Faço a ‘minha’ caminhada pelo ‘meu bairro’, com um amigo ‘meu’, o José Tolentino Mendonça, que esteve de visita à ‘minha cidade’. Comento: «Adoro caminhar por aqui, pela minha rua». E num sopro corrijo: «Minha não, a rua onde vivo, quero eu dizer». Ele contesta: «Tua sim, pelo menos hoje é tua». Respondo: «Sim, aceito, hoje, é minha, amanhã será de outro, é algo temporário». E remata: «Mas tudo é temporário, meu amigo, tudo é temporário». Uma breve conversa que me levou a um longo pensamento, que me fez recuar ao velho mito ‘para sempre’, à ilusão de acharmos (ingenuamente) que somos donos dos átomos e do vazio.

 

Damos por nós falsamente felizes e ‘preenchidos’ com as nossas pseudoposses de meia dúzia de partículas, de lugares e ruas, de pessoas e até de memórias. Quanta inconsciência a nossa usar o enganador e sedutor pronome possessivo para nos referirmos ao que ‘nos pertence’, quando na verdade até sabemos que a alma é a única coisa real e verdadeiramente nossa. Dei por mim a repensar nesse inalterável estado de dormência em que nós, humanos, ainda estamos: no uso e abuso daquilo que não nos pertence, daquilo que apenas nos é emprestado por tempo determinado. É aqui aonde quero chegar, ao tempo, ao instante, ao momento, ao prazo, ao finito.

 

O que torna uma pessoa realmente feliz?                                     

A grande maioria dos humanos (quase todos) baseia-se na crença de que aqueles que conseguem obter o que querem da vida são os mais felizes, a saber: poder, dinheiro ou influência, alguém com tudo isso já pode viver uma vida maravilhosa! Mas todos sabemos que isso, quando visto mais de perto, até sem lupa, já comprovou ser um embuste: os ricos, os que têm ‘tudo na vida’ quase sempre são os que andam mais perdidos, os mais amargurados, os mais inseguros e os mais insatisfeitos. Ter bens não significa ter momentos de graça, instantes divinos, afetos profundos, amores correspondidos. Ter uma rua linda, um bairro extraordinário, uma cidade maravilhosa, não equivale a uma felicidade permanente. Equivale, talvez, a um estado passageiro de bem-estar.

 

Então, paremos e pensemos todos juntos: torna-se claro que quase todos os prazeres neste mundo físico são temporários. Como resolver este dilema? Ensinaram-me que apesar de o dinheiro comprar uma casa e outros bens (males), só o amor que uma família compartilha nesse espaço é que transforma essa casa em lar. Ter uma excelente vizinhança no bairro, viver numa cidade com ‘tudo’, apenas vale quando conseguimos sair da gaiola dourada para compartilhar o nosso tempo e o nosso carinho com os que nos rodeiam, e não o nosso dinheiro, mas outro tipo de partilha, muito acima da matéria, porquanto só isso cria laços duradouros e profundos. Nenhum título, nenhuma grife, nenhum objeto de grande valor pode despertar em nós o senso de autoestima e de ser-se humano mais do que quando estamos presentes e disponíveis para alguém que precise de nós e desperte em nós um dos maiores alimentos da vida chamado compaixão.

 

(Continua…)

Leia este artigo na íntegra, na Zen Energy Nº89 (edição de junho de 2016), já nas bancas.