Durante o processo de crescimento de uma criança, há variadíssimos jogos cujas dificuldades e desafios são feitos adequadamente para a sua idade. Pôr-lhe à frente um jogo demasiado difícil cria-lhe frustração, mas se for demasiado fácil cria-lhe aborrecimento. Ora, com a vida passa-se a mesma coisa: os desafios e os obstáculos que nos vão aparecendo são os jogos apropriados para crescermos e progredirmos no nosso processo evolutivo.

Já está comprovado que o nosso cérebro é plástico, isto é, o processo de desenvolvimento é constante, não para aos 18 anos! No entanto, ficamos contrariados com os jogos que nos vão sendo propostos em adultos, queremos ser felizes mas sem brincar… é impossível! Os jogos, ou as experiências da vida, se por um lado nos fazem descobrir as nossas forças, pois permitem-nos sentir e definir melhor o que (não) somos capazes e o que (não) queremos, por outro lado, são o elemento através do qual aprendemos e evoluímos para passarmos para outros. A felicidade surge na sequência deste processo. Estar sempre a experimentar o mesmo tipo de jogo cria-nos uma vida emocionalmente desgastante ou aborrecida.

No artigo do mês passado vimos que a insatisfação do ser humano é positiva na medida em que nos indica qual a necessidade psicológica que precisamos de colmatar. Dá-nos uma luz acerca da direção a seguir. Não vamos encontrar o que não procuramos, pelo que saber o que se deseja é um primeiro passo. Na busca de suprir essa insatisfação vamos encontrando obstáculos, também esses importantíssimos para um processo através do qual se dá o tal crescimento. Uma criança que não brinca, não se desenvolve, nem em termos emotivos, nem cognitivos. O mesmo com um adulto: se não ‘brinca’ com a vida, se se recusa a entrar no jogo que ela propõe, em vez de viver, apenas sobrevive.

 

A fuga ou a luta

Perante um obstáculo, o ser humano saudável tem dois movimentos: a fuga ou a luta. Optamos pelo primeiro quando reconhecemos que o desafio é demasiado difícil para as nossas capacidades. Mesmo que não seja, é isso que sentimos, pelo que optamos por não entrar nesse jogo. E não há problema nenhum! Desde que seja uma escolha consciente, fruto de uma noção clara dos nossos limites, será uma escolha coerente e em paz com nós próprios. Optamos pelo segundo movimento quando sentimos ter forças e/ou vontade para ultrapassar o obstáculo em questão. Poderá não ser fácil, mas o desejo de tentar é mais forte do que a convicção de não conseguir. Muitas vezes a diferença entre os dois reside simplesmente na vontade interior e na crença de que se é ou não capaz, e não tanto nas reais capacidades de cada um. Tentar e não conseguir é visto por alguns como algo muito mais sereno do que nem sequer tentar, pois o vazio do resultado desconhecido é terrível. Para outros, a possibilidade de tentar e não ter sucesso provocaria uma frustração tal que preferem não arriscar.

Mas, pior do que a escolha, seja ela qual for, é a não escolha. Quando não conseguimos optar nem pela luta nem pela fuga ficamos paralisados e essa paralisação cria-nos tensão. Quando o nosso sentir vai numa direção oposta ao nosso pensar, surge o conflito, o qual por vezes nos impede o movimento, seja ele de fuga ou de luta. Por vezes, até uma simples decisão entre ficar em casa ou ir a uma festa pode transformar-se numa crise que nos paralisa. Em nenhum dos casos ficamos bem e quando assim é sentimo-nos impotentes, sem saber o que fazer. Andamos simplesmente desencontrados.

