Por que motivo sentimos o medo de forma diferente perante uma pandemia como esta? Porque é que algumas pessoas estão verdadeiramente em pânico e outras se mostram tão destemidas ao ponto de terem atitudes inconsequentes, tal como se colocarem a eles próprios em risco ou àqueles que os circundam? Por que algumas pessoas, perante os acontecimentos, procuram esconder esta emoção por detrás de afirmações como “isto não é nada”, “não é real”, “não é assim como estão a dizer”, “o índice de mortalidade é baixo”, “há doenças que matam mais”? Por que algumas pessoas se prendem apenas ao índice de mortalidade, fazendo comparações com outras doenças e esquecendo o efeito destrutivo e avassalador da transmissão rápida e exponencial que o vírus tem? Por que algumas pessoas não pensam no problema que se estabelece ou que se estabelecerá, caso o número de casos aumente em demasia, sobrecarregando os hospitais que não teriam capacidade de resposta a nível de recursos físicos, humanos e materiais, tal como está a acontecer em Itália? Por que alguns afirmam que tudo isto é exagero dos media, enquanto outros estão preocupados e fazem a sua parte no que concerne à sua responsabilidade pessoal e social?

É certo que o medo é uma emoção natural do “Ser Humano” e é classificado como uma emoção básica que sentimos desde dos primórdios da nossa existência, e que muitas vezes nos protege de consequências que determinados prejuízos nos trariam, como acidentes que poderiam levar-nos à morte. Sabemos que alguns possuem mais medos de variadas coisas e possíveis acontecimentos do que outros. E estudos apontam que a diferença na quantidade e frequência com que sentimos esta emoção se deve a uma diversidade considerável de fatores, desde a nossa própria configuração anatómica e fisiológica, até às experiências de vida que nos acompanham antes mesmo do nascimento quando estamos no ventre materno. Portanto, não podemos esperar que perante uma crise mundial como esta, que tem por base um agente invisível, destrutivo, desconhecido e com alta velocidade de propagação, que todos, sem exceção, tenham o mesmo nível de medos e receios, e que percecionam a realidade que nos foi imposta de repente da mesma maneira. E ao sabermos que cada emoção gera uma ação, um comportamento, não podemos esperar que todas as ações possuam o mesmo nível de consciência para nos levarem a um bem comum, que é a proteção em massa.

Neste momento, é importante mantermos e alimentarmos a nossa inteligência emocional. A realidade existe, está aí, os factos espelham a gravidade disso tudo tanto a nível de saúde física, como de saúde emocional, como financeira, e o que tudo isto vai e está a trazer de diferente nas nossas vidas. No entanto, durante toda a minha vida e ao longo destes anos no exercício da profissão como terapeuta em saúde emocional, aprendi que o sofrimento, o desespero, o abalo destrutivo na saúde emocional é sentido quando estamos no tempo errado, quando ficamos presos no passado ou no futuro, sem estarmos realmente conectados no presente. Sendo assim, quem fica preso ao passado sofre a dor e o desconforto do arrependimento, daquilo que deveria ter feito e não fez, daquilo que magoou e ficou ali a ferir a memória, a ferir a alma. E quando estamos presos ao futuro sofremos a ansiedade do medo do que poderá acontecer, do que poderá advir dos factos e dos acontecimentos. Então, o grande segredo para termos saúde emocional é fazermos um grande esforço, quando isso não ocorre de forma natural, para estarmos no presente. Quando constatar que está a sofrer pelo que passou ou preso em medos do que poderá acontecer no futuro, sugiro que se repreenda e volte os seus pensamentos para o presente.

Em termos mais concretos, cito um exemplo que envolve os acontecimentos: agora, ao invés de ficar preso ao medo do que poderá acontecer, se vai perder alguém da família mais idoso ou de risco, se o vírus o vai infetar ou a alguém querido, se amanhã estaremos todos em crise a passarmos necessidades financeiras devido à crise mundial, sugiro que saia deste momento, saia deste pensamento e volte ao presente. Afirme positivamente comandos positivos como “Estou a fazer a minha parte”; “Estou bem”. Em caso de isolamento voluntário poderá afirmar: “Estou a contribuir para a minha proteção e a da sociedade”. Se, pelo contrário ainda estiver a trabalhar: “Vou trabalhar, mas tomo os cuidados devidos”; “Manter-me-ei informado e darei orientações à minha família sempre que possível para a conscientização e para que todos façam a sua parte”; “Tenho crenças positivas”, “Acredito na força do Universo, acredito no seu poder de reorganização”, “Acredito que tudo a seu tempo se reorganizará e a nossa vida regressará à normalidade. Ficaremos bem e poderemos transitar em liberdade, abraçar, pegar na mão, tocar, seguindo o nosso percurso de aprendizado na grande escola da vida”, “Sei que tudo ficará bem, que não nos faltará nada, que logo aparecerá uma saída”. Enfim, afirme positivamente tudo quanto possível para expulsar o medo e voltar à realidade, até mesmo porque o futuro não chegou e ninguém sabe o que acontecerá amanhã, assim como meses atrás era impossível prever que num ano de números tão bonitos (2020) e que iniciámos com esperança de construção, estaríamos a passar por uma situação destas, com um impacto a nível mundial, ou seja, direta ou indiretamente afeta todas as pessoas do mundo.

Para a sua saúde emocional, convido-o à reflexão. Volte os seus pensamentos para o momento, para o agora, para si mesmo. Volte os seus pensamentos para o lado saudável da vida. Tente reorganizar as suas ideias, aproveitar o tempo para organizar tarefas que antes não podia, confraternizar com a família, ler, voltar-se para dentro de si em reflexão. Sugiro que use o tempo a seu favor. É tempo de reflexão, mas não de uma reflexão pautada pelo medo, pela dor, pelo desastre ou desespero, mas sim de uma reflexão voltada para a paz interior: como posso crescer com tudo isto? O que a situação nos ensina, tanto do ponto de vista individual como coletivo? O que posso fazer a partir de agora para ser um “Ser Humano” mais positivo, para atrair coisas boas para a minha vida e, consequentemente, proporcionar melhores momentos a todas as pessoas que estão perto de mim? O que posso fazer para contribuir positivamente para este mundo, onde estou em processo de aprendizagem? O que posso fazer para ser cada vez mais feliz?

Tudo na vida tem o impacto que lhe damos, as cores da vida e a força dos acontecimentos são percecionadas de acordo com os óculos das nossas emoções. Podemos ver tudo o que está a acontecer como oportunidade de amadurecimento e crescimento ou podemos ficar presos às dores, às lamentações. Sugiro que esteja grato. Agradeça o que tem, agradeça por não ter sido uma das vítimas, agradeça por não ter sido alguém que partiu devido a isto tudo. Se contraiu o vírus e está tudo bem, agradeça por isso. Se perdeu alguém próximo, cuide de si e dos outros para honrar a pessoa que partiu, fazendo pelos outros aquilo que gostaria que tivessem feito por ela, para a sua proteção. Enfim, seja vida, viva a vida, apegue-se a emoções positivas, isto é estar vivo, porque a pior morte que pode existir é a morte em vida, o que acontece quando ficamos presos aos medos em demasia e às dores, e não sentimos todo o potencial de construção que existe no Universo, uma energia soberana que rege sempre em nosso favor.

Reliane de Carvalho