No final dos anos 90, do séc. XX, a psicologia positiva surge em contraponto com uma longa tradição de psicologia clínica centrada naturalmente no sofrimento e nas disfunções psicológicas que afetam o bom funcionamento do ser humano. O objetivo primordial do movimento genericamente chamado de psicologia positiva é o estudo e a promoção da felicidade e do bem-estar, centrados em sentimentos positivos, em princípios e em atividades que tornem a vida estimulante e digna de ser vivida. Assim, o estudo da dinâmica da capacidade humana para criar os meios de uma vida satisfatória vai para além da ênfase colocada no modelo clínico assente no tratamento das doenças e das perturbações psíquicas.

 

Em vez de se interrogarem exclusivamente sobre as causas dos sintomas patológicos que dominam grande parte da investigação especializada, os impulsionadores da psicologia positiva preferem interrogar-se também sobre as causas naturais, individuais e sociais do bem-estar pessoal. Para a psicologia positiva tratar da doença é, sem dúvida, fundamental mas, por si só, não traz a felicidade. A ausência de sofrimento não é um fator imediato para se ser feliz. Assim, acompanhar psicologicamente uma pessoa tanto é cuidar do que está mal como fortalecer o que está bem.

Embora se tenha apresentado como uma disciplina complementar das psicoterapias tradicionais, a psicologia positiva tem sido criticada por uma focalização excessiva nas emoções positivas e por uma visão porventura dualista do ser humano, como se fosse possível e desejável anular os conflitos, a manifestação das emoções negativas e os aspetos mais sombrios e incontornáveis da natureza humana. Apesar da designação de psicologia positiva ser meramente instrumental e não implicar a oposição a uma suposta psicologia negativa, o facto é que a insistência na prevenção das emoções negativas e a valorização sistemática do otimismo e da felicidade como pilares da sua intervenção de aconselhamento psicológico conduziu, por vezes, à criação distorcida de uma imagem pública de felicidade carregada de superficialidade e de simplismo.

 

A felicidade

A ideia de felicidade tornou-se moda nos meios de comunicação e confunde-se quase sempre com uma alegria efusiva onde os problemas individuais e sociais parecem não ter lugar. Basta ver a publicidade massiva de algumas grandes marcas garantindo a felicidade a quem comprar os seus produtos, como se a felicidade se pudesse resumir ao consumo de certos bens comerciais. Ainda respeitando esta ótica, muitas são as publicações que sugerem um elenco de atitudes que nos garantem a felicidade. Esta convicção de que se cumprirmos determinadas ações seremos felizes reduz a unicidade de cada ser humano a uma crença de que somos todos iguais e o mesmo funcionará para todos. Se não funcionar, é porque há algo de ‘errado’ connosco, pelo que a frustração e o mal-estar aumentam.

Passadas mais de duas décadas do lançamento da psicologia positiva surge uma nova geração de teóricos sensíveis a estas questões. Propõem-se aprofundar o sentido original da psicologia positiva na sua dimensão holística. Se é certo que o otimismo e a esperança animam o indivíduo a enfrentar as dificuldades que o esperam nas contingências do quotidiano e nos seus projetos para o futuro, também é certo que o excesso de otimismo é suscetível de criar uma visão idealizada e irrealista das suas capacidades e oportunidades.

É sabido, por exemplo, que a cólera e o medo não são bons conselheiros e que quase sempre toldam os mecanismos da razão, mas na realidade muitas vezes a indignação perante uma injustiça, o receio e a prudência perante uma situação de risco, ou a tristeza perante um acontecimento doloroso, são respostas humanas naturais que não podem nem devem ser escamoteadas. As emoções negativas desempenham um papel importante na história da evolução, uma vez que elas estão presentes sempre que se prefigura uma ameaça à sobrevivência do grupo ou da espécie. As emoções no seu conjunto, tanto as positivas como as ditas negativas, desempenham uma série de funções essenciais à adaptação do ser humano ao meio ambiente, à relação com os outros e às transformações da História. As emoções preparam o organismo para enfrentar as mais diversas vicissitudes, condicionam as tomadas de decisão, orientam as relações sociais, intensificam a memória dos acontecimentos que marcam a existência. É a complexidade e a variedade das emoções que nos tornam humanos e dão alento à nossa vida.

O foco nas emoções positivas

O foco nas emoções positivas como promoção do bem-estar pode levar-nos a acreditar que as emoções negativas devem ser evitadas, esquecendo-nos que o problema não está nas emoções em si, mas no que fazemos delas. As emoções são um indicador fundamental do impacto que os eventos têm em nós, o que nos ajuda a tomar decisões coerentes com o que é melhor para a nossa vida. Se, por exemplo, um amigo tem um comportamento que nos provoca tristeza, uma atitude saudável não é negar que nos magoou, pelo contrário! Cuidar de nós é olhar para essa tristeza e perceber de que forma podemos nutrir essa relação.

O que a nova vaga da psicologia positiva vem propor não é tanto a supressão das emoções negativas como único método de poder alcançar a felicidade e o bem-estar pessoais, mas, sobretudo, aprender a conviver e a regular as emoções de maneira a viver a plenitude da condição humana sem excessos irrefletidos, antes de uma forma equilibrada, funcional, e consciente. Trata-se de contactar e identificar o que verdadeiramente sentimos nas várias situações que o dia a dia nos propõe, validarmos esses sentimentos e emoções, alinhá-los com as nossas crenças e pensamentos de maneira a tomarmos decisões responsáveis e autónomas que nos façam sentir bem com nós mesmos. Não significa que não sejam decisões difíceis, ou que não nos causem dor, significa apenas que são coerentes com a nossa natureza. E quando existe essa serenidade nas escolhas que fazemos, então sim, podemos falar de um caminho feliz.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 88 (edição de maio de 2016)