A vida não está p´ra rir!

É a primeira vez que aqui escrevo. Sinto-me uma caloira, sem saber ainda muito bem como funciona a casa, quem está desse lado, quem é que manda nisto. Só sei uma coisa – estou muito feliz por estar aqui: gosto do cheiro a tinta fresca e de primeiras vezes.

enho escrito sempre – quando era pequenina já dizia que queria ser escritora, sem saber bem o que isso significava mas parecia-me bem, desde que tivesse os meus lápis comigo. Fui escrevendo, como fazem os atletas que treinam todos os dias e não sei se me tornei boa escritora mas, pelo menos, tornei-me apaixonada. Tenho uma relação com as letras bastante íntima e, às vezes, comemos juntas na cama
e nem me importo com as migalhas.

Em relação ao humor, tem-me sido fiel. Mesmo nos momentos menos “cutxis” da minha vida, o humor tem lá estado, como estão as mães que não conseguem, mesmo que queiram, deixar-nos sozinhos. Tem sido não a minha boia de salvação, porque não gosto da sensação de me agarrar a algo só porque estou a afogar-me, mas sim a minha companhia de eleição. Por opção. E foi por viver com o humor que a escolha do título deste nosso espaço acabou por ser, “A vida não está p´ra rir”. Adoro expressões que se contrariam a si mesmas. São as pessoas que não se sabem rir das suas desgraças que mais dizem estas frases e é irónico que sejam essas que mais precisam que lhes seja enfiada uma gargalhada pela boca adentro. Ou que a gargalhada saia pela boca fora.

“O melhor do melhor ainda está por vir”

É inevitável começar por contar-vos o que significa para mim a viragem do ano, afinal, estamos todos a iniciar um novo ciclo. Adoro recomeços, mas olhem o contrassenso – nunca liguei patavina  a tudo o que a passagem de ano implica na nossa cultura, mas vibro como uma criança com o final da época. Sinto-me como aqueles desportistas profissionais que acreditam que a melhor contratação está finalmente a chegar. Acho sempre que este ano foi especial, mas que o melhor ainda está por vir. O melhor do melhor ainda está por vir.

Vivi tantas coisas este ano. Lancei um livro (dei em doida antes), fiquei internada por culpa de umas enxaquecas (talvez por ter dado em doida), andei numa pão-de-forma de 74 com o Tiago, mudámos de casa. Também aconteceram coisas feias, também me assustei de morte com a morte, também pus alguns projetos em causa e criei outros. Mas obrigada 2017, foste do caraças. Deste-me cabo dos nervos algumas vezes, mas criaste uma escada para o que vem aí depois. A melhor época está para vir, certo?

Por precisar de pensar nestas coisas e agradecer  o que vivi, apesar de ser uma cachopa barulhenta, sempre preferi as passagens de ano mais pacíficas, do que as festas de fim de ano típicas (onde brindar é apenas praxe da noite). Não me diz grande coisa embebedar-me na passagem de ano só porque é uma espécie de ritual e faz parte. Odeio fazer parte – além disso, embebedo-me geralmente sem querer e perto das nove horas da noite. Bebo tão pouco que cheirar o copo com vinho já é suficiente para estar
a tropeçar nos próprios pés; depois, porque está escrito em sei lá onde que é preciso fazer uma direta nessa noite. Não consigo fazer isso. Não me obriguem a estar acordada na noite do 31 de dezembro “só porque é A noite do ano” que isso ainda me dá mais sono. Não me digam que não posso adormecer, “que esta noite é que é!” porque isso é exatamente o que não se pode fazer aos putos: mostrar-lhes  o proibido. Peçam-me para me manter acordada e os meus olhos jamais sairão da mantinha quentinha que está no sofá, enquanto me imagino a enrolar-me nela – como uma doida.

Promessas para quê?

Há outra coisa que não faço na passagem do ano – promessas. Não gosto muito de prometer dietas
e corridas matinais (Deus já não liga ao que eu digo) e também não vale de nada, porque nunca entro em janeiro com o pé direito – é dia 5 e eu já estou arrependida de todas as coisas que ainda ando  a comer do Natal (quero lá saber das validades, só me interessa perceber se o que estou a comer  é doce). Na verdade, janeiro stressa-me. É aquele mês em que supostamente deveríamos fazer tudo bem, como quando começas as aulas e tens obrigação de ter os cadernos limpos e escritos com a letra bonita. Porque estás a começar. Porque janeiro é o mês em que não podes fazer asneiras. Porque não podes estragar o início da nova era (ainda bem que faço anos em fevereiro. Vem logo a seguir a janeiro e é, portanto, a minha segunda oportunidade para entrar no novo ano a ganhar pontos).

Posto isto, acho que é seguro concluir que não sirvo para a passagem de ano habitual: não me embebedo, não faço diretas, não gosto de passas e não compro cuecas azuis para dar sorte – o azul aumenta-me consideravelmente a nádega e não me meto nisso. Mas há uma coisa que faço sempre neste último dia do ano: adoro listar os melhores momentos que vivi, começando por me lembrar do que fiz em janeiro até dezembro (tenho excelente memória), agradecendo as vitórias, mas também as porradas, as aprendizagens mas também as grandes borradas que não poderei voltar a fazer. Preciso de me relembrar do que fiz mal, mas sobretudo do que me correu bem. Preciso de me sentir grata para nunca deixar de perder piada a isto.

Não tenho promessas para 2018. Tenho vontades que prometo tentar cumprir (é a mesma coisa?), como aproveitar cada fase da forma mais saudável possível. Esse é o meu pequeno grande plano – aprender  a gerir, cada vez melhor, as minhas emoções.
E comer menos, se for possível. Quero manter a paz em todas as situações, viajar sempre que possível, rir-me mesmo quando a vida não está p´ra rir.

E quero continuar aqui convosco.

Disso tenho a certeza.

Marine Antunes

Escritora, oradora e responsável pelo projeto Cancro Com Humor

https://www.facebook.com/CancroComHumor/