precisam de desafiar incessantemente essas tentações e armadilhas do passado, para não sucumbirmos e voltarmos ao nosso velho modo de ser. Não é simples nem fácil, por mim falo, porque o caminho mais leve é muito mais tentador e exerce sobre nós uma atração enigmática e bastante poderosa. Importa também lembrar que, ao nos desviarmos do caminho, apesar do preço alto que se paga, receberemos sempre a oportunidade de aprender com esses erros e, quiçá, teremos – quase sempre – mais vontade de assumir um novo compromisso.

A tentação em voltar atrás é grande e eterna, mas o contrário também é muito bom e faz-nos viver. Só o que está morto não muda. Viver é isso, a salvação pelo risco, sem o qual a vida não valeria nunca a pena!

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 84 (edição de Janeiro de 2016)