Quando não estamos perante patologias, o ser humano deve ser capaz de escutar atentamente os sentimentos e as emoções, dando o devido espaço a ambos. No entanto, a nossa sociedade incita-nos a ouvir e a desenvolver mais a parte racional e lógica, conotando a parte emotiva como fraca. Ao longo da vida, vamos aprendendo a reprimir as emoções, pois são malvistas. Se temos desejos, somos egoístas. Se ficamos tristes, com raiva, com inveja, com vergonha, somos fracos. A alegria é mais bem aceite, mas mesmo assim há ambientes sociais que oprimem a expressão do entusiasmo e da euforia. Tal Ben-Shahar explica bem que quando reprimimos algumas emoções reprimimos todas, pois o canal de expressão é o mesmo. Acontece algo semelhante quando somos anestesiados para uma cirurgia: deixamos de sentir dor, mas deixamos igualmente de sentir o prazer de uma carícia. Seria uma excelente opção se simplesmente anulássemos o que nos faz sofrer, mas ao tentarmos fazer isso deixamos de conseguir sentir igualmente o que nos faz felizes. Porém, reprimir as emoções é tornarmo-nos robôs e uma vida plena, autêntica, risonha, não é plausível sem a vivência da parte emocional. Neste sentido, como explico no meu livro Ousar Ser Feliz – dá trabalho, mas compensa!, as emoções são todas elas positivas, visto que nos ajudam a perceber o que se passa dentro de nós para fazermos os respetivos ajustes.

 

Reprimir as emoções

Ao reprimir as emoções criamos um curto-circuito no processo de decisão, pois pensamento e emoção devem ser incluídos de forma consciente. Quando não permitimos que as emoções ganhem um espaço consciente nos nossos trilhos, pode acontecer-nos o mesmo que aos alpinistas de quem falámos no artigo anterior que morrem pelo caminho: focam-se tanto na meta que perdem a capacidade de discernir se o percurso vai fazendo sentido. Os obstáculos que surgem podem fazer-nos sofrer, mas se conseguirmos incluir esse sofrimento ao longo do caminho, se conseguirmos dar um sentido à sua existência e perceber qual a lição a aprender, então tornamo-nos seguramente pessoas interiormente mais ricas e maduras. Se os rejeitamos, não saímos do mesmo patamar, entramos em negação perante a vida.

 

As emoções

As emoções regem todo o nosso sentir, elas funcionam como indicadores ao longo dos nossos trilhos. Se as insatisfações nos levam a ter a noção das nossas necessidades, se os obstáculos nos levam a descobrir as nossas potencialidades, as emoções levam-nos a sentir e a validar os nossos desejos. Para isso, devemos fazer uso de todas as emoções: atrás dos medos escondem-se os nossos desejos, o que significa que todas as emoções têm a sua função. E as insatisfações, os obstáculos e os medos podem ir mudando à medida que nos direcionamos para o nosso objetivo, basta termos a coragem de ir parando para os ouvir. A obsessão pela meta torna-nos rígidos; o desfrute do caminho torna-nos flexíveis para sentirmos a vida. Uma vida feliz, de crescimento e desenvolvimento pessoal, não se reduz à elaboração de planos. Eles são fundamentais na medida em que nos dão a direção, mas o crescimento está no caminho que percorremos rumo a esses planos que definimos, com todas as imprevisibilidades que ele nos traz. O importante é abrir o campo da intenção ao que queremos, para depois deixar que a vida nos proporcione as oportunidades adequadas. Nem sempre vivemos imediatamente o que desejamos. Para lá chegar, talvez necessitemos de viver outras aventuras. Mesmo que não tenhamos imediatamente consciência da sua função, é fundamental entregar-se a essa experiência. Já Agostinho da Silva, dizia: «Não faças demasiados planos para a vida para não estragares os planos que a vida tem para ti». É na capacidade de confiar nos nossos desejos e entregar-se com consciência às brincadeiras e jogos da vida que vamos encontrando os trilhos dos quais andávamos desencontrados. Trilhos que vão surgindo à medida que vamos tendo a coragem de largar velhos jogos, tóxicos, de largar o que já não nos serve para acreditar no processo de conquista dos nossos sonhos. São trilhos únicos e diferentes para cada indivíduo, mas onde nos encontramos com as pessoas certas para um percurso mais intenso e enriquecedor.

A primeira parte deste artigo saiu na edição de outubro, nº 81 e poderá lê-lo aqui.

 

Artigo publicado na Zen Energy Nº 82 (edição de Novembro de 2015)