Parece que sem a consciência da nossa finitude, adiaríamos tudo e acabaríamos por não fazer grande coisa. A única certeza que temos é que um dia a vida terminará e isso compele-nos a fazer acontecer, a aproveitar o tempo que nos é concedido com tanta generosidade para não o perdermos inutilmente.

Se a morte e a dor são parte integrante da nossa vida, ser feliz não é só um direito mas quase uma obrigação para com a vida e implicitamente para com nós próprios.

Se, durante a nossa vida, não conseguirmos alcançar coisas espetaculares, criar maravilhas, inspirar os outros ou ajudar quem mais precisa, pelo menos teríamos a satisfação de poder afirmar que vivemos uma vida feliz.

Pessoalmente, quero acreditar que viemos ao mundo para experimentarmos a vida com tudo o que ela tem para oferecer e, sobretudo, para encontrarmos o nosso caminho, conhecermo-nos na nossa verdade e sermos felizes.

No entanto, na nossa sociedade de consumo, onde a competição é a prerrogativa para ter êxito, o nível de satisfação é definido, na maior parte do tempo, pela comparação que fazemos com os outros. Sem pensar, com uma tendência inata, olhamos à volta esperando ter um pouco mais que o vizinho para ficarmos satisfeitos. Mas isso nada tem a ver com felicidade.

A verdade é que a busca pela felicidade é inerente ao ser humano e é parte integrante da nossa vida. Só acho estranho o facto de todos querermos ser felizes e poucos o conseguirem. Por que será?

A competição, o ódio, os ciúmes destroem o nosso bem-estar gerando desconfiança, insegurança num mundo que consideramos hostil, enquanto uma ação solidária, uma atitude empática e generosa, um sentimento amoroso contribuem para a nossa felicidade e bem-estar de modo avassalador. E contagia quem nos rodeia.

No entanto, alimentar a mente com mensagens mentais positivas que nos deixem num estado de felicidade duradoura não é assim tão fácil. Se fosse fácil, não havia no mundo tantas pessoas infelizes.

Atenção, não confunda ser feliz com ter prazer ou estar feliz em alguns momentos transitórios da nossa vida, quando resolvemos um problema complicado ou alcançámos algo importante e pelo que trabalhámos durante muito tempo. Até quando deixamos de ter enxaquecas, podemos experimentar um sentimento de bem-estar e alívio, mesmo de felicidade. Mas será que isso quer dizer que somos felizes? Não me parece.

A nossa cultura obriga-nos a ser felizes e perfeitos, pelo menos parecê-lo. Precisamos de um casamento perfeito, filhos perfeitos, um trabalho perfeito. Nós próprios temos de ser perfeitos para enfrentar um mundo longe de ser perfeito, mas que requer e impõe a perfeição. Vivemos com o desejo de sermos perfeitos, mesmo sabendo que a perfeição não existe. Afinal, será que é mesmo preciso sermos tão perfeitos?

O importante é o que cada pessoa faz com os seus erros e defeitos. É isso que define quem realmente somos. É preciso existir equilíbrio. É preciso entender e aceitar que determinadas coisas não dependem de nós e não exercemos qualquer controlo sobre elas.

Sim, eu também teria gostado de ser ainda mais inteligente, ter tido um dom especial e artístico para inspirar e maravilhar os outros, ter uma mente brilhante para criar coisas espetaculares e necessárias ao ser humano. Mas não desespero por não ser assim. Estou muito feliz com o que tenho e faço o melhor possível com aquilo com que fui abençoada pelos meus pais, pela vida.

Todos nós gostamos de pensar o melhor de nós mesmos, mas por vezes é bom fazer uma análise mais rigorosa do comportamento que temos no dia-a-dia. Será que estamos ao nível das nossas expectativas ou estamos a ceder às expectativas dos outros? E será que estas expectativas são exequíveis, realistas?

Compreender o nosso comportamento e conhecer os nossos limites pode ajudar-nos a mudar a forma de sentir e de agir.

As expectativas dificultam a oportunidade de sermos felizes, tanto quando se cumprem como quando não se cumprem. Ficamos infelizes quando não conseguimos algo e ficamos infelizes logo depois de ter conseguido algo, pois já queremos outra coisa para ficarmos novamente satisfeitos.

Será que podemos falar de felicidade só quando não temos razões nenhumas para sermos infelizes?

Parece que o nível de infelicidade pode ser calculado. Dennis Pragger criou uma fórmula para fazer este cálculo: I=E-R. Ou seja, a quantidade de Infelicidade é igual às Expectativas menos a Realidade. Deste modo, o nível de Infelicidade variará consoante a Realidade, se for superior, inferior ou igual às Expectativas. Com base nesta fórmula podemos concluir que, no caso de existir a possibilidade de infelicidade, teríamos de tratar da Realidade.

O problema é que nem sempre conseguimos fazer da Realidade aquilo que idealizamos, exceto quando planeamos tudo direitinho e nesse caso já não estamos a falar de expectativas, mas de projetos.

Especialistas afirmam que para não correr o risco de ficarmos infelizes, o melhor seria trabalhar a realidade, mas também as expectativas. Se melhorarmos a realidade e aumentarmos proporcionalmente as expectativas,
a infelicidade manter-se-á presente.

Se baixamos as expectativas, mesmo sem melhorar muito
a realidade, a infelicidade desaparecerá.
Nos países ocidentais acredita-se que ser feliz é não sofrer e assim tentamos limitar o sofrimento o mais possível. Mas neste exercício perdemos também a habilidade para o enfrentar.

As pessoas de culturas orientais parecem ter uma maior capacidade para aceitar a dor e o sofrimento, e para nós é quase incompreensível a resistência destes povos mais pobres da Ásia ou da África às adversidades da vida. Adversidades essas que nós consideraríamos uma violação do nosso direito à felicidade.

Contudo, a felicidade está nas mãos de cada um de nós.
É uma busca que nos pertence e que não podemos delegar.

Bom Ano, seja feliz!