Incerteza, instabilidade, mudança. Na vida em geral, nas relações em particular. Há quem diga que é resultado da dificuldade de compromisso, de aceitação, de incompatibilidades não trabalhadas, de insatisfação. Mas, e se essa insatisfação existir para nos obrigar a procurar melhor? Será que nos devemos mesmo dar por satisfeitos ou será que faz parte da natureza humana viver os desafios da vida numa lógica de crescimento e desenvolvimento pessoal?

 

Nesta perspetiva, poderá fazer sentido haver mudança de trabalho, de parceiro, de amigos; mudanças que correspondem às várias fases da nossa vida, do nosso crescimento. E nem sempre conseguimos crescer todos na mesma direção.

Com o passar do tempo, vamo-nos tornando mais inertes no trabalho, protegemo-nos mais do mundo, dos outros, das relações e mergulhamos numa tristeza que espelha o nosso grito por uma existência mais autêntica. Queremos vidas mais livres, desprendidas, alegres, leves, entusiasmantes, mas vamos caminhando para vidas mais resguardadas, cómodas, seguras. Os desafios trazem-nos a oportunidade de desenvolver as nossas potencialidades mas, por vezes, a dor por eles provocada fala mais alto e começamos a evitar novos. Às tantas, preferimos a imobilidade com receio que o movimento nos traga ainda mais sofrimento. Sem darmos por isso, deixamos de viver e passamos a sobreviver, no maior abrigo que nos é possível. Como ganhar forças para inverter este processo?

 

«A vida é um conjunto de experiências»

O ser humano tem a capacidade de não parar de crescer. A vida é um conjunto de experiências, seja em que área for, nas quais o crescimento e o desenvolvimento das nossas potencialidades é o objetivo primordial. É ir cada vez mais ao encontro da nossa verdadeira essência, do elemento que nos distingue de todas as outras pessoas e nos torna únicos e especiais. Conhecer a nossa essência implica explorar o mundo ao nosso redor, exatamente como faz uma criança com tanta naturalidade. Se conseguirmos manter um olhar curioso, não paramos de fazer descobertas. E esse olhar curioso de exploração, de viagem interior, é a grande riqueza que as relações nos trazem. Através do outro acedemos ao nosso vasto mundo interior, com as suas fragilidades e forças, mundo esse que grita para ser visto, olhado, cuidado e transformado. Sempre. Porque a vida é uma transformação contínua, é desenvolvimento. Nada permanece imutável. O importante é sentir que essa transformação vai na direção de um desabrochar e não de um murchar. A nossa semente necessita de ser regada e cuidada de forma adequada, mas se não a conhecermos não saberemos do que ela precisa para se desenvolver e crescer em todo o seu esplendor.

 

Sinta a beleza da vida

Uma relação íntima faz-nos viver a beleza da nossa semente com uma intensidade única. Sentir-nos amados e valorizados, sentir que fazemos a diferença na vida de outra pessoa, sentir que a nossa existência tem importância dá-nos uma energia inigualável. A leveza passa a fazer parte do nosso ser e o que era um problema passa para outra dimensão, deixa de ter o peso que tanto nos atrapalhava. No entanto, quando a relação se interrompe, o que tínhamos visto florescer em nós murcha por falta de nutrição. Na vez seguinte já olhamos para o outro com mais cautela, com mais desconfiança e mais defesas. Queremos sentir a beleza da vida, mas prevemos que chegará novamente o dia em que entraremos em guerra e nos será roubado o afeto, a atenção, o amor, o carinho. Para quê então tentar novamente? Para quê voltar a entrar no turbilhão das emoções quando já tínhamos conseguido alguma estabilidade sozinhos? Quem nos faz entrar noutra tempestade? Parece um paradoxo, mas subtrairmo-nos às tempestades, que são feitas da alternância de Sol e chuva, é subtrairmo-nos à vida. Porque a vida é feita de tempestades. Porquê? A psicologia positiva explica isso bem através do conceito de crescimento pós-traumático.

 

O crescimento pós-traumático

O crescimento pós-traumático prevê que após um evento traumático a pessoa consiga tirar benefícios em termos de mudança interior para uma visão mais alargada de si própria e dos outros. A ampliação de consciência ajuda-nos a dar sentido à existência e a conhecer e respeitar cada vez mais a nossa essência. Quanto mais acedemos à nossa essência, quanto mais fundo formos ao nosso interior, reconhecendo inseguranças e necessidades, mais abertos nos tornamos ao mundo exterior. Quanto mais nos conhecemos, mais nos apoderamos da nossa força e menos necessidade temos de nos proteger dos outros. Quanto mais seguros estamos de nós próprios, menos o mundo se apresenta como uma ameaça. Nesta perspetiva, cada relação, cada acontecimento, são apenas oportunidades para nos conhecermos, para explorar o nosso interior e fazer crescer a semente que existe dentro de nós. Para isso, temos de ganhar a capacidade de olhar para nós e olhar para o outro sem fundir olhares, sem nos perdermos. Se vivermos cada experiência como uma oportunidade de autoconhecimento, mesmo que essa experiência nos traga dor e sofrimento, também nos traz clareza e visão. Traz-nos tristeza por ter tocado numa fragilidade nossa, mas também nos traz a possibilidade de sentir que essa fragilidade existe e que precisa de ser cuidada.

Quando vemos as experiências como meio de nos autoconhecermos para florescermos, então, a vontade de crescer fala mais alto do que o medo de murchar outra vez. O crescimento inclui dor, mas para que a dor se transforme em crescimento é necessário identificar o que podemos aprender com essa experiência, em que nos podemos tornar melhores através dela, não tanto para evitar errar novamente, mas para fazer melhor da próxima. Olhar para nós, cuidar de nós já é fazer melhor. Cuidar não implica fugir e evitar viver, antes pelo contrário! Cuidar implica abrir-se ao sentir, implica ter a coragem de mergulhar na instabilidade do oceano da vida, apesar dos medos e das inseguranças, sem nos perdermos de vista. E aí, em tudo o que nos acontece, conseguimos transformar o sofrimento em felicidade.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 84 (edição de Janeiro de 2016